2012-11-30

A viagem d'a manhã do mundo' segundo a Profª Rosário Ferrreira

Dez inspirados minutos da Profª Rosário Ferreira, sábia docente de português na Xico d'Holanda, em Guimarães - eu ia dizer que me honrou a mim, mas a verdade é que honra toda a literatura, em particular toda a literatura portuguesa. Lá, disse a verdade: foi a mais bela apresentação de que o livro "A manhã do mundo" foi alvo. Obrigado.

 "Nascido no Porto no Verão de 1969, chegou com 7 anos às mãos da professora Laura sem saber fazer contas de dividir; ela ensinou-o e ele pagou-lhe com uma fábula. Aos 11, entre rapazes de 16 e 17, empatou o primeiro lugar dos jogos florais da escola com um rapaz de 12, hoje um conhecido político. Aos 13, perdeu para o mesmo menino, mas levou o 2.º e o 3.º prémios. Aos 16, ganhou (finalmente sozinho), porque o menino político entrou na Universidade. No ano seguinte entrou ele, na de Coimbra, e andou com Torga no trólei 3, mas nunca se falaram. (...)"

"Depois desta breve apresentação, apetece-me citar Saramago: «pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor».
Na verdade, depois de pensar onde aprender “mais coisas” sobre Pedro Guilherme Moreira, pensei: “No seu livro”. E encetei esta viagem de descoberta da “pessoa invisível mas omnipresente que é o autor”.
Nunca estive em NY mas já fui muitas vezes a NY, conheço a Big Apple de Upper East Side até Lower East Side – passando por China Town e Little Italia, do Bronx a Brooklin, passando por Queens:

  • Hepburn levou-me a tomar o pequeno almoço na Tiffany
  • Siantra cantou-me: “I wanna to wake up in that city That doesn't sleep”
  • Simon e Garfunkle levaram-me a Central Park. Barbra Streisand à Brodway
Depois entrei pelos meandros do suspense, do crime, dos bairros “menos próprios”:

  • Daniel J. Travanti a. k. a. capitão Furillo levou-me à esquadra de Hill Street
  • Michel Pfeifer mostrou-me as “mentes perigosas” da periferia afro-americana e latina
  • Gary Sinise, na pele do detetive Mac Taylor, levou-me a descobrir assassinos pelas margens do Hudson
  • Acabei em Manhattan a comprar sapatos com Carrie, a apaixonar-me com a Samantha, a passear pelos apartamentos de luxo com a Charlote ou a pugnar de forma intensa nas barras dos tribunais com a irónica Miranda.
Porém, nunca tinha ido a NY com um guia português, nunca tinha reparado que, nos momentos de verdadeiras vertigens, “os homens é que sobem amedrontados e as mulheres empolgadas”. E encontrei, finalmente, um olhar português sobre o 11 de Setembro. A mão de Pedro deu voz
- ao fado de Amália, desenhado no destino de um semáforo, mas também ao de Adriano Correia de Oliveira no grito de liberdade de Alice, ou ao de Zeca Afonso quando se cantam amores, não do choupal mas de central park;
- ao mar trágico de Camões e Raul Brandão que sepultou os milhares sob as ondas das torres gémeas, mas também o “mar salgado” de Pessoa, nas lágrimas de Ayda – eterna escrava que chora a sua Babilónia perdida – ou de Alice – que foge, foge da rainha de copas que lhe grita: “És sobredotada”.
Deu voz ao nosso sol claro e límpido – não ao sol turvo que os escombros queriam esconder – mas àquele que inunda o apartamento de Darius e conforta o sono de Stanley
- ao amor trágico de Bernardim, na imagem não do rouxinol, mas do beija flor que, por causa de um “embrulho manhoso” se arriscou a nunca mais voltar à casa de chá com paredes forradas a papel acetinado. Ao amor menos legítimo de Eça que destina os amantes à morte porque um se perdeu por uns olhos verdes e o outro por um cozinheiro que aspirava a ser chef.
A mão de Pedro deu, ainda, voz
- à força de Ourique, de Aljubarrota, do 1º de Dezembro, do 5 de Outubro ou do 25 de Abril, que resistiu ao opressor: na imagem de Darius que resiste ao cheque de 6 dígitos para vencer a batalha do filho; nos olhos de Teresa que resiste ao adultério em prol da amizade; na força de Ayda que resiste ao destino para salvar destinos.
A mão de Pedro fez-me embarcar num sebastianismo que espera num milagre em manhã de nevoeiro de cimento, ferro e vidro, quando nos deixa a prever a morte das personagens mas a esperar que todas consigam, afinal, chegar ao elevador.
Depois virei a página e já era “o dia que Ayda pensava ser 12 de setembro de 2001. E das páginas do livro soltaram-se notas, compassos, pautas inteiras que teimavam em calar os gritos de dor e os espasmos de raiva: acordei com Lopes Graça; ouvi o coro dos escravos de Verdi, o Pedro e o Lobo de Prokoviev… e depois um interlúdio de Taikovsky quando Romeu e Julieta (entenda-se Darius e Teresa) celebram o seu amor, afinal tão tragicamente possível. Entretanto soavam-me ao ouvido as palavras de Eugénio de Andrade: Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio.  
A mão lúcida, clara e objetiva de Pedro
- levou-me a ler o que as letras a negrito dos títulos da imprensa ávida de lágrima escondia
- levou-me a ver os esgares de dor ou alívio dos que se atiraram das janelas e que as objetivas não quiseram contar porque cortava o drama da lágrima alheia
- levou-me a perceber a realidade, a humanidade de uma coisa que me parece, ainda hoje, saído de um qualquer filme de Oliver Stone ou até mesmo de Steve Spielberg.
- levou-me a olhar com olhos claros mas sentidos de uma portuguesa mediterrânica, o que o umbigo da imprensa me mostrava com olhos políticos de americanos pacífico atlânticos.
Pedro Guilherme Moreira podia não saber fazer contas de dividir, mas soube multiplicar o seu dom de contar a História com sabor a história, de somar os factos da História à brisa da ficção, de subtrair os olhares uniformes deste facto, fracionando-os em vários avos de diferentes olhares.
Comecei citando Saramago e termino parafraseando Pessoa a propósito de Mr. Pickwik: as vítimas do 11 de setembro são figuras sagradas da história mundial. Por favor, não se alegue que Darius, Ayda, Teresa, Stanley, Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon nunca existiram: o mesmo acontece com a maioria das figuras sagradas do mundo, e isso não as impediu de serem uma presença viva para um vasto número de réprobos consolados. Logo, se um místico pode alegar um relacionamento pessoal e uma visão nítida de Cristo, um ser humano pode alegar um relacionamento pessoal e uma visão nítida de Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon."

