2013-12-31

Lacerdiana



Lacerdiana: peça de teatro em forma de monólogo em que o dramaturgo se serve de um actor ou actriz como objecto ou tema. Idealmente, o actor ou actriz são o fundamento ou ponto de partida, fundamento esse retomado a cada quinze anos. As mais comuns são as lacerdianas 18 (o actor ou actriz deve ter cerca de 18 anos), lacerdianas 33 (a idade de Cristo), lacerdianas 48 e lacerdianas 63, sendo menos frequentes as restantes. Como é muito difícil que o dramaturgo tenha acesso ao mesmo actor ou actriz de quinze em quinze anos, o objecto muda frequentemente, não se conhecendo uma único caso em que o actor tenha sido o mesmo em todas as lacerdianas, necessariamente o escopo fundador do "inventor" desta formato, Pierre Guillaume. A primeira lacerdiana conhecida teve a sua primeira representação, pensa-se, faz hoje precisamente cem anos, 31 de Dezembro de 1913, no Théâtre Inez de Castro, em Nouvelle Ville du Callem. Foi uma lacerdiana 18, e a actriz que serviu de inspiração foi precisamente a conhecida Mademoiselle Lacerda. O nível de ficção desta entrada de dicionário prende-se apenas com a data da primeira representação, que é imprecisa e carece de provas mais cabais. O restante, contudo, está objectivamente comprovado e é fiel aos seus protagonistas. A lacerdiana é formalmente estimulante para todos os dramaturgos, embora extravase as fronteiras do teatro clássico e a própria posição relativa dos elementos em jogo. Para a celebração dos cem anos, vários dramaturgos - temos nota de pelo menos um - escreveram lacerdianas, sendo a mais conhecida em Portugal "Ekaterina sobre tudo" - uma lacerdiana 18 - elaborada, curiosamente, por um descendente português de Pierre Guillaume e cujo objecto é uma descendente portuguesa da Mademoiselle Lacerda. É inspirado nos clássicos russos. Espera-se encenação e representação nacional nos próximos cinco anos. A expectativa é grande. Não são previsíveis pateadas, como na Soror Mariana, mas Almadas há muitos. Entretanto, em Março de 2014 volta o Turismo Infinito ao Teatro Nacional São João, no Porto, logo seguido, precisamente, de Al mada nada.

PG-M 2013

Tu


só uma coisa me interessa: tu
só uma não-coisa me interessa:
tu
verifico-te desde a lua e o planeta é todo
tu, ou seja,
está cheio de matéria negra e estrelas,
tu,
tu à volta e tu por dentro

um contínuo sempre igual, sempre infinito

ou então estou cego
ou então vejo demais

isto não é um poema, és tu,
é uma maneira de te arrumar
de te sobreviver

de não te ver


PG-M 2013

2013-12-26

Diálogos com o Atlas, PIM! (I)

 Consequências graves da consoada nas ideias e no mundo: o diálogo com GMT e o seu Atlas. Que saudades, meu caro Gil Vicente!

- Novo: o acaso do fio de um metro de Duchamp - se largarmos um fio de um metro ele cairá formando desenhos sempre distintos. Todos eles medem precisamente um metro e afrontam os conceitos preexistentes da ciência e da forma de medir. A medida do meu raciocínio é muito mais parecida com o metro de fio depois de cair.
- Reencontro: descubro que o que sempre pensei, que a cronologia das ideias é hoje irrelevante quando trasnportamos a Bíblia e o Quixote e este Atlas bem juntinhos: séculos de ideias lado a lado e justapostos no espaço e na consciência de quem os lê. Hannah Arendt tratou e desenvolveu esta abordagem de Jaspers. Saudades destes diálogos, que não tinha desde que eu e o Gil Vicente nos separámos no espaço. Não o dramaturgo, o amigo. Que é bem melhor e maior.

Passaram vinte e cinco anos, caro amigo, e nós pensamos que somos os mesmos.

Se nos tivessem falado do conceito-vírus do Wittgenstein teríamos dito "é isso, é isso". Sim, nada de conceitos fechados e duros. O que está resolvido exclui o andamento e, em grande parte, o pensamento. O conceito deve ser aberto, dinâmico, produzir-se enquanto é discutido. É a teoria do jogo dinâmico de Gasset. O investigador está sempre perdido, ainda que se fortaleça pelo caminho. A Llansol escrevia sempre coisas  bonitas: "Dizer o que é, é ver." Não se trata de citações, mas de excitações, anos a pensar selvaticamente que agora se reencontram e nos amparam.

É precisamente a convicção da impossibilidade de fecho, de os escritores, como os filósofos, terem de começar qualquer discussão deixando claro que não têm razão (Adorno). A ração diária de erro do Carlos Drumond de Andrade: neste meu (nosso?) livro novo, o que vai sair em Março, decidi escrever que um guarda-chuva tinha uma haste partida. Não disse "a" haste, mas "uma" haste. Em rigor, haste é apenas o suporte central do guarda-chuva, mas há quem chame hastes às varetas. Eu quis induzir o leitor no dinamismo da dose diária de erro do Drumond e escrevi "uma" haste, remetendo para uma tempestade de ideias, como nos versos. Seria uma vareta? Seria o tronco central? Quer isto dar forma humana à frase, algo que o dono do guarda-chuva, e não o próprio objecto, tinha por resolver? Ou era apenas uma vareta? Eu podia ter escolhido "a" haste ou "uma" vareta. Mas aí estaria fechando a frase. Às vezes é preciso fechar as frases, mas nunca podemos fechá-las a todas, como dizia o Almada do Dantas Pum! Temos de deixar portas para que o leitor entre e saia, janelas para arejar, pontes para saltar.

Os melhores diálogos são aqueles em que nos afastamos do centro e navegamos à vista das margens do outro. Devemos investigar, buscar o que não está dito, mas, se não somos definitivos nem temos conceitos e pensamentos fechados, também não podemos exagerar na proposta alternativa: se perdemos totalmente o outro, o diálogo deixa de ser possível. Quantas vezes encontramos nos encontros colectivos o tipo que está sempre a desconversar? Isso não é suportável, mesmo no cultivo do humor. Essa deriva é fundamental para que possamos evoluir, mas nunca devemos perder o outro de vista, e os egocêntricos já nos perderam de vista antes de se cruzarem connosco. Esses desconversadores são, acima de tudo, egocêntricos. Ora, se para mim me parece discutível que tenha de haver um centro visível em todas as investigações, quando esse centro é um ego está tudo o resto, todos os demais, excluído(s).

É por isso que tendemos a rejeitar os "sentenciadores", e a sentença é o primeiro sintoma da medocridade ou da escalada social ou cultural, mas também o que distingue os sábios dos logros: não deixar abertura, inexactidão, para o interlocutor/ leitor explorar, pondo-se dentro o fora.

