2013-03-06

Almedinarrabidashopping

Tem de ser, a palavra é grave.
Não esdrúxula.
Não aguda.
Almedinarrabidashopping é uma palavra, a sua palavra, e é grave.
Como talvez seja grave que ele não compre mais livros n'Almedinarrabidashopping, e, por causa disso, o acusem de esdrúxulo.
Espera, espera. Não é bem assim. Na sua livraria de eleição, a Leituradocidade, de pé, decidiu que o "Vida e Destino", do Vassili Grossman, apesar de uma primeira página sublime, não era para ele. Depois ouviu dizer que alguém chegado tinha andado a sondar na Leituradeceuta se o dito livro era adequado a uma pessoa que gostava muito de livros. Mas que tipo de livros lê? Todos. Todos? Todos. Mas mesmo...? Sim, mesmo. Pega em todos, escuta-os, prova-os, às vezes engole-os mastiga-os, despreza-os, namora-os, presta-lhes vassalagem, ali, sempre de pé, quase sempre de pé, e depois pergunta se alguém quer fazer alguma coisa que ele não queira fazer para voltar às livrarias uma e outra vez. Costuma comprar na fnacdogaiashopping e na fnacdesantacatarina por causa da vida e do desconto e dos pontos. E porque, no fundo, agradece à fnac a inciativa dos livros para mexer. Tinha estado numa fnacdestrasburgo, há quase vinte anos, deslumbrado. Como pode uma livraria ter cinco pisos e computadores e discos e deixar mexer em tudo e ainda dar sofás e conforto (as portuguesas começam a tirá-los, mas o pessoal até no chão se senta)? Depois abriu a fnacdonorteshoping e ele foi a correr. Foi a primeira a norte. Que maravilha. Depois veio um metro igual ao que eles lá tinham e depois começaram a abrir coisas de pessoas nas galerias, ali no centro do Porto, e hostais e assim, e de repente ele tinha uma cidade igual à que tinha sonhado, não amado, porque ele sempre a amara desde a rua do cimo de vila. Mas estamos a fugir. Acusam-no de esdrúxulo porque a Almedinarrabidashopping é, desde que abriu, o lugar que mais o recebe e menos livros lhe vende. Ele jura que a gratidão ainda dará frutos, mas para já abre-lhe uma janela sobre Sines e o profundo tédio do Al Berto, e todas as semanas ele vai no expresso das cinco de sexta e volta no das seis de segunda, ou algo assim, com o Al Berto, percebe-lhe o frio, parte da loucura e da lucidez, enfim, para não sair do assunto, quando pede o café àquela menina leve do bar, acho que se chama Paula, não sei, quando a livraria abriu o bar era num mezanino, isso fechou e agora é logo à direita de quem entra e é todo branco, e sobre o "Vida e Destino" ele pediu que esperássemos por ele no cinema e o café à menina leve e leu trinta páginas de enfiada. Ele tinha dito que a primeira página era sublime, depois hesitou, é muito dinheiro, talvez seja um livro pesado, talvez não seja para mim, e quando ouviu os boatos de que alguém ameaçava oferecer-lho foi lá e fez isso: pediu um café à menina leve de cabelos compridos que eu acho que se chama Paula, ou melhor, ele já não pede o café, ela adivinha pela cara dele, é um cafezinho, certo? O café também deixar de ser agudo, e fica grave quando diminui. E perde o chapéu. É quase sempre assim com as palavras, excepto na mercearia da vila, onde o senhor Raimundo Faria usa diminutivos com chapéu, artimanha que os torna gravíssimos. Escreve sempre num papel quando manda o moço entregar o pão: aqui tem o seu pãozínho, senhor dôutôr, o til é uma espécie de echarpe e o recado vem com a oferta de três chapéus que normalmente não estariam lá, o que mostra a generosidade do senhor Raimundo Faria. E então foi assim: quando o outro pediu o café ou a menina leve o adivinhou e leu as trinta páginas do "Vida e Destino" chegou branco ao pé de nós, estava o filme quase para começar, e só repetia, com os olhos nas colunas de dolby surround do tecto do multiplex, qual Guerripaz, qual quê, e o filme, marcante que foi, só lhe suscitou este comentário, como é que este livro andou perdido tantos anos? E foi. Comprou-se-lhe o "Vida e Destino" n'Almedinarrabidashopping e ele nunca mais o largou. Anda a estragar-se com o da Hélia Correia, mais gordo, comprime o "Adoecer" na mala da carrinha e nos outros lados todos, porque ele não larga nem um nem outro. N'Almedinarrabidashopping, que ele admira pelo tempo que guarda os livros expostos das notas de devolução e da figura jurídica da consignação, mais do que pela quantidade de títulos, ele dá voltas breves e retoma os mesmos livros, com uma ou outra adição, lê o Atualsemcêdospresso, os contos do Kafka, muito Borges (mais o Aleph), os ensaios de teatro, Araparigasemcarnedojaimerocha, o segundo e o terceiro do Askildsen e todos os que dizem ser maus, conta-me sempre das surpresas, não começa mal este da Margarida, e fica sempre, sempre, de olhos tão alvos como a luz do bar e da menina leve que acho que se chama Paula, quando lhe pesam a Lispector e a Llansol e ele manda embrulhar escrevendo no espaço entre-cordas, como o senhor Raimundo Faria faria, aqui tem o seu pãozinho, quantos vão ser amanhã?

PG-M 2013
fonte da foto: Almedina

3 comentários:

Virginia disse...

Comprei a manhadomundo ( conhece?) no leiturabulhosadocidade, onde passo algumas horas quando me apetece folhear os livros sem os comprar...
As livrarias fnacdonorteshopping e fnacdesanatacatarina não me seduzem muito, já gostei e gastei mais nelas no tempo em que se compravam cdsdemusicaclássica, daqueles da Naxos.
Onde é que isso vai? E lembra-se da melodiadabrasília? Essa tinha tudo do bom e do melhor.

Pois, continue a andar por esses lugares sagrados, que a missa é aberta a todos os fiéis...

E que eu morra aqui se não for à barnesandnobles ou se a barnesand nobles não vier até mim.

:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:) fala-se aí em cima da leituradocidade, claramente a que melhores fundo tem em todo o distrito - das melhores do país - e minha livraria de eleição. Mas à Almedinarrabidashopping tenho muito carinho - e a admiração pela resistência dos livros:)

Virginia disse...

Também gosto do espaço lindissimo em termos arquitectónicos da almedinaarrabidashopping. Sempre que vou ao cinema, dou lá uma saltadinha...é muito mais bonita que a leituradocidade....

Comprei muito na almedinadecoimbra, quando era estudante e professora novata. Tinham tudo o que saía de novo. Maistarde passei a ir à britanicadajosefalcao, que já fechou.

Livrarias....um dos meus sítios favoritos para passar o tempo....aqui não há nada que chegue à Borders ( que faliu) à Harvard Bookshop (lindíssima, onde passei muitas horas) ou à Foyles em Charing Cross, que era um labirinto autêntico!!

Tantos "museus" e tão pouca gente a ler....:))