Rosário Ferreira, Gumarães, 29 de Novembro de 2012


Ilustração de Gaylord Schanilec, retirada daqui

Custa-me



Custa-me não ter sempre Guimarães.
Custa-me não estar sempre Xico e ser d'Holanda.
Custa-me sem a Conceição, a Rosário, a Lena, a Glória, a Manela e os que virão.
Custa-me literatura dentro da voz da cidade estrangulada por descontos, lapidada pelas grelhas e a excelência em directrizes. Custa a escola toda sob as curvas dos quadrados. Custa-me os miúdos e a distância.
Custa-me a pastelaria do senhor Avelino sem o lugar dos dias, dos cafés que não se passam nem se mudam. Custa-me a dona Olívia não descer. Custa-me tudo ao mês, ao ano, se nos distraímos à década ou à vida.
Custa perder-me dos rapazes e raparigas que deram tudo de volta.
Custa-me o peso do coração, a leveza dos pensamentos, custa-me a fotografia que não se detém, o auditório da Xico cheio de luz e nós sem medo de olhar as caras todas uns dos outros, custa-me a brevidade, custa-me não repetir, custa-me o brilho encantado da Cristiana, da Rita, da Rute, da Cláudia, da Bia, do Bruno, do Luís, da Carla, da Bruna, da Ana, da Sandra, de pausas doces sem nome, custa-me não parar o tempo.
Custa-me eu de volta em cada olhar ou em flocos de cabelos ou em sorrisos tímidos, o meu braço há vinte anos no joelho e o que ficou por dizer e nenhum escritor vindo por mim.
Custa-me a morena do fundo da sala a dialogar com o meu silêncio.
Custa-me que esta declaração de amor não caia da rede por uma clarabóia da escola e passe na instalação sonora ou se fixe com fita-cola transparente na porta de cada turma que me enlevou e no casaco de cada aluno
por tão pouco enlevado.

Custa-me aprender o silêncio sem os bombos do Pinheiro.
Custa-me tanto a norte o canto celta que eu usei para chorar.