Os posts muito fechados, muito perfeitos, colocados nas redes sociais, tendem a não ter comentários, mesmo que sejam muito lidos e "gostados". Pode ser - como pode não ser - um sintoma. Mas para mim a escrita tem de contaminar, incomodar, varar. Bora lá, Adorno. Três passos à frente, dois atrás. É o Adorno que dá esta ideia da máxima distância entre o que se escreve/ lê/ diz e o que ja é conhecido, mas não tão grande que as duas margens deixem de se avistar.

O Deleuze dizia para não interpretar, para experimentar. Bora lá.

Gosto também da ideia do Wittgenstein de que qualquer pensamento nos interrompe a biografia, nos invade e faz mudar de trilhos. Tenho por aí um texto onde tento surpreender os homens que não pensam exaltando-lhes tanto a coragem como a miséria do vazio.


E agora vou ali ser exocêntrico, que me faz um bem do caraças.

(continua)

PG-M 2013



2013-12-24

o natal medido no corpo e no pensamento

"Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo"
 Osvaldo Montenegro ("Metade")
 
A finitude do corpo e a infinitude do pensamento e do sentimento. Ou a rotação e a translação. Sabemos que o nosso corpo acaba. Não sabemos se o pensamento acaba. Sabemos que o sentimento pode acabar ou propagar-se entre corpos e mesmo para lá deles. Sabemos que o pensamento e o sentimento transcendem a morte. O corpo não. É por isso que tentar encolher o pensamento e o sentimento no espaço limitado dos corpos será sempre mal sucedido. O que pensamos e sentimos, parecendo contido nas nossas paredes, vai muito para lá delas. O natal é um esforço de consciência colectiva, todos os corações de um certo mundo centrados no transtorno do egoísmo travestido temporariamente de altruísmo. Um travão na rotação, para que o pai natal cumpra, uma flexão na translação para que o planeta desalije o peso da ilusão. Os corpos, que acabam, não são reais. Voltam os mortos mais queridos e o pensamento vai descendo e subindo montanhas russas. Há abraços em todas as suas formas. Alguns inimigos cessam. Os amigos prosseguem, menos ignorados. Há mais luz, há mais acessórios, são flagradas todas as manifestações do supérfluo. Até chegar um momento em que todos mirram e o mundo dobra reduzindo o espaço entre as casas. Pairará sobre as mesas de natal, sobre o bacalhau, sobre o molho fervido, sobre o vinho quente com canela e açúcar, um só sentimento. Que é um calor raro ao centro de peitos potencialmente infinitos. Diz-se bom natal e a estrada segue, vagarosa, no regresso a cada planeta.

PG-M 2013

2013-12-23

A ampliação das pessoas e a simplificação do mundo



Na última semana - é natal, é o que nasce - tem sido flagrante:

enquanto o facebook se continua a encher de cínicos que nos fazem rir ridicularizando os outros ou expondo a mediocridade como marca - que o é - de um país que tarda em voltar a dominar o mundo pelas vísceras, como fez pelas velas e pela índole desenrascada - chama-se alma -, continuo a descobrir o lastro de pessoas brilhantes que ninguém ouve, e filmes como "Inside Llewyn Davis" dizem-me que sempre foi assim.

Mas não foram só os irmãos Cohen a colocar os actores F. Murray Abraham e Oscar Isaac cara a cara, com este a dedilhar uma guitarra e a cantar "The death of Queen Jane" antes de (ante?) Bob Dylan.
Numa conferência cénica no Teatro Carlos Alberto, no Porto, descubro a actriz Margarida Gonçalves, que em poucos dias olhou um trecho do "Filho de Mil Homens" (Valter Hugo Mãe) e vestiu uma anã, mas não vestiu só uma anã, vestiu o lugar dela, os homens dela, vestiu-nos a nós. E eu pensei, como já tinha pensado sempre que vejo actores vestir textos literários: esta mulher fez-se ampliação de pessoa, por momentos olhei para ela e pareceu-me dotada de uma certa divindade, o corpo tanto era irrelevante como central, a expressão comunicava todos os sentimentos que o mundo pode conter, e isto aconteceu apenas em alguns minutos. E pensei que isto pode ser feito com qualquer texto, e não, não é nosso mérito, dos escritores, porque o teatro toma-nos e espreme-nos o melhor, ninguém lê como um actor, ninguém nos lê como um actor.
O Luís Puto é um actor. Ninguém lê como o Luís Puto.
E todos os que estiveram em palco para nós, dezenas, uns profissionais, outros semi-tudo, outros meros amadores, vazaram ali o sangue a ferver. Como tem de ser.

Entretanto, no facebook, na segunda-feira, descobriram o anúnico sexy de um escritório de advogadas portuguesas. O jovem cínico "A" tocou a sua flauta de bardo e ridicularizou-as e deu uma pândega a "amigos" e "seguidores". A Ordem dos Advogados, com a faltinha de jeito do costume, abre processo disciplinar às colegas sensuais. Na quarta-feira, o mesmo jovem cínico "A" estava a sair em defesa das colegas sensuais que houvera dizimado no seu mural dois dias antes. O jovem cínico "A" fez questão de dizer que, desta vez, estava a falar a sério, que o ouvissem, que o mundo tinha de se levantar em defesa das colegas sensuais. Puta que o pariu. Puta que pariu todos estes cínicos que são incapazes de sentimentos verdadeiros ("sentimentos verdadeiros" é um bom cliché para alimento de cínicos) e se estão literalmente a lixar para todos que não eles.

Paralelamente, acontece-me ler a prosa e a poesia de uma pessoa que nem vinte anos tem, e achar que nunca vi nada assim, que nunca me aconteceu nada assim, a perceber a merda que sou, a merda que faço. Acontece-me conhecer um grupo de teatro de meninos de catorze a vinte e muito  poucos. Ver o modelo falhado de um Llewyn Davis que é o de todos os escritores, pintores, cantores, de todos os autores por mostrar ou mal mostrados, e perguntar se não vale a pena tomar o tempo que nos sobra, ou fazer com que nos sobre tempo, para olhar para o lado. Fugir cada vez mais da pasta indistinta em que se tornaram, por exemplo, dois terços dos blocos noticiosos, que se mimetizam entre si em nome de um bem maior (o patrocinador) - até porque nunca sabemos quando é que o pivô que os trabalhou se vai erguer acima da mediocridade com a sua marca (e ainda os há muito bons).

