2013-02-10

Maus tratos ao bom teatro (pela Noite com os plebeus)

Quando tenho a sorte de saber que os plebeus avintenses vão levar à cena uma peça, quero sempre ir ver. Este grupo exala competência, empenhamento. É voluntarioso e abnegado. Talvez seja o mais profissional dos grupos não profissionais que conheço. Esta noite excederam mais uma vez em valor o que cobram pelo bilhete (3,5 Euros) para nos darem "A noite" de 24 para 25 de Abril de 1974 dramatizada por Saramago e encenada por Eduardo Freitas. Mas voltemos ao início: quanto tenho a sorte de saber. Já não sou de indignações supracutâneas, mas esta noite estive no teatro indignado até às vísceras. Estava mais gente em palco do que a assistir, e, à medida que a peça se ia desenrolando e o público ia percebendo que muitos dos actores não ficam a dever nada à maioria dos profissionais que conhecemos e que a encenação, enxuta e competente, é de qualidade, ficava a pergunta suspensa no ar: de quem é a culpa de estar tão pouca gente? Certamente do poder local, ao nível da freguesia, que podia e devia ter espalhado cartazes pela vila. Certamente do poder local, ao nível do município, que não divulgou devidamente a peça. O cartaz que estava no teatro não era apelativo, nada dizendo sobre o enredo, o que não se compreende numa peça que, como se diz no encarte, foi escrita por Saramago para o povo, povo esse que, se soubesse o que ali está, acorreria em massa à sala. Mas se ninguém lhes diz. Se se divulga de forma mínima e, pior, minimalista.Valadares é uma terra preguiçosa - eu sei, moro cá - e sem dinamismo cultural. Nem sequer cuida dos seus, quanto mais dos ilustres visitantes, como este grupo de referência, quase centenário. E a Gaianima não anima nada. E voltando ao encarte, nem mesmo este tem uma linha que seja sobre o enredo da peça, por sinal a primeira de Saramago. A peça é muito curiosa, e traz-nos aquela dor do génio de quem a fez, ao descrever-nos a realidade do jornalismo de hoje com o tempo de ontem. Ainda que tanto tenha mudado, a própria velocidade, aquilo que inquina a credibilidade da notícia está igual. O Camurça (Manuel Almeida), protagonista Abílio Valadares, é um chefe de redacção histriónico na medida certa, bem secundado por Eduardo Moura e António Soares, as singulares Paula Vieira e Carla Mota, o assertivo Bruno Costa, o rigoroso Serafim Dias, e todo o restante elenco: está bem escolhida a Cláudia (Eduarda Alves), mas confesso que a belíssima Ana Magalhães não tem culpa de não criar antipatia com a corrupta Guimarães- sem que isto seja essencial, penso que a Guimarães teria tudo a ganhar com uma figura mais pesada, conservadora, embora também se perceba que se pretendeu que os alinhados com o regime tivessem um leque alargado de idades. Em resumo, uma boa peça, uma grande esforço dos plebeus, um excelente e envolvente final - mesmo forte, inspirador - imperdível e digno de encher dois Cine-teatros Eduardo Brazão, e que merecia uma divulgação decente das entidades oficiais no lugar onde foi levado à cena, e não a teve (não basta imprimir cartazes - alguns dos quais copiam o que se escreve sobre "A noite" em toda a internet): e isto não custa propriamente dinheiro, mas trabalho, dedicação e competência.
Custa também Portugal.

PG-M 2013

2 comentários:

Bruno disse...

Olá!
quero informa-lo que os espetáculos de 8 e 9 de fev. eram de solidariedade social para IPSS de Valadares 8 fev. que teve uma lotação de mais de meia casa, e 9 de fev. para "Paraiso Social" Junta Freg. Vilar do Paraiso. Mais informo que Os Plebeus Avintenses abdicaram da percentagem a que tinha direito da bilheteira em favor destas instituições.

Com os melhores cumprimentos,
Sec. Direção Os Plebeus Avintenses
Bruno Costa

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado pelo esclarecimento, Bruno. Mais uma razão para ter havido uma promoção especial, pelo município e pela freguesia, dos espectáculos. Não houve. E não se pode deixar o bom teatro assim. É preciso comunicar e divulgar.