PG-M 2012

2012-11-28

O presunçoso

Disculpa os erros, papai. Prumeto mais cuidado nessa carta.
CPO é Centro Paulista de Oncologia, papai. Pensei que sabia.
Cê não imagina o que ontem passou em mim.
Cê sabe como aquilo é gigante pra c. E eu tenho de deixar mamãe sozinha em todas as salas de espera.
É pra registrar logo que chego. É pra tirar senha da colheita. É pra entregar o cartão antes da consulta de onco...pera, com'é? onco-ematolo...pera, deixa ver. Onco-hematologia, é isso. E depois a consulta demora sempre pra c., papai. E vai entrar dentro da hora da injeção, aquela que mamãe tá lá dentro duas horas, papai, e se atrasa perde a poltrona dela e tá tudo f. Disculpa, papai, mas é assim mesmo.
Mas ontem, papai, ontem cê não imagina o que passou em mim.
Mamãe está melhor, ou menos mal, como prefira.
Não é verdade que eu tenha sentido uma alegria tão grande assim. Eu desconfio do bicho, papai. Não vou sambar antes que os caras deiam o passaporte para fora de lá à mamãe. De lá do CPO, papai.
Mas ontem eu caminhava em todos os corredores e em todos os quilómetros dos corredores, papai, e todos mesmo, mas é que todos, papai, me mostravam os dentes. Sorriam, papai. Todos, papai.
Uma mulher até mais, porque mamãe tinha esquecido da pochete na sala da consulta e eu fui pra trás buscar e vim sozinho de pochete no corredor grande, aquele que eu tinha falado a você que era só luz e vidro e uma mulher bonita sorriu mas depois olhou para a pochete e depois para mim outra vez e ficou séria, papai. Eu ri muito alto, aí, é normal, né?, e dizem que aquele não é lugar de rir, mas, papai, acabei por preguntar a um home barbudo o que eu tinha na cara, ou se ele estava vendo minhas asas de anjo ou quê. Então ele riu comigo e respondeu:
- Não seja presunçoso, rapaz.
Mas o que sucede é que eu vi mais tarde, numa porta de vidro que mostrava a mim, que não tinha asa nenhuma à vista.
Porque eu uso sempre suéter e no verão as pena tão curta, papai.

Seu filho,

Rafael

PG-M 2012

2012-11-24

Este filme é um poema é um filme é um poema


E é urgente.
"Detachment" (o título português, "O substituto", com todo o respeito que tenho pelos senhores que têm este trabalho, mata, suga todo o assombro deste filme) porque Camus escreveu algo como:

"And never have I felt so deeply at one 
and the same time so detached from myself 
and so present in the world."

Claro que o cinema é feito por e para pessoas.
Claro que o cinema não é feito por e para bestas titânicas sobre-humanas portadores de "cahiers" plastificados.
Não que levar cadernos e plastificá-los seja mau em si. Mas o que tenho visto escrito sobre um dos filmes mais poderosos, arrebatadores, perfeitos, do nosso tempo é - toda a subjectividade à parte - conversa de meninos que pouco mais devem fazer do que ouvir, já nem digo lados B, mas lados da condição humana - e do seu próprio tempo - que não existem. Dar nota negativa ao filme e dizer que este poema é "monótono", como o New York Post, que antes escrevera que a dedicação do realizador ao material é admirável, é um qualquer sinalagma mal resolvido com o próprio espelho.
Monótono????
Não é por ter meros 97 minutos que deixaria de o ser, mas, vamos lá entender-nos:
a única coisa que pode acontecer a uma pessoa exigente e atenta ao mundo que o rodeia é sufocar a cada passo do filme, sufocar de comoção, e se o filme é o tal poema negro e pessimista, vão por mim: no final, vão ficar esmagados contra as cadeiras durante alguns minutos. Vão ficar a pensar que acabaram de vos mostrar o vosso mundo, hoje, e que se ainda não acordaram para ele pode bem ser este o momento.
Por causa de um filme?
Por causa de um filme, sim.
Por causa de um filme           sempre!
O filme nem sequer é lamechas em cada problema que trata, bem pelo contrário, ou não se chamaria "Detachment". E parece tratar quase todos os problemas de todas as nossas vidas. E mesmo o parágrafo de Poe, o que encerra o filme, não é o mais óbvio para um filme americano. Nem a forma como se explica a razão pela qual é fundamental ler livros, e porque é que a imagem e o som servidos em bandeja aos nossos filhos também os estão a deixar sem estrutura. Expressam-se emoções com um clique.
E, apesar de tudo, o movimento do filme não é a pele a descolar, to detach, mas a recolar.
Do negro para o branco.
O drama, a tragédia, a tristeza, é a que nos rodeia todos os dias.
Os nossos velhos e os que viremos a ser e a dignidade equilibrista.
Minimalista, propositadamente minimalista, a abordar a questão escolar (veja-se a improvável, mas necessária, cena da recepção aos pais), simbólico (so what? é curioso como o simbolismo extremo pode aparecer no realismo extremo: o abraço por dar a Meredith, que lhe define o destino e nos faz tomar a todos uma decisão: nunca deixarei de abraçar pelo que pode parecer ou pelo que possam pensar), encantador (o que mais se pode dizer da relação com Erica?), cínico (toda a personagem de James Caan, que no entanto é a personificação da bondade: afinal, os bondosos de hoje são cínicos? São. Somos?), derrotista (a directora, que se rende, mesmo vítima de injustiça), lúcido (quando a personagem de Lucy Liu passa dos limites, ficamos esmagados com a crueza da verdade exposta) e claro.