Não, não me apanham a criticar uma Casa dos Segredos, por exemplo ,excepto alguma inquietude que me provoca a ausência de limites. Prefiro a Bernardina ao Zé Comentador que vai justificar o seu soldo criando tensão noticiosa. E desconfio de quem não sabe quem é a Bernardina - porque não é preciso sufragar a mediocridade para estar atento ao que nos rodeia. Sei que o tema Bernardina é infinitamente mais intrigante do que os esqueletos noticiosos e anódinos da Bárbara e do Carrilho. Como tudo, e embora eu e tantos não sejamos exemplos para ninguém, o indivíduo medíocre masturba-se com os mesmo exemplos que expõe publicamente, trai os seus pares porque não reconhece as próprias limitações, vive alimentado a umbigo porque não tem capacidade para identificar o cotão que se intromete nas fendas dos próprios dentes e que vem do próprio corpo - do tal umbigo que o alimenta. O próprio medíocre é impróprio. As manifestações de rua - a putativa liberdade - são convocadas precisamente pelos mesmos que na semana anterior estavam a acossar o cão para devorar os restos de um amigo em praça pública.

Os benfeitores que levantam uma voz vinda de dentro são destruídos com as mesmas armas que os malfeitores maiores usam contra os malfeitores menores, e vice-versa.

O cavalo de tróia que vai mudar isto continua vazio.

O que sei, e isso aparece-me com uma transparência aterradora, é que os melhores reconhecem-se entre si facilmente, mas têm medo de sair da caverna onde entraram para não serem incomodados. Vão mudar o mundo lentamente, ao longo de gerações, vão contaminar os medíocres e trazê-los para a caverna - calando-os ou reclicando-os.

Uma menina escreve um poema superior e eu, no centro da felicidade, só tenho medo de que ela não pouse, porque precisamos dela no chão, e, se há grandes artista egocêntricos, não têm uma verdadeira utilidade para o mundo a não ser para as evasões de outros séculos. Mas gosto de me sentir inútil por momentos, gosto de pensar que há tantos melhores do que eu, e principalmente descanso por perceber que há quem possa levar o mundo.

Porque às vezes me sinto tremendamente cansado ao lutar contra os gigantes - dizem que são moinhos.

Sei que o verdadeiro amor não se confunde com o plano da arte, mas também sei que o plano da arte admite a invasão do amor (vejam pf o vídeo com que encerro este post: ela é uma "performer" moderna, uma artista, e esta "instalação" é brutal. Ela está sentada durante três dias no Museu de Arte Moderna de NY (MoMA) e  as pessoas vão-se sentando em frente a ela e ela olha-as em silêncio. Agora vejam o que acontece quando o companheiro de uma vida (mas já separado dela há uns anos) passa por lá. Ela não sabia. Talvez não soubesse. Acho que o amor é isto).

E a Magarida, ali no palco, tem um vestido preto largo que é justo, move o corpo e amplia uma pessoa e o mundo é um sumo de laranja.

PG-M 2013

2013-12-16

A minha amiga de 44 anos



a minha amiga de quarenta e quatro anos tem
vinte e nove anos e meio
o sorriso de um dia e um riso que

dobra como os que o pai lhe oferecia quando a cingia
no colo e a enrolava nos braços pressionando-lhe
as costelas com os dedos grossos e o corpo dela
se curvava para trás e os olhos
fechados e a gargalhada
infinita

e a palhacinha
que cansada aninha


 e dorme

a minha amiga de quarenta e quatro anos não sabe
que está intacta
e pura
e una
no perpétuo nascimento

dos slows de garagem que duram,

num momento,
a eternidade

PG-M 2013

fonte da foto de Cate Blanchett (que tem 44 anos e é a menos bonita de todas, mas nenhuma delas sabe:)

2013-12-14

o natal de paloblyk


saiu da garden street
no dia de natal
para comprar um livro
e ler o jornal
e ver no bar da livraria
penelope a tirar cafés
e sobre a mesa o disfarce
the ulysses, la recherche,
el quijote

sempre tem o new york times?
ah, veja aí, por favor
falta a revista
alguém deve ter levado
era um café, então
comprido, como o costume?
tremeu, disse que sim,
maria callas no ar
casta diva, che inargenti
ela tem a minha norma
mas vem trazer-me o café
a pensar, sempre enfadada,


lá está o odioso velho
a olhar,

que desgosto, que maçada.

e então,
solomon paloblyk,

enfermo de um destemperado amor
fora do corpo,
no silêncio intransponível,
degolado, exangue,

manteve a cabeça baixa
sobre a coluna literária
de joyce maynard
e de penelope
só sombra
só cheiro ténue
e voz sumida

só um fendente sorriso miúdo de malha
diáfana

a talhar as vidas surdas
e a varar-lhe o peito

o velho, quando foi pagar,
estava a chorar
uma lágrima vermelha
enfiada na pele áspera
e grossa
como um caco de cristal
e o sangue, claro,
à vista,
como as vísceras
numa nota agreste
do sobretudo
de caxemira

penelope sabia
mas nada disse
por mil anos
ou algo assim
agora não sei
podia ser eu

seminal

no dia de natal 

PG-M 2013
fonte da foto 

post relacionados: A tese de um grande amorA confissão impertinente de Solomon PaloblyK, Parte II da confissão, Parte III da confissão, e À(s) mulher(es) desconhecida(s) O Salinger  nunca me deu tesão,

2013-12-09

Jasmim (e o colégio dinis de melo, em Amor)

Há muito, muito tempo, não havia neste reino bomboneiras de vidro em forma de cogumelo. Para que a rainha destes domínios reinasse feliz, houve que partir em comitiva para a marinha grande, onde se erigira em lenda a história de uma plêiade de artistas vidreiros que, quando reunidos, se chamavam indistintamente pelo nome colectivo de jasmim.
Muitos anos depois foi-me depositada nas mãos uma peça de vidro que simbolizava a constelação do colégio dinis de melo e eu, que vivo largamente pelos detalhes, topei pela saca de cartão que a amparava: o mesmo jasmim, as mesmas mãos colectivas haviam feito para as minhas uma peça de um plano acima dos homens, tal como aquela bomboneira de vidro que eu trouxera de volta para a minha rainha há muito, muito tempo.
Nesse fim de noite de sexta-feira, 6 de dezembro, já 7, com temperaturas negativas lá fora, a professora isabel entornou nas minhas mãos a arte jasmim, que, como a foto documenta, trazia a história da noite em cada reflexo - que andou entre o transparente e o azul.
história que começa nos olhos claros da roberta, a italiana que recentrou os meus castanhos escuros num levantamento de escritores no porto e me trouxe a leiria pelas mãos da mãe helena - na entrada do colégio faziam uma família perfeita com o fausto, não por caso treinador de voleibol na sua bela itália, afinal o desporto que é uma parte do que sou.

agora entramos, tenho ao meu lado o gil, o meu amigo de sempre, juiz na cidade, lembras-te de quando éramos os dois únicos confrades da confraria do código civil, gil? a confraria do código civil eram dois estudantes loucos que, por puro gozo, batiam às portas da foz velha, no porto, para ler artigos do código civl - muita gente que ficava a ouvir a leitura empenhada do gil e hoje ainda choramos a rir por todo o bem, toda a legislação, que transmitimos.

