2013-01-04

K (A, B, C) e a involução

Coisa curiosa e perturbante para o meu ofício de escrita:
acabo de ler as três versões do conto de Kafka "Preparativos para uma boda no campo", publicado postumamente e disponível na Assírio & Alvim (vol. 2). Normalmente, sinto que as primeiras versões dos meus textos (e dos textos dos outros) são sempre piores do que as posteriores. Mas a verdade é que, e apesar de ser apenas o meu sentimento, a primeira versão deste conto de Kafka, de 1906 (maço de folhas A), tirou-me o fôlego (a descrição inicial dos movimentos das pessoas na cidade é magnífica), e as seguintes, que vão, creio, até 1909, centram-se mais num personagem, Eduard Raban, e menos no entorno, e não me impressionaram. Claro que foram publicadas as três porque são notoriamente diferentes, e também não sei se Kafka quis que a seguinte eliminasse as anteriores (li em livraria), mas ficou a marca para reflexão: nem tudo o que produzimos depois é melhor. Às vezes pensamos que estamos a depurar e, provavelmente, estamos a sugar a alma do texto.
Foi o que senti nestas três versões do K.

PG-M 2013
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