Claro.
A clareza é transportada nos olhos - claros - de Adrien Brody, o tal homem "feio" que todos querem para transportar a sua mensagem - de marcas a cineastas - porque ele é o mais bonito de todos a transmiti-la.
Não preciso de puxar dos galões, não preciso de lembrar que vejo filmes no cinema, todas as semanas, e ininterruptamente, há quase trinta anos. Nem de bater nos críticos e na crítica, que tão necessária é. Mas reafirmo que nem toda a crítica é precisa cá na Terra. Porque não me restam dúvidas de que este é um dos melhor filmes que alguma vez vi, e que talvez seja o mais pungente a arrebatador relato dos nossos tempos, quase insuportável para professores. Seria perturbante para muitos pais, mas esses, os ausentes, não vão ao cinema nem lêem Camus ou Poe.

Este filme fica como marca subcutânea, provavelmente supra, e digo-o pela forma como os corpos iam saindo da sala, as mãos sobre os esternos, o silêncio.
Desde "O túmulo dos pirilampos" que nada me marcava assim.
Perdê-lo é ser menos do que é possível ser-se.
Este filme é um poema é um filme é um poema.
E é urgente.

PG-M 2012

PS: o vídeo cuja ligação a seguir se deixa contém spoilers e só deve ser visto pelos que já viram o filme ou não o pretendem ver: http://youtu.be/_eh_eZ9a_Xs

2012-11-23

Agenda literária das próximas semanas (e mais qualquer coisinha)



No que à literatura concerne, concedi a mim próprio um ano sabático de Novembro de 2011 a Novembro de 2012, com a excepção das feiras dos livros e desta entrevista (grato ao Tito) "aos" Booktailors. Agora volto com a ideia de publicar novamente (absolutamente nada definido, mas muita vontade) e com a seguinte actividade imediata:

- Fórum Fantástico 2012: Domingo, 25-11-2012, em Telheiras, Lisboa, na Bilbioteca Municipal Orlando Ribeiro, na mesa das 15:30h do estimulante Fórum Fantástico. O tema é "Ficções além-género" e a mesa, comigo e com o grande Afonso Cruz, será moderada pelo ainda maior João Morales. Eles, os organizadores, merecem que apareçam, nesta ou noutra hora, a partir de amanhã, sexta. Ligação para a mesa e para o programa geral aqui.

- Escola Francisco da Holanda, 29-11-2012, à conversa com vários alunos que escolheram "A manhã do mundo" para avaliação no presente ano, e atrás deles toda uma escola. Gratidão antecipada à professora Maria Pires, autora de uma excelente recensão ao livro, e à professora Manuela Paredes, responsável pela biblioteca da escola, que organiza o evento. Espero voltar todos os anos.

- Estabelecimento Prisional de Caxias, 12-12-2012, também à conversa com os reclusos que estão a ler neste momento "A manhã do mundo" - exemplares gentilmente oferecidos ao EPC pela Leya - por iniciativa da responsável pelo Clube de Leitura do Estabelecimento Prisional de Caxias, Tânia Ganho;

Ficam a saber, embora só possam aparecer no primeiro:).