compro dois postais ao andré pedro e ao ricardo que eles mais tarde me dedicarão - tenho-os aqui para sempre -, tomo o café, tenho a garrafa de água na mão, os reflexos em transparente e azul vão multiplicar-se.
a professora isabel apresentou-me sem que eu visse ou ouvisse, mas vi-a perfeitamente do princípio ao fim da noite com o mundo às costas até me entregar este cubo de vidro que é jasmim e me pedir desculpa pela falta de atenção que me dedicou.
ela, que fez a noite minha. ela, que foi o nosso atlas.

e depois vem a bruna.
oh, a bruna! 


a bruna fez a minha apresentação, e essa eu já ouvi, passei por ela para me sentar ao centro da mesa e disse-lhe "esse sou eu", ela olhou bem cá para cima e disse, algo desconcertada, "eu sei". se foi a bruna que construiu o texto de apresentação, é-lhe devida vénia. fugiu à wikipedia e teve de ler muito para o sintetizar naqueles cinco parágrafos bem escritos. sabe que eu não gosto do cinzento dos tribunais e termina assim: "como se diz obcecado por livros e livrarias, esperamos não ter de aguardar muito mais para lermos outros romances". três meses, no máximo, bruna.
já depois da sessão de perguntas e respostas ter acabado, a bruna fez mais algumas perguntas, ali, perto de mim - a última era tão corpulenta, tão profunda, tão bonita, que eu lhe perguntei de volta se ficava até ao fim, e ela disse que sim. então continuei com as dedicatórias com a minha letra de imprensa, afectada do que sou, mas a bruna desapareceu e eu não pude responder-lhe. mesmo que volte um destes dias, é para mim terrível deixar uma pergunta em suspenso, mesmo que os olhos da Bruna quase a tivessem respondido. e esta noite de dezembro ficou incompleta porque a bruna ficou incompleta.

muito antes, os meus asas, andré pedro e ricardo, tinham-se sentado um de cada lado - gosto de ficar acompanhado nas mesas. o andré é um observador, ar intrigado, inquisitivo. o ricardo foi o meu ponto teatral: grande trabalho, ricardo. como percebeu que era importante para mim saber o nome de toda a gente, foi-me dizendo quem eram e, às vezes, o que faziam.
"eu nunca disse um poema meu" foi lido pela professora rosário como se fosse dela. era efectivamente mais dela do que meu. a rosário deixou na sala as vísceras do poema. o pedro leu o "plátano".
a carolina rosa leu tão bem "poema à mãe e outras vidas", mas também me fugiu. acabou a leitura, recuou na sala para receber os aplausos, o namorado veio resgatá-la, ela deu-lhe a mão e partiram pela noite fria.
ficou também por fazer a minha pergunta a todos: porque é que escolheram este texto, este poema?
porquê, pedro?
porquê, rosário?
porquê, carolina?
RP:
RR:
RC:


o andré pedro falou-me da negação do horror e dos universos paralelos e do fringe
vieram pelo menos mais dois andrés, um deles era também gaspar
veio a catarina rodrigues, outro gaspar (mas luís)
a antónia, que queria saber se a família me aturava como escritor
a rita e os caminhos que me levaram ao direito
a beatriz sobre as teorias da conspiração
o bruno de camisola pull & bear para eu falar da capa e das revisões em edição,

e então a bruna voltou, com olhos brilhantes e complexos, para saber muito mais coisas
e então a bruna partiu

à mesa veio o afonso, com a sua irmã, a pequenita leonor, a pulular em volta, divertida, o casal real - como lhes chamei - levou um livro. a leonor explicou-me que o afonso lia muito, lia na cama, eu quis saber como, que não há gadget mais avançado do que um livro, mas nunca houve posição para lê-lo durante longas horas
à mesa veio a bonita bibliotecária paula, levou dois livros, um era da escola, outro dela
à mesa vieram cremilde - a cremilde levou livro - e cremilda, que, não sendo uma sociedade, nos deixaram entrar no aporte estético dos nomes, falaram francês mas não tocaram piano, são professoras, portanto heroínas, heróinas puras,
não injectáveis

de volta a bellissima roberta dos olhos claros, roberta do sorriso que o fausto e a helena desenharam, mas espelhado em nós faz pensar que é de cada um

e no fim, em letra pequena como toda esta memória, para não distinguir o indistinguível, a professora isabel a entregar-me tudo numa mancha azul ao fundo de um cubo transparente,
que é jasmim e é Amor


e a noite foi tudo mas fica em nada se não os tiver a todos de volta

PG-M 2013

2013-12-04

Eliane, Portugal

Deixa que eu apresento:
Eliane, Portugal.
Portugal, Eliane.
Não é por ela ter um apelido que se ouve na boca de uma criança tripeira quando quer mimetizar um popó: Brrrrrruuuuummm.
Não é sequer por ter uma dicção doce, mesmo para brasileira, que já de si traz um português açucarado e distendido. Nesse sotaque cada ponto final é uma cerca de veludo onde as frases batem sorrindo, cada exclamação um abalo, cada pergunta uma canção.
É apenas porque ela escreve bem p'ra caraças ou, como se diria no meu Porto, este, o atlântico, o europeu, como o carago.

Não, também não é por isso, isso que é só pretexto bairrista.

Eliane é essencialmente jornalista, embora escritora.
Aquele jeito visceral eu conheço em qualquer lado.
Aquela forma de arrastar constantemente as explicações para dentro de abismos e cair por eles abrindo os braços e tomando a existência dos outros como se fosse a própria pele.
E vai-se a ver está amparando os torsos que indaga ou traz para dentro de si própria sem qualquer protecção, aquela protecção soez da mediocridade.
Eliana tem feito chorar vários tipos de granito,
e com isso pessoas mesmo.

Pelo que soube ao ler Eliane, Wanderlei da Pampa morava perto da fronteira do Rio Grande do Sul e levava todos os anos o seu cabo de vassoura a uma feira de cavalos. Para entrar no concurso passava as respectivas inspecções sanitárias, e o pessoal, quando o via chegar, já dizia: lá vem o maluco. Ora, Eliane não arrancou dele uma resposta, mas uma pergunta: "Acha que eu não sei que isto é um cabo de vassoura?" O problema é que nunca na vida Wanderlei ia ter dinheiro para ter o seu cavalo, e assim podia sonhar.

