2013-02-25

De Correntes

 Um bom amigo perguntou-me se este ano não reportava as Correntes. Durantes anos escrevi sobre as Correntes d'Escritas, o maior evento literário português, e sempre o fiz com um entusiasmo difícil de conter. Deixei de o fazer no ano em que passei a ser autor publicado. Confesso que não foi fácil conciliar o prazer no absoluto anonimato com a inquietação de já não me sentir marginal. Mas quem não é conhecido de quase ninguém e não se quer mostrar não se mostra mesmo. Entrar tarde na sessão de abertura, ficar no escurinho, sair mal acaba, escolher o segundo balcão do auditório. Apagar-me traz-me outros prazeres. O prazer de ouvir sem julgamentos liminares, de apreciar sem o próprio ego de permeio, sem sentir a obrigação de dizer o que quer que seja. Algumas surpresas. Ter a mão da Hélia entre as minhas, o Onésimo a pedir-me um livro porque uma amiga comum o tinha espicaçado, a minha editora Rosário Pedreira a arrebatar corações com aquela bonita voz projectada, no centro da noite. Se a Rosário começou lá, muitas Correntes atrás, uma história pessoal bonita, foi também na Póvoa que eu e ela tivemos, há que tempos, a nossa primeira reunião. Lá vi e revi bons amigos. Este ano a sessão de abertura não permitiu tanta discrição. Não se fez na sala de espectáculos do Casino, mas logo à entrada, num pequeno auditório, onde ninguém se pode esconder. O acaso protegeu-me quando vim atender o telemóvel cá fora, à entrada do Casino da Póvoa, e a Hélia estava, no mesmo local, a dar uma entrevista ao telefone. Eu tinha chegado tarde e não sabia que ela tinha ganho o Prémio das Correntes. Quando terminei o telefonema, a Hélia entrou à minha frente, porque também tinha acabado o dela. Não nos conhecíamos, mas quando a vi ali sozinha disse-lhe quem era, falámos de amigos comuns, pedi-lhe finalmente - e em pessoa - desculpa por, sendo um fã absoluto e leitor de primeira hora da sua obra prima "Adoecer", que, expliquei-lhe, anda a envelhecer no banco de trás do carro e é usada como garrafa de oxigénio (o que é tão bom sinal, comentámos), o ter indicado nas "Escolhas" do "Atual", suplemento cultural do Expresso, como "Adormecer" (imperdoável dislexia:). Tinha a sua mão entre as minhas, supremo privilégio, e quando a deixei também tinha uma fila atrás de mim. O primeiro da fila era o Rui Zink, ainda na véspera de exponenciar o verbo "grandolar". Distraído como sou, só percebi a razão da fila quando, a comer o melhor risotto do mundo, o do Maurizio, na Pizzaria Castelo, ali mesmo, por trás do Casino, vi na televisão a Hélia a receber o prémio. No Sábado voltei com a minha mulher e, finalmente, consegui sentá-la confortável a ver uma "mesa". Até ali ela tinha ficado sempre contrafeita, sentada nas escadas de madeira do balcão ou de pé nas faldas da plateia. O Jaime Rocha falou de vizinhos parecidos com os meus - afinal, só queremos vingar na literatura para que os nossos vizinhos se orgulhem de nós, se aqueçam connosco e com os nossos livros nos seus longos invernos. Sábio, o Jaime começou assim: "Não tenho nada para dizer, por isso vou falar." Riso e boa disposição. Terna ia a manhã. O Jaime Rocha, grande poeta e marido da Hélia, foi o centro da manhã, moderada pelo Onésimo e com excelentes intervenções do Joel Neto ("passarei a escrever para uma montra açoriana") e do Possidónio Cachapa. Ao ver a Cristina Carvalho dizer que não consegue ser espontânea - o texto era bonito -, como a compreendo,  ou a Andréa del Fuego, com uma vozinha sumida a ler um excelente texto, fiquei a pensar no medo que terei no dia em que for convidado e cumprir um sonho. Sim, a única forma de dizer isto sem ser mal-entendido é contar a verdade: estar numa mesa das Correntes foi sempre um sonho distante, igual a discursar nos óscares, nunca uma vontade real, porque na altura não fazia sentido e hoje não tem merecimento. Com convites para escolas e eventos, com os lançamentos de livros, rapidamente percebi a falta de jeito para estas coisas, ainda que quase todos tenham corrido bem - a minha gaguez é simpática, as minhas hesitações amáveis. Em 2012 tive mesmo pânico de ser convidado, o que seria natural, dada a publicação do livro em Maio de 2011. Não fui, e consegui recuperar o absoluto prazer de ir à Póvoa sendo o nada absoluto. Gosto de andar pelos cantos, saber sempre onde há lugar para o carro, saber sempre onde levar gente a almoçar (aquele risotto!) e já lá vou há muitos anos. Quando não posso ir um dia inteiro, escolho as "mesas" possíveis, como este ano, provavelmente aquele em que menos tempo passei na Póvoa. Ainda assim, tem sido tocante ler os relatos de vários participantes, de jornalistas ou bloggers, como ficam arrebatados, como percebem a raridade do momento. Como tão bem escreveu o Zé Mário Silva no seu "Bibliotecário de Babel", "Chega-se à Póvoa para matar saudades. Sai-se daqui cheio de esperança.". Eu acrescento que é sempre bom ir à Póvoa ver como quase todos os participantes se sabem diminuir em prol dos pares que brilham, ver como o meio literário consegue ser maior do que ele próprio e durante três dias não se divisam ímpios. Como todos se comovem justamente, como choram as almas por um mundo em que as Correntes não sejam a excepção.
As Correntes são um desígnio maior do que nós, mas no entanto são a nossa cara.

PG-M 2013
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