2013-02-26

A incomensurável tristeza


A manhã pesa-me
a tarde enleva-me
a noite tem-me

e na manhã
um homem chora um torso de árvore
que jaz na praia
contorna-o, deita as mãos à cabeça,
os braços ao céu,
na contraluz são iguais
aos ramos dela

e na tarde
pessoas embebidas em esplanadas
almas em copos
caras cegas
olhos longe
são gaivotas

e na noite
há crianças no bar e silêncio
todos fumam
caras brancas
há pipocas nas conversas
por comer
a solidão morreu
os pais não
estão cansados
só cansados
nus
inutilmente nus
sai luz de um beijo
uma língua queima
finalmente



A manhã pesa-me
a tarde enleva-me
a noite tem-me

e outra vez na manhã estão redes
sem pescador
e mares
sem torso

um homem chora na praia
de ramos no ar

A manhã pesa-me
a tarde enleva-me
a noite tem-me
sai-me
dilui-me
esvai-me
amanhece-me
entardece-me
anoitece-me
e o mundo

na incomensurável tristeza

PG-M 2013
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