2013-02-25

O bom e o mau na noite das evidências

 A minha 28ª noite de óscares sem interrupção. Uma delas foi acompanhada em directo na TSF, e as primeiras só se conseguiam ver - e mal - na TVE. É apenas um (bom) vício, não uma crença cega no mérito. É também a 28ª crónica - as primeiras dez estão manuscritas, não sei da papelada (talvez perdida para sempre:). As outras estarão em ficheiros digitais duvidosos. Apenas as deste blogue se salvam. Vamos a isto:
Aqui há três ou quatro anos tivemos uma noite clássica, plena de autenticidade, a única em 28 anos - devem lembrar-se daquela excelente ideia de o apresentador falar, um a um, "ao coração"dos nomeados para as categorias principais. Isso tem sido repetido, com algumas variações, ano após ano. Este não foi o ano, mas foi isso que gostei na abertura do Seth McFarlane, a quem devemos agradecer horas de riso inteligente por American Dad ou Family Guy. Foi autêntica. Não se sentiu por um momento o mau gosto nem a vontade de parecer mais do que o que é. O Seth não tem grande presença, mas o mítico Capitão Kirk da Star Trek tem, e ele trouxe-o (porque é que não convidam este para anfitrião?). Nenhuma piada evidente, algumas arriscadas, a preparar o terreno para o que vinha. Simplicidade e inteligência. Que me parece toda com o dedo do Seth, que, de acordo com o que pude apurar, se estendeu a pequenos detalhes noite dentro. E que bom foi ver a enorme Charlize dançar, como bem reforçou Dustin Hoffman.
O óscar de melhor actor secundário foi o para o austríaco Cristoph Waltz (é o segundo): o Waltz será sempre brilhante. É um grande actor. Mas é muito mais valioso um papel não histriónico como o do Philip Seymour Hoffman em "The Master".
Quanto à animação, gostei do "Brave", sinceramente, e ainda mais do "The paperman" (curta). Em termo de apresentação, excelente a ideia dos cinco actores a entregar óscares na categoria de fotografia e efeitos especiais - lá está: simplicidade e aposta na qualidade dos comediantes que esta noite homenageia.
Outra grande ideia: a música usada nos ataques do "Tubarão" para interromper os que se alargaram no discurso: mais uma vez a simplicidade de uma boa ideia (quase apostava que foi do Seth).
E quanto à melhor secundária, voltamos ao debate histriónico/ subtil. Fora de causa o bom desempenho da vencedora Anne Hathaway, mas foi a escolha mais evidente. Amy Adams começa a assumir-se como a nova Glenn Close, e não merecia. Já lá vão quatro nomeações a ver navios. "The Master", sem este, ficou em branco - e é o melhor filme do ano, juntamente com Argo.
No argumento adaptado, uma justíssima vitória para Argo.
No original, deixando de fora o merecedor, Paul Thomas Anderson (The Master), ganhou justamente o eterno Tarantino, com um discurso humilde e nada louco, que homenageia os seus actores, Jamie Foxx e o duplamente oscarizado Cristoph Waltz. 
No óscar para melhor realização, depois de deixarem de fora o Affleck - impensável - tinha de ser Spielberg a salvar Lincoln. Não foi: uma relativa surpresa Ang Lee a reforçar a Vida de Pi.
Para melhor actriz, perdeu-se a oportunidade de premiar um daqueles papéis "greater than life", como era o da actriz mais velha a ser nomeada, a grande Emmanuelle Riva. Pessoalmente, até gosto da Jennifer Lawrence, a vencedora, mas é uma miúda e tinha tempo. E, por bom que tenha sido o seu desempenho, não se compara ao de Emmanuelle. É outro universo.
Nos actores, muito bons Denzel Washington, e o merecedor, que já defendi aqui, Joaquin Phoenix. Mas Daniel Day-Lewis, com o seu Lincoln, entra na história como o primeiro actor a ganhar três óscares, e será conhecido nos próximos cem anos como o maior actor alguma vez vivo. Não é que não mereça, é um grande actor, mas fica o grande desempenho de Joaquin para o esquecimento. Excelente e bem humorado discurso do vencedor. Disse que tinha sido rejeitado no casting para Thatcher (preterido pela que também será considerada a melhor actirz de sempre, Meryl Streep, e que lhe entregou o óscar) e agradeceu a mulher por aturar tantos homens diferentes dentro de casa.
A entrada em directo da primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, mostra o poder de Hollywood. Ou de Jack Nicholson.:).
Quanto ao melhor filme, anunciado por Michelle, era previsível, há algumas semanas, que seria Argo, e assim foi. E merecido, porque "The Master" não podia. Não com a noite das evidências. E sempre deu para ver o protagonista de "Breaking Bad", o pequenito dos cafés, o tal de Clooney (produtor), e o verdadeiro vencedor, Ben Affleck, impressionantemente nervoso, mas finalmente humilde. Affleck aprendeu. E merece. Discurso intenso. Há poucos destes no fim destas noites.
Em resumo: uma noite previsível, sem grande emoção, mas bem realizada, apresentada e alinhada. Uma boa noite de óscares, apesar de tudo. O Seth escreveu-a bem e, não sendo entusiasmante ou inesquecível, é decididamente um tipo com bom gosto. E com um número final, dedicado aos perdedores: de facto, as noites de óscares acabam todas de repente, e este encerramento diferido não foi nada mal lembrado. Até para o ano.

Lista de nomeados e vencedores aqui.

PG-M 2013

2 comentários:

Virginia disse...

Estava com interesse em ler a sua crítica, depois do que li sobre The Master, quanto a mim , um dos filmes que mais me impressionou este ano e cujos rostos me ficaram na memória. Joaquin Phoenix e Seymour Hoffmann não vão ser esquecidos por mim e nem me importava de tornar a ver o filme.

Ainda não vi Argo, não sei se mereceu, se não, mas acredito que sim. Não gostei muito da Michelle a intervir, mas Hollywood é capaz de tudo. Acho que o princípio foi a melhor parte e adorei o Captain Kirk a mandar os seus bitaites para que a festa não ficasse arruinada.....:)

Já nem vou escrever nada no meu blogue. Remeto os meus leitores para o seu, pois é sem dúvida completíssimo e certo.

Ainda estou meia zombie por me ter deitado as 5 da manhã...sonhei com estatuetas que gostaria de entregar aos criadores de blogues capazes de me interessar ( ainda....)

Obrigada!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

ahahah. Eu vou ganhar um óscar, disso não se livra, mas gostava que o nosso centenário realizador, pelo menos, levasse um honrário - bem merecia. Obrigado. Creio que a minha crónica foi a primeiríssima e ir para o ar:).