2013-02-12

A injustiça (para Phoenix, e alguma coisa sobre óscares)

Em relação a Paul Thomas Anderson (PTA), um anito mais novo do que eu, sou e serei sempre suspeito, mas também ninguém me pede que escreva com objectividade e sem tripas, caso em que estaria morto e a assombrar.
Não vos dou propriamente nota do filme "The Master", porque se torna redundante dizer que qualquer filme de PTA é obrigatório. Vá, um mdesto aforismo, seja, um epigramazito: se Magnólia é um filme genial com momentos muitos bons, The Master é muito bom com momentos geniais. A cena voyeur, em que as mulheres aparecem todas nuas, é comovente, surpreendente e memorável. Freddie Quell a correr no campo lavrado, para fugir dos familiares do supostamente envenenado. Há outros, muitos, momentos, porque The Master, sendo um bom filme, é acima de tudo uma sublime composição e uma base para grandes actuações. Podia nem ter história, que ficávamos a ver em plenitude Philip Seymour Hoffman, Amy Adams (prováveis vencedores dos seus óscares este ano), o próprio Jesse Plemons, e - meu deus, que grande, grande - Joaquin Phoenix. Mas tem. Tem história, perturba, convoca, faz pensar: o pensamento mais perturbante que me sai do filme é como podemos achar génio numa seita, sem que isso represente perigo: se a pulsão da liberdade terrena (como a de Quell), perante um discurso tão assertivo que se torna sufocante, for sempre superior à tentação de libertação divina, podemos.

Mas está garantida a injustiça da década, provavelmente uma das maiores da historia do cinema: não coroar o Phoenix renascido. A produtora devia ter tido a decência de apontar Joaquin Phoenix para o óscar de melhor actor secundário. Não é, é principal, mas também Seymour Hoffman é bem principal e foi apontado para secundário para fugir à trituradora de Daniel Day-Lewis e o seu biopic de Lincoln na categoria de actor principal. O problema está aí: Day-Lewis é só muito bom a fazer o seu Lincoln, mas Phoenix é estratosférico a fazer o seu Freddie Quell, assim como Seymour Hoffman é cumulonímbico a fazer o seu Lancaster Dodd. Phoenix, depois de em 2000 ter perdido o óscar de secundário para Benicio del Toro (Traffic) e em 2005 o de principal (nomeado pelo seu próprio biopic de Johnny Cash) para o Capote do seu agora parceiro de filme Seymour Hoffman, perderá injustamente a actuação de uma vida (tem lá tudo, é inútil explicar porquê - até a contenção da grande arte) para outro biopic. Claro que há anos em que a maioria do pessoal da Academia parece ver os filmes. Se este fosse o ano, teríamos a surpresa da década, mas porque é que eu duvido tanto? Bom, já acertei na primeira negra (Halle Berry) e na primeira francesa (Marion Cotillard) a ganhar a actriz principal (o que, juntamente com o dado à altura subvalorizada Charlize Theron foram grandes alegrias das minhas insensatas noites do vício dos óscares), mas não tenho grande fé em alegrias este ano. E ganhar o justo e não o pecador é sempre uma grande alegria. Valia-me a Amy Adams, que há alguns anos vejo como uma das maiores, se ganhasse à quarta nomeação, embora tenha perdido sempre bem -  em 2005 para a pecaminosa Rachel Weisz (The Constant Gardener), em 2008 para ainda mais pecaminosa Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona) e em 2010 para a companheira de filme Melissa Leo (The Fighter) -, mas a coisa anda a cair mais para o lado da histriónica Anne Hathaway e da corajosa Helen Hunt.

Veremos já no dia 24 (25 de madrugada em Portugal) , mas entretanto não percam as composições de The Master. No cinema, se fosse possível.

PG-M 2013
fonte da foto

2 comentários:

Virginia disse...

Belíssima crítica, porque não escreve no Ypsilon que tem umas críticas de ....?

Adorei o filme, sobretudo por causa dos dois protagonistas. Não me saem da memória...
Já partilhei a sua critica no FB.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Virginia. Para escrever no Ípsilon tinha de fazer parte do circuito e ter muito mais amigos. Sendo uma entidade privada, não pode ser criticada pelo demérito ou excesso e ego. E dava jeito :). Beijos.