2013-03-22

Ai de mim

Ai de mim ao tempo em que nenhum som se detém atrás de portas. É fundamental ser estúpido para ser feliz. Ouço todo o tipo de vozes em cada silêncio. Nos padres a olhar por cima dos óculos. Nos governos quando cingem os lábios. Nas oposições quando levantam vozes e engrandecem narinas. Nas empresas quando cerram fileiras para despedir os que não contrataram leasings milionários. Nas artes quando repetem as loas e os espancamentos, quando a sabedoria passa a esperteza saloia, quando o ódio e o desprezo são tudo o que da letra impressa se pode beber e a preguiça mental nomeia os mesmos grandes nomes, as mesmas revelações, os mesmos génios apócrifos. Quando se aplaude o sofrível escolhido pelo medíocre. Quando reinam os cínicos, tanto calam que o rei vai nu e vêm a chorá-lo na pós-deposição, e desculpa, tão ampla desculpa. Não vira a luz, a luz, a luz. Estes que se somam e se tomam mutuamente pelos pescoços e depois mutuamente se salvam. E chamam à lucidez loucura. Passantes cinzentos de ombros supridos apontam o dedo sem saber a quê. Diz que diz que diz. Não se fazem perguntas nem se diz que não. Comenta-se. Transitam em julgado todas as sentenças orais. E os broches. Não é bem dizer que não, é dizer porquê e para onde. E de qualquer sexo ou quadrante, ai de nós os que nos sentamos a mesas talhadas em troncos de oliveira antes da casa a toda a volta como a cama de Ulisses e Penélope e não nos deixamos foder. Ai de nós que sem bicos nos pés nem na boca serenamente percebemos que a mediocridade gerará mediocridade até se sumir o osso e voltarmos todos a surgir do chão porque sim e porque é assim. Os não desistentes estão calados porque calados não serão notados nem feridos. Os mais pacientes irão por dentro em cavalos de madeira. Só parasitando a mediocridade a decência vingará. Entretanto mulheres ocupadas rejeitarão, cansadas, o poder e a escrita e tudo continuará na mesma. Serão quatro gerações até à clareza. Ai de mim.

PG-M 2013

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