Abraços, PG-M

2012-11-19

para que mil pessoas voem



Para que mil gaivotas voem, não é preciso pedir. Basta passar. Com as pessoas não.
Estão cada vez mais transparentes e sós, e nem o medo as move. 
Quer dizer, se for na televisão, para que mil pessoas voem, basta passar.
Já gaivotas não.

PG-M 2011

2012-11-18

Não são palavras

Hoje não há. Porque as palavras que procuro têm de ser tudo. Fundas, claras, leves, negras. Para lhe dizer que não há felicidade que não pese nem tristeza que não voe. E que não é pela beleza, nem pela bondade, nem pelo cheiro, nem pelos olhos. E que estou aqui perante a mesa com os veios com os olhos secos desde a ameaça da noite e na indefinição da madrugada. Que pareço frio mas me desfaço. Que estou sem forma e porém de pedra. Os meus lábios grossos em carne viva. Selados. A garganta seca, húmida. Como um sorriso e um choro. Frio, fome, certeza, calor. Nunca serviria um abraço. O esmagamento do esterno. Mas os olhos. Que me olhem para o fundo dos olhos e se deixem olhar pelo lapso de tempo e silêncio que duas pessoas demoram a ser camadas uma da outra, a estar dentro e entre, queijo, fiambre, pão. Que não se convoque corpo, sexo, desejo, fome, sede, nada. Só a - ah, não vou dizer. Não vou dizer alma. Só a alma. Já ouvi a Silvia Pérez Cruz e o Caetano Veloso ascenderem assim, virgem santíssima, e ninguém se queixa: "jura que una paloma no es otra cosa mas que su alma". Então que não se convoque o corpo nem a alma mas um animal, uma espécie nova, como se outra carne nascesse dessa troca de olhares. Sim, quando duas pessoas se entendem para lá de qualquer ideia ou pulsão, quando chegam a ser endógenas uma à outra, inventam outra vida. É verdade que já vi fazer isso sem olhar. A palma de uma mão nas costas de outra. Houve, afinal? Se houve afinal palavras? Não. Não são palavras.

PG-M 2012

2012-11-14

A estratégia comercial do sofrimento

No pátio do bolhão havia uma cara nova de mão estendida. Para ele importava pouco. Saiu do carro e ajustou o nó da gravata determinado a ignorá-la. Fazia sempre assim quando a garagem onde tinha avença estava fechada. Tinha de ser rápido, que o lugar não era dos mais recomendáveis à noite. Ia jantar à Cunha, estava com a ideia do bufê, o pessoal já tinha ligado há vinte minutos a confirmar que havia mesa, e a miúda, suja e com aparência de pouco mais de treze, chegou-se a ele depois de se levantar do cartão resguardado na antiga bomba de gasolina onde, por aquela hora, já se tinha recolhido. Não pediu a moeda. Limitou-se a confrontá-lo assim:
- O meu pai fode-me duas vezes.
Já não deu tempo de se confortar com a ideia do costume. Que ele é que tinha arranjado o lugar. Que ele é que ia perder duzentos euros no ordenado por causa da austeridade. Que ele é que trabalhava, essas romenas que fossem trabalhar também.
- O meu pai fode-me duas vezes. Eu fujo, ele encontra-me, bate-me, ameaça-me, obriga-me a vir para a rua pedir.
Isso não são duas vezes, pensou. É genericamente uma, é tudo para o mesmo fim. A rampa para sair daquele lugar não permite grande velocidade. Não consegue distanciar-se.
- E depois fode-me mesmo, viola-me e obriga-me a foder com outros e cobra.
Já não contou a segunda. Sentiu um calafrio a percorrer-lhe os ossos e as pernas a falhar. É da fome, pensou. É fraqueza. Segurou-se à parede. Ela tocou-lhe no braço.
- Não me toques, foda-se. - foi duplamente ignóbil. Naquele contexto, só se trata por tu alguém que não se quer ver.
- Isto é mesmo verdade. Mesmo verdade.
A miúda continuava a não pedir nada. Pensou que a estratégia era brilhante, ele nunca tinha vacilado assim antes, e ali estava apoiado à parede de um túnel sem luz com uma romena inútil a assediá-lo. Provavelmente estava prestes a avançar um gangue para o manietar. Não sentiu medo, sentiu raiva. Ela voltou a tocar-lhe no braço, ele empurrou-a, ela caiu, ele recomeçou a subir - a culpa, contudo, voltou a travá-lo.
- Volta para a tua terra, foda-se.
A romena disse que não era romena, que se recusava a chorar, que ele não pensasse que a fodia a terceira vez.
- O que é que tu queres, caralho?
- Nada.
- Como nada?
- Ele apanha-me sempre, tenho doze anos, ninguém me dá trabalho, venho para a rua, ele apanha-me sempre. E quando me apanha fode-me duas vezes. Eu conto esta história para comer, mas é tudo verdade. E ele vai apanhar-me aqui outra vez.
Ele, a pensar no bufê da Cunha, era advogado. E como advogado já tinha sentido os olhares de compaixão de juízes, funcionários e tradutores quando raparigas bonitas de leste contam histórias mirabolantes na barra do tribunal, depois de, por lapso, saírem do El Corte Inglés de Gaia com roupas que não pagaram Sôtor, sôtor, não se pode desfazer com esta gente. Sôtor, sôtor. Ele já tinha uns aninhos daquilo, mas sentia-se sempre envergonhado. É assim, sôtor, nunca contam a verdade. Pois, estão tipificados, são seres humanos filhos da puta e ponto final. Ele virou as costas à miúda que dormia no cartão sob a antiga estação de serviço do pátio do bolhão e tentou acelerar. Ela levantou-se, cuspiu-lhe nas costas sem lhe acertar. Estava explicado. Era mentira porque tinha sido mal educada. Ponto final. Grandessíssima filha da puta. O bufê estava bom. Quando se foi embora, às duas da manhã, o cartão arquejava e já não houve perigo. Ponto final.

