2013-02-07

Os inamigos

Foi avistado na língua de areia áspera da praia de Chesil, que em Dorset neste século vinte e dois só fica a descoberto de nove em nove anos se o verão for precedido de estações doces, o esqueleto exquis do que pode ser considerada uma nova subespécie humana - e que poderia dar ao cientista que o sintetizou o prémio Nobel da verdade, se ainda existisse, não tivesse a verdade sido violentamente abandonada ao longo dos duzentos anos precedentes, com todas as corrente filosóficas a assentar a sua busca no inútil, em prol de um sistema de conhecimento assente em parâmetros de autenticidade.

Serás autêntico, ainda que tenhas de mentir ou omitir ou até omentir para sobreviver.

A subsespécie do esqueleto é a subespécie dos inamigos.

A humanidade viveu os últimos duzentos demasiado perto dos inamigos para perceber que os tinha. A incompreensão do seu comportamento levou a uma explosão de suicídios e homens-bomba, que se colocavam estrategicamente junto da sua vítima para lhe iluminar e em simultâneo lhe dinamitar a vida e os órgãos internos. Aos inamigos chamava-se na altura conhecidos. As chamadas redes sociais, hoje designadas genericamente como maquilhagem, exponenciaram as paixões e arrebatamentos entre esqueletos maquilhados e a empatia dos modelos vazios que iam caindo para dentro uns dos outros.

A sociologia moderna mostra tendência para incorporar os inamigos no borboto dos tecidos, defendendo que o homem de hoje demora menos do que o de ontem para limpar as excrescências do entorno. Mas é sabido ao que levou a prática do bloqueio: nas redes sociais do século vinte e um, muitos animais ficaram viciados no exercício de eliminação de "amigos" de forma liminar, e é hoje conhecido como o treino do liminar e da visão redutora do outro como um mural de vidro, em conjunto com o poder incontrolado da demagogia de colectivos que se agregavam de forma rápida, como nunca antes na história da humanidade, levou ao repristinar dos genocídios e trouxe uma nova noite ao mundo, com um milhão de homens e mulheres a devorarem-se uns aos outros da equerda para a direita e da direita para a esquerda, com todos os políticos clássicos decapitados e com a corrupção erradicada até reasssomar para facilitar o bem.

Hoje, felizmente, os animais são todos iguais, e não são consentidas descriminações entre cães e crianças, com a vigilância da comissão de concordância prática de direitos constitucionais.

Até serem erradicados, o poder advoga que deve haver tolerância com os inamigos, e que é normal sentir empatia por tais seres ou crer que se tem mais amigos do que a contagem efectiva de cabeças.
Ainda na linha filosófica da autenticidade, os testes de amizade nos parques de linhas de comboios em que a alma em perda tem de escolher salvar uma de duas pessoas amarradas aos carris têm sido eficazes, além de permitir um controlo populacional.

E apraz registar a unanimidade social no sentido de excluir o conceito de naturalidade do erro humano e de que a vida é dinamizada pela imperfeição. O impasse dá pena de morte.

Na praia de Chesil, em Dorset, de nove em nove anos, já não há corpos nus.

PG-M 2013
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