2013-02-19

Não por escrito

Amo Maria
e mais duzentas mulheres
amo as pedras do calçado
o caule dos malmequeres
o tempo que faz no peito
(e ao cima da vila a rua)
a altura do pé direito
do menor lugar de ti
e os mendigos do sinal
e o cruzamento onde li
o tom de um olhar normal
mas também amo a vertigem
do livro de perdição
na jaula da Relação
amo o cajado e a sombra
do pecado e da miséria
mas também amo sem rima
amo as gotas do silvado
as lâminas da manhã
os aromas venenosos
amo a viela do anjo
amo os corpos maculados
os cafés da deu-la-deu
a tristeza do Abel
a Sá da Bandeira alada
a copa das árvores nuas
amo São Lázaro, avô,
o Orfeu das belas artes
o cemitério e os mortos
que ao fundo dão no rio
amo o Stop e amo o Dallas,
o Brasília e o Rui Veloso,
o Tê e o Rui Reininho,
amo os pavões do palácio
a Garrett e as camélias
o Porto que vem das tripas
o Benfica nos amigos
amo a Rua das Pedreiras
o campo do Belenenses
a Calçada do Galvão
amo Lisboa às avessas
em olhares lentos e doces
amo Coimbra a ferver
no sangue do meu amor
que é do negro da Académica
nos Olivais, no Madeira,
na recta Dias da Silva,
no retrovisor cromado
do Mazda do professor
de Economia e Finanças
que matava os seus mosquitos
de banco e de luz acesa
no Penedo da Saudade

Amo a mesa preta oblonga

das quartas do holandês
prenhe
dos copos secos de fino
do Maria e a Zé e a Paula,
(ai o corpo da Paulinha)
os coches em pão de hambúrguer
a noite em batatas fritas
o Taxeira em moedinhas
os caralhos do Al Berto
nas morgues do Dom Dinis
as coxas do Mandarim
as bebedeiras do corso
as putas na associação
a Benedita e o Aroso
o bedel e o bar de letras

(o Pina em letra de imprensa)

Amo o Aviz e o Ceuta,
os gelados da Sincelo,
o minigolfe da Foz,
a Rádio Nova e a velha
da Rua da Picaria,
amo a tarde na Arcádia
em que te li hermenêutica
e perguntei, não entendes?
ainda bem, eu também não,
e os teus olhos brilharam
e o mundo todo, em vão,
foi tomado de cuidados
se te amasse não diria
palavra que se apagasse
num volume de Direito
pois então não disse nada
mas, tu sabes, amo tudo
que não puder ser deixado
como verso num poema

e também te amo a ti

mas sem rima
e não por escrito

PG-M 2013
fonte da foto





2 comentários:

Virginia disse...

Sou de Lisboa, nada e criada, namorei em Coimbra durante uns anos um estudante da academia e moro o Porto há 33 anos.

Este poema é um bocadinho meu.....reconheço-lhe os traços e viajo no tempo.

Obrigada!

PS. Acabei de ler o seu livro A Manhã do Mundo. E se....???

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Virginia. Quanto ao poema, faça-o todo seu, por favor. Escrevi-lhe a agradecer o seu estatuto de leitora. É algo que faço sempre que posso. Obrigado.