Pelo que soube ao ler a Eliane, Alice estava morrendo. "Comer e se salvar". A merendeira da escola que ressuscitava crianças porque elas lhe chegavam de manhã com uma fome ainda mais preta do que negra e mortas, literalmente mortas. Ela as ressuscitava dando a primeira merenda do dia. Então a Alice insistia em encher o prato da jornalista, acreditando que, alimentando Eliane, se salvaria também.
"Se eu comer, talvez melhore".
Como a minha mãe quando eu era menino, como o meu menino quando eu sou pai.
"Acho que já não tenho a doença", dizia, para quem a quisesse ouvir.
Então a Lourdes dizia à Alice, para a animar: "Eu tinha uma tia que tinha a tua doença e cheirava muito mal, mas tu não cheiras mal". E sorriam, ou eu acho que sorriam, porque foi assim que imaginei quando ouvi a Eliane falar para o auditório.
Em cento e quinze dias à vista de Eliane, os seus últimos cento e quinze dias, Alice nunca pronunciou a palavra "câncer". Eliane também não. Eliane achava que, se algum dia tivesse trazido o câncer para uma pergunta, tinha perdido Alice para sempre. Assim a ganhou para sempre.
A médica dos paliativos, Maria Goretti, tentou puxá-la um pouco à terra, para ela morrer por cá, bem perto, e não no céu, bem longe.
- A senhora esqueceu. Tem uma pedra no seu caminho.
E a Alice perguntou:
- E não dá para fazer viaduto?
E repetia para Eliane:
"Se eu comer, talvez melhore"
"Alice, eu estava lá, a culpa não é tua"
"Eu acho que sabia, mas esqueci"

A Eliane diz que o jornalista muda o mundo porque lhe dá voz.
Que não importa mais o homem que mordeu o cão, mas o cão que morde o homem. Quando não há nada, também não há circo. Só depois, só depois de relatar esse cão e fazer os olhos brilhar porque sim, não porque foge da vida.
A Eliane faz como eu nas páginas: se esvazia para encher do outro, o que está perante si.
Vê que a maioria é minoria na imprensa, e a minoria, a selecta minoria, maioria, e Eliane não quer.
E se o Brasil é um continente e Portugal se equilibra nos cabos de outro, e aqui caiu o assombro dessa voz, essa voz deste lado do mar, trago Eliane e a ergo nas vossas caras ou a intrometo nos vossos corações.

É que Eliane faz nos seus parágrafos o que a parteira índia de mais de noventa anos fazia na sua aldeia:
enche o mundo nas horas vagas da noite.

PG-M 2013

2013-11-26

A noite imperfeita

 
 Imaginei um começo de parágrafo banal, um que todos nós queremos usar de vez em quando com alguém que nos falha: não preciso de ti para nada, não precisas de mim para nada.
Na verdade, se não somos centrados em nós, o nosso movimento natural é dar e estar para dar, estar para ser usado por quem precisa, e quem precisa não tem necessariamente de ser boa pessoa. Ou tem? Não tem. A dádiva, a amizade, até o próprio amor, mais ainda, a abnegação profissional a troco de nada, não têm de ser paritárias. A bondade não é paritária. E o crescimento do corpo ensina-nos a viver sem ilusões, para não encolhermos a cada desilusão. Acontece que essa natureza de dar, estar e ouvir tem momentos de restauro.

Reboot.

Não sei se é da alma, se do corpo, se de ambos, mas sentimo-nos mirrar, encolher, de tal forma que nem para um abraço de conforto estamos disponíveis, porque houve uma desilusão que nos venceu e precisamos de uma noite, pelo menos uma noite, para no outro dia voltarmos a ser irrelevantes e acolher os pobres, os infelizes e os egocêntricos, principalmente estes, que acumulam com os outros.
É fundamental que o façamos sem queixume, ou o mundo tomba de lado.
Hoje é dia da noite imperfeita, a única do mês em que consentimos desaparecer. Sem a distensão do abraço, com a intenção do regresso.

 
PG-M 2013

Segunda-feira

 À segunda-feira voltamos a ser ilhas, e isto nem sempre é mau.
A separação dos corpos fere, ao centro do peito volta o bloco de chumbo, o peso da semana nova, que o olhar desalija conforme os dias passam, até voltarem os amigos, os filhos e as mulheres para debaixo das mãos, o que, mesmo que aconteça todos os dias, não se demora como ao sábado e ao domingo. Hoje há mais lágrimas ao volante ou enquanto o nosso vulto se verga noutras paisagens. Quem não fecha os olhos a nada, da tv às redes sociais, acha tudo inútil e supérfluo momentaneamente. Temos condições para perceber que a sabedoria está na escuta, na serenidade de saber manter essa reserva de músculo na sombra. E o melhor não é gritado a céu aberto em vista de um só centro, mas feito difuso, por todos, a céu fechado E construimos o mundo. Mesmo que doa.
E até os sorrisos, hoje, doem.

PG-M 2013

Um instante numa estante

 Um destes dias, numa das livrarias que habitualmente frequento, vi que, depois de muitos meses de ausência, um livreiro mais afoito trouxe de volta "A manhã do mundo". Mas o que me fez sorrir foi reparar nos meus companheiros de estante, que, com sorte, o serão pela eternidade, e resolvi trazer-vos este mimo: começando no Almada Negreiros (estás aí?), prosseguindo no Paulo José Miranda (estás aí?), na Julieta Monginho (estás aí?), no Paulo M. Morais (estás aí?), no Miguel Miranda (estás aí?), no Vitorino Nemésio, Abel Neves, José Niza e Rui Nunes (estão aí?), no Vicente Alves Do Ó (estás aí?), na Raquel Ochoa (estás aí?), o Carlos de Oliveira, o Luiz e o Francisco do Pacheco - que é irmão do Vicente - (estão aí?), e, para fechar este vislumbre (este assombro?), o João Rebocho Pais, que aqui na rede social se dá por Red Jan. O privilégio é estarmos ali, calados, a falar para todos, e também, acima de tudo, e ainda que menos literário, podermos trocar abraços com quase todos, enquanto há tempo. Depois fica o melhor: nós na terra, os livros ao pó ou nas mãos, em livrarias, estantes ou blibliotecas - porque eu ainda não vi nenhum livro em lixeiras, ainda que saiba que também lá vivem, até serem resgatados. E, apesar de o próprio Orwell ter testemunhado o perigo do desencanto pelos livros quando se trabalha numa livraria, tenho quase a certeza que seria gratificante para os funcionários desta livraria perceber que um destes dias um dos autores daquele nicho tirou uma fotografia à estante que eles organizaram e os livros (os autores:) entraram em diálogo uns com os outros. Eles estão sempre ali. E vocês, estão aí?

PG-M 2013

2013-11-17

nobel de latão



 já é de tarde e é cedo.
teatro de sol de domingo e no banco de jardim do parque infantil da praia de salgueiros estão sentados, lado a lado, o emplastro da madalena, que é filho do pinto da costa, e uma rapariga que foi famosa num big brother ou numa casa dos segredos, já não sei bem, estão ambos com o olhar vazio, ele com uma saco de plástico, ela com uma garrafa de vodka, ele não está muito limpo, ela também não, nota-se principalmente pelos cabelos, e de forma alguma estão juntos.

no banco em frente está um poeta de rua que escreve com uma letra miudinha nuns papéis muito pequenos, de vez em quando para, olha para tudo, portanto para nada, morde a barba comprida por baixo do lábio inferior, e ao lado dele um acordeonista que trabalha de segunda a sábado na rua de santa catarina mas hoje está a descansar ao teatro de sol de um banco de jardim em frente ao mar.
eu estou a tomar café num bar em frente, protegido deles por um vidro, a pensar na literatura e na vida e na ciência e no corpo, portanto a fazer filosofia sem querer, depois de ter lido uma entrevista demasiado profunda do eme tavares. estou perturbado, fico sempre perturbado quando não resolvo um escritor, isto é uma doença que só me dá com os melhores. penso que não retive o nome da jornalista que lhe fez perguntas de uma forma rara, como se soubesse mesmo o que estava a fazer e tivesse pensado sobre a causa, e não sobre a consequência, e se tivesse concentrado na fonte e não no resultado.
entretanto acabei por decidir que, realmente, o próximo nobel português vai para o eme tavares e por ter uma consciência clara de que já não consigo competir com ele pelas coisas mais bonitas e só tenho uma vantagem, sou mais velho, chego mais cedo à idade da aparência do abandono, a ironia era que eu queria ganhar o nobel porque aquilo é muito dinheiro e dava para alimentar a família para sempre, mas não posso tentar porque tenho de trabalhar para dar de comer à família ainda este ano.

o emplastro abriu um saco de milho e está a atirá-lo às pombas e a partilhá-lo com a miúda do big brother, mas por causa do vento não há pombas na praia, e nem as gaivotas querem o milho nem vem o O'Neill, porque o médico lhe disse que, por causa da condição cardíaca, não devia caminhar contra o vento.

li num livro do eme tavares que os homens, nos jardins de domingo, procuram diamantes e que as mulheres os procuram a eles. disse isto à minha mulher e ela perguntou, a eles aos homens, ou a eles aos diamantes? e eu respondi, acho que é aos homens, mas estás a ver, de qualquer modo, se for aos homens porque eles procuram diamantes também é muito bonito. não estou sequer certo de ser isso o que estava lá escrito. espera. não foi num livro. foi no artigo de hoje da notícias magazine. não tenho gostado muito dos textos do eme na notícias magazine - talvez porque são superiores e eu não lhes consigo chegar -, mas hoje gostei, acho que era o senhor voltaire a falar e o senhor focault a ouvir. de vez em quando o senhor voltaire levantava-se para olhar para um quadrado negro desenhado no chão ou sorrir com a parte lateral do lábio e que isso era sarcasmo, ou as duas coisas, não sei.
não tenho tempo para investigar as frases e ouvi dizer que o eme tavares faz isso e isola-se com tempo no templo como os artistas mais antigos, e também ouvi dizer que tem de ser assim para nos chegar a arte ou as palavras que podem ser arte.

em rigor, se querem que vos diga, eu queria ganhar o nobel porque gosto muito daquela parte da cerimónia em que nos põem uma faixa vermelha na diagonal, sobre a barriga e sobre o peito, ou sobre o peito e a barriga, e o rei da suécia nos vem entregar uma pequena caixa com uma medalha do alfred nobel e depois o escritor tem de fazer uma vénia ao rei, depois uma vénia aos convidados mais ilustres, depois uma vénia aos convidados menos ilustres e tocam as cornetas.
penso, sinceramente, que se me fizerem uma cerimónia dessas num aniversário qualquer já ganhei o nobel. o problema é mandar vir o rei da suécia

mas o mais complicado, mesmo, o mais complicado de tudo vai ser chegar a casa e explicar à minha mulher porque é que decidi escrever este texto só com letra pequena, como o valter primitivo.

no banco de jardim de cá o poeta de rua está de pé e com a mão estendida, como se mandasse esperar o mundo. fez um sinal ao acordeonista e ele levanta-se e mexe a cabeça e os braços, como se estivesse mesmo a tocar. tenho de pagar o café para sair e ouvir.
até hoje tinha conseguido resolver o eme tavares em mim, mas desta  vez ele subiu tanto, tanto, que já chegou a uma pureza a que eu nunca chegarei, porque não tenho tempo nem qualidade, poucos têm, talvez só ele

é por isso que a treta da conversa precoce do nobel vai deixar de ser treta, eu já atribuí um a Moçambique, irá para o Mia Couto, vai ser um grande dia para a língua portuguesa e desportuguesa, e alguns anos depois, quando o eme tavares passar os sessenta, outro, finalmente, para portugal. ele vai fazer as três vénias e, provavelmente, pagar-me um café no regresso.

eu, contudo, só terei hipóteses de ganhar se passar dos cento e trinta e um, e mesmo assim tenho de ter o cuidado de não entrar curvado, as três vénias só são mais tarde, tenho de estar lúcido e com capacidade de subir a um palco, como o Manoel de Oliveira, que fez isso há dias na bilbioteca almeida garrett, no porto, e tem centro e cinco e parece que está tudo à espera que ele morra para lhe darem mais.

gostei muito de ouvir o eme tavares dizer que não se podem comparar ou escalonar livros, que é como dizer que um tigre é melhor do que um elefante, espera, o acordeonista estava a tocar a melodia do into my arms, do nick cave, o poeta a ler o "assim como" do alberto caeiro....como é possível?....e o emplastro está a olhar muito espantado para ele, com a boca cheia de pão, e a menina da casa dos segredos a abraçar a garrafa de vodka.

eu estou arrebatado e a ouvir na minha cabeça o ave verum corpus, do mozart, que não está realmente a tocar

nenhum deles sorri, nem o emplastro nem a miúda, porque não há câmaras de televisão por perto.

li hoje um fragmento do primeiro romance do bruno vieira amaral e fiquei comovido, era uma reunião qualquer entre a mãe e umas senhoras, uma em que ele ficou ao largo, estava tão delicado e no entanto cruel como a grande literatura sabe ser, ainda assim mais suave do que o coetzee no coração desta terra, mas um destes dias estava a ver na sic notícias uma reportagem sobre a entrada do público no estádio da luz para o portugal-suécia e lá estava o emplastro, vi a cara de poucos amigos do repórter, vi alguém a bater no emplastro e não gostei, afinal o rapaz é filho do pinto da costa e faz-nos sorrir a todos, está bem, podia estar a aborrecer o repórter há muito tempo, mas não importa, bater no emplastro é um crime de lesa-majestade, e então resolvi descer aos bancos de jardim e dizer-lhe que o rei da suécia o defenderia sempre

mas a expressão dele continuou vazia

o poeta de rua disse para eu deixar estar, que ele sabia o que a fazer, que tinha uma história infantil ou uma grande frase que lhe contava ou dizia sempre, e eu voltei a pensar em literatura e no eme tavares,

será que consigo resolver isto? o emplastro, a miúda do big brother, o poeta de rua, o acordeoonista e o eme tavares? será que consigo tocar ao de leve a literatura para a atirar para dentro do emplastro e da miúda da casa dos segredos, ou é mesmo obrigatório render-me e desistir, aceitar a expressão vazia dos dois e a superioridade das coisas simples e intangíveis do eme tavares ou de todos os génios como a maria filomena molder ou a llansol ou alguns pedaços do camus e do coetzee e daquele americano e do próprio do saramago e até do lobo antunes

ah, o discurso do nobel do saramago, eu acho, how characters became the masters and the author their apprentice, foi muito mais bonito do que o do coetzee, he and his man. mas, como diz o eme tavares, não se pode comparar um elefante com um tigre

no teatro de sol de domingo o poeta de rua leu ao emplastro a frase do novalis
"estamos sós com tudo aquilo que amamos"

e o emplastro começou a chorar com os olhos quietos

o acordeoonista tocou o anda comigo ver os aviões como se fossem lâminas a desentranhar da pele os corações mais frágeis

e a miúda do big brother largou a garrafa de vodka e dançou a valsa com o emplastro

e ambos riram, pela primeira vez, sem câmaras.


(é assim que a literatura chega, baixinho, desde o chão, como as primeiras coisas, bruno, e eu resolvo os meus escritores)

PG-M 2013
(vencedor do nobel de latão da literatura na festa dos seus quinze anos, organizada pela miúda do big brother)


2013-11-11

A confissão impertinente de Solomon PaloblyK (I)


Pela tese de um grande amor, já sabemos que ele morrerá com a provecta idade de noventa e um anos no ano da graça de dois mil e cinquenta e nove e que tinha dez anos em mil novecentos e setenta e oito, quando o pai, contra a vontade da mãe, o levou a ver a estreia de Wedding, de Robert Altman, no Festival de Cinema de Nova Iorque.

Sabemos também que morou em Great Neck, um subúrbio rico desta cidade, na Garden Street 1, e que tinha casa nos Hamptons, para onde não foi no dia onze de setembro de dois mil e um, porque morreria nas torres, numa primeira versão d'A manhã do mundo, e - spoiler já de seguida - salvar-se-ia delas numa segunda.

Finalmente, e porque no-lo confessou, sabemos que toda a vida amou Penelope, a empregada de café filha do dono, depois também livreira, da livraria onde ia sempre com a mulher, Ida, mulher que enterrou a dois quarteirões dali, e a quem deixou de ler Life and Fate, de Vassili Grossman, pouco antes de morrer, por ela já não ter fôlego nem ouvido para a beleza concisa do russo.

Neste passo da história, é importante dizer que Solomon foi criado como judeu e que nunca na vida, pelo menos até ao dia do seu trigésimo aniversário, se confessou a um padre católico. Mas fê-lo precisamente no dia dos seus trinta anos. E, porque isso aconteceu, Solomon tem alguma coisa do senhor Palomar de Calvino, do senhor Bartleby de Melville e do senhor K de Kafka. É hoje facilmente inteligível a lógica do seu pai quando lhe escolheu o estranho segundo nome, e cuja decisão foi tomada ao observar o olhar do filho no berço depois do primeiríssimo sono em ambiente não securizante: Paloblyk. Solomon ainda não tinha um dia de vida quando o seu pai decidiu chamá-lo de PaloblyK.

Chamou-lhe Solomon PablobyK qualquer-coisa (não vem à memória o apelido).

Solomon PaloblyK dirigiu-se ao confessionário da Church of The Holy Innocents, na 32nd Street, às dez horas da manhã do dia do seu trigésimo aniversário, depois de um Verão hormonalmente doloroso.

"Perdoe-me, padre, porque faço hoje trinta anos, pequei e nunca me confessei."

"Os meus parabéns, meu filho. Quais são os teus pecados?"

Evitando a pergunta óbvia, a piada fácil, Solomon PaloblyK prosseguiu:

"Aí é que está o problema, senhor padre. Há algo na vida que não estou a conseguir conciliar com o amor e a fidelidade à minha mulher. Faço hoje trinta anos, pareceu-me adequado vir falar com uma padre católico, eu que fui educado como judeu. Aliás, todos os meus problemas têm vindo a confluir na questão do estranho e do conhecido. Porque há uma zona cinzenta das relações humanas que nem a literatura acolhe, descontando, talvez, o conforto da estranheza que as confissões de Santo Agostinho me causaram. Pensei: e eu, que não sei escrever desta forma absolutamente arrebatadora e clara, como vou eu dirigir a luz para mim próprio de modo a descobrir nas minhas profundezas as soluções para as dificuldades respiratórias da vida, principalmente da vida com as mulheres?

Repare, senhor padre: não incluo a apneia nestas dificuldades respiratórias da vida com as mulheres. A apneia pode ser um problema, mas também pode ser uma virtude. Eu, quando era novo, vencia os concursos de apneia, fazia duas piscinas debaixo de água. E se falamos de apneia como arrebatamento, também não venho confessar as mulheres que nos dão apneia num momento fugaz na paragem de autocarro, numa fila de automóveis, num passeio - também excluo as que apenas nos intrigam e que nos fazem pensar, durante alguns segundos, que gostávamos de as possuir ou de lhes perguntar as horas ou de cheirar os seus perfumes.

No supermercado onde faço as minhas compras há uma rapariga de olhos amendoados e lábios cheios que me atende sempre de uma forma perturbante. Demora-se no meu olhar mais uns segundos do que o normal, eu demoro-me no dela, ela sorri e eu devolvo, quando eu me apresto para sair ela olha sempre para trás e diz-me adeus e até amanhã, eu respondo. É assim há mais de um ano. É diferente ir ao supermercado quando ela está e quando ela não está. Chego a voltar mais tarde só para poder pagar as compras a esta rapariga. Não posso, honestamente, defender a tese de que ela me tenta seduzir, tampouco eu a ela, mas, lá está: o meu impulso é entremear esta com a história das velhas e hipócritas adversativas, tipo "Mas ela ainda não fez vinte anos e eu estou a bater nos trinta", ou "Mas eu sou casado e ela pode ter namorado". Deus - o nosso deus, senhor padre - sabe quanto tempo trabalhará ela naquele supermercado ou eu morarei naquela zona, mas devo destacar este facto: esta rapariga é mais importante na minha vida do que, por exemplo, muitos enfadonhos e vazios colegas de trabalho. Curioso eu chamar-lhes vazios quanto não troquei mais do que três ou quatro expressões coloquiais com ela. Mas a verdade é que há um ritmo, uma troca, algo que ela me dá e eu lhe devolvo e que, pelo menos para mim, é de grande relevância. Ainda que ambos possamos gerir com alguma maturidade a ausência na vida um do outro, que é muito maior do que a presença (eu vejo-a uma vez por semana, no máximo duas, às vezes nenhuma), há um elemento social tácito que classifica esta relação como inexistente ou irrelevante. Que me retira o direito de saber se ela sente o mesmo, ou algo de parecido mas só dela, saiba ou não porquê. E não é líquido que eu goste de me cruzar com ela porque me sinto atraído fisicamente, ou ela por mim. Aliás, sinto coisas parecidas por mais pessoas, algumas do sexo masculino, e Deus - o nosso deus, senhor padre - também sabe muito bem que eu não pesco - nem peco - desse lado. O que eu sei é que há uma tensão, um finíssimo cordel totalmente esticado, que se libertaria se eu e ela pudéssemos conversar sobre isto, por exemplo, num confessionário como este.

Será que algum dia isso vai ser possível? Nós "adcionarmos" expressamente um desconhecido à nossa vida para não nos perdermos dele, uma espécie de livro das caras com que nos cruzamos ou nos queremos cruzar, e um dia, sem combinar, apenas porque calha estarmos ao mesmo tempo no confessionário, lhe podermos dizer o que nos vai na alma? Isso estraga - ou adensa - o mistério da vida?

E se eu encontrasse esta rapariga nesse confessionário e lhe confiasse estes pensamentos ou sentimentos, quais seriam as consequências? Porque penso que o senhor padre concorda comigo: se eu a convidasse para tomar café numa folga, e ela aceitasse, e mesmo que lhe explicassse tudo muito explicadinho como lhe estou a explicar a si agora, ela ia sempre pensar que as intenções eram outras. E a minha Ida não ia gostar. "Por que raio andas tu a tomar café com a caixa do supermercado?" E o encanto ficaria quebrado para sempre. Está a entender o senhor padre a zona cinzenta e a impossível abordagem? E se existisse um confessionário e o encontro fosse casual e sem contacto visual ou físico? Poderiam nascer outro tipo de pulsões que não estavam na origem do nosso relacionamento, algo erótico, virtual, platónico. Ou nada e o encanto novamente quebrado.

A verdade é que, como dizia o Gabo, as nossas mulheres, as boas, chamam-nos à atenção quando passa outra que nos agrada, ou, como neste caso, sabem de uma com quem mantemos uma dependência química.

Descrevo-lhe as ondas do senhor Palomar.

Relato-lhe, pois, as tentações que o não são.

A minha veradeira tentação é perguntar-lhe. Uma pergunta impossível, porque sugere tudo menos o que eu realmente pretendo dizer.

Será este só um problema da cidade, do homem urbano?

E se eu disser o que não quero? - para induzir um contacto e medir a pulsação, algo tão banal como "A menina é muito bonita." Sugerirá esta pergunta, que não quero realmente fazer, o que quero realmente dizer? Estará a verdade na aparência? E a aparência na verdade?

E se o silêncio for o mais avisado?
Prevalecerá o mais sensato?
Pois se não disser nada, a rapariga de olhos amendoados e lábios cheios, como quase todas as pessoas, vai queixar-se de que a vida dela é desprovida de interesse, os dias iguais entre si, de que as pessoas deviam olhar mais umas para as outras, importar-se mais umas com as outras.

É neste ponto que me sinto o senhor K perante a escadaria infinita do tribunal.


E destes episódios, ao longo da vida, há-os ao dia, à semana, mesmo ao ano, quando voltamos para o lugar onde costumamos passar as férias e reencontramos a mesma empregada de padaria, ano após ano, e nos calamos e nos vamos perdendo dela anos fora. E nos vamos perdendo um dos outros anos fora. Não teria mais sentido - e valor - se eu tivesse dito à rapariga dos olhos amendoados que ela era indispensável às minhas semanas, arriscando quebrar o encanto, mas deixando-lhe essa marca indelével?

Se, quando Saramago escreveu a Pilar dizendo-lhe, "Se as suas circunstâncias o permitirem, gostaria de visitá-la", ela, em vez do sim que despoletou tudo, tivesse respondido "Meu caríssimo Saramago, penso que o terei induzido em erro quanto às minhas intenções", que livros se teriam perdido, que destino teria deixado de ser escrito? E que livros se perderam porque ela teve realmente a circunstância de o receber na sua casa de Sevilha?

Tudo isto me leva , senhor padre, ao que realmente me atormenta:

O companheiro ou a companheira ocasional de um jantar de amigos, uma Lady Chatterley da 82nd Street, de uma saída em conjunto, uma Constance Reid da 31st, de uma férias, uma Connie da Fith, a colega de trabalho que connosco partilha os mais diversos interesses, uma peça de teatro, um jogo qualquer, um longo café com troca de ideias, uma Hilda Reid de Wall Street, aquele ponto em que nos encontramos mais profunda e profusamente com uma pessoa (it's not Mrs Bolton, senhor padre), seja estranha, nova ou pré-existente na nossa vida, em que sentimos empatia ou profunda amizade, leva-nos à velha discussão do "When Harry met Sally" - lembra-se, senhor padre?, passa-se aqui mesmo, em Nova Iorque, quando ela finge o orgasmo em pleno restaurante - ou, pelo contrário, há solução para todas essas tensões de amizade, amor, até sexo, sem que sejam excludentes de um futuro em comum? Qual é o limite? Um abraço? Um beijo sem língua? Um beijo com língua? Um acto sexual? Uma masturbação individual? Uma masturbação conjunta?

Uma conversa, uma longa conversa de mãos dadas, olhos nos olhos, libertará o cordel fino da tensão? Não será  silêncio a mais perigosa e falsa de todas as opções?

E se fosse possível essa coisa mirabolante de que lhe falava há pouco, senhor padre, se as pessoas se pudessem encontrar sem corpo, era pecado? Era pecado o encontro pelo mero pensamento entre Lady Chatterley e o seu amante, Oliver Mellors? Era pecado a troca de imagens eróticas? Era pecado só quando os corpos entrassem uns nos outros? Ou será que a mera vontade de isso acontecer bastava?

E se, no limite dos limites, eu algum dia amar uma pessoa no estrito respeito dos meus deveres matrimoniais, senhor padre? Se me limitar a observá-la dentro dos limites do suportável? Uma rapariga de olhos amendoados e de lábios cheios que, em vez de num supermercado, trabalhasse numa livraria? Penelope? E as consequências são as mesmas quando se ama ou quando não se ama? Devo quebrar o encanto? Ou devo sangrar, libertar todas as tensões através de pequenos actos que satisfaçam a minha curiosidade? E quais são os meus verdadeiros limites, as minhas fronteiras, fronteiras reais, não uma desculpa esfarrapada, uma embriaguez em perfume de romances novecentistas, no regresso da Biblioteca do Congresso?

Consinta-me ao menos um abraço, senhor padre, ao menos um abraço.

E se o senhor padre me disser "Preferia que não o fizesse", está fechado em Bartleby, meu caro padre, cerradíssimo no meu segundo nome e afinal em toda a minha existência.

E na história da minha vida já não caberia a livreira Penelope, para já uma miúda de quinze anos, filha do dono, que eu conhecerei daqui a algumas horas, quando abrir a livraria nova, em busca do "Life and Fate".

E já não a amarei nos sessentas anos que se seguem.

Que é como quem diz, até à morte."

PG-M 2013