Nota: a miúda desapareceu no dia seguinte e nunca mais voltou. Não resultou - a estratégia comercial do sofrimento. Pensou ele. No entanto, a única razão desta história banal estar aqui foi um facto confirmado mais tarde pelo polícia de giro daquele quarteirão. Essa miúda foi encontrada morta. Era ela. Tenho a certeza, sôtor. Nunca nenhum habitante da bomba de gasolina do pátio do bolhão tinha morrido antes. Nem depois. O barbudo que lá viveu mais tempo, que se saiba, o mesmo que lhe dava cabo do carro por não receber moeda, não morreu de frio nem morreu ali. Morreu de overdose na zona da Rua de Ceuta. A miúda diz que estava azul. Diz que foi hipotermia. Também era Dezembro, sôtor. É verdade. O jantar foi na antevéspera de natal, tem razão. Pois, sôtor. Quem se esquece disso? De uma miúda azul aparecida morta na véspera de natal? Ele acabou por pensar, ainda que com uma certa tristeza no coração, que tinha tido sorte por não o terem acusado de nada. Adagio for strings. Fade out.

PG-M 2012
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A angústia do artista antes do penálti


Já o artista sabe que a expectativa é o diabo.
Nisto novidade nenhuma: a primeira paragem do "Dom Quixote" deve ser o prefácio que lhe faz o próprio Cervantes - se o lermos sabemos que nada do que nos rodeia é novidade ou acidente, que há certas dúvidas e lamentos que duram desde o princípio da existência: a arte rupestre teria os seus próprios demónios.
Melhor dizendo: o artista que é artista e o veste por dentro e por fora, sabe bem que o grande satã é a esperança de ser entendido e estimado e reconhecido.
Mas é que não é fácil que o artista treine a alma e o corpo para o despojamento total dos factores alheios à sua arte. Muitos entenderam-no bem e a tempo e ainda assim morreram na miséria. Às vezes é uma opção, as mais das vezes uma inevitabilidade. O verdadeiro artista não sabe viver senão dentro da sua arte, e no entanto tem, quase sempre e principalmente nestes tempos, de praticar outras para ter pão na mesa. Há inclusive artistas que, entendendo-o, não resistem em reinar, teimosamente, sobre todos os outros no seu tempo de vida. Não se fala do reino póstumo e inevitável do génio. Fala-se do reino forçado e imposto do nu, do excrescente.
Sabemos que em todas as artes e entre todos os artistas se misturam verdadeiros autistas, elementos que nem sequer têm de viver no meio em permanência - mas teimam em fazê-lo, visitando e revisitando teimosamente cada movimento dos seus pares. Também há autistas entre os que vivem no e do meio de forma profissional: os que, podendo fazer o esforço para manter a cabeça à tona - não acima de ninguém, mas por cima do marasmo -, se deixam imersos e se perdem numa teia de lamentos sem nunca voltarem para si e para o seu meio um olhar crítico (ou vendo-o e ouvindo-o fora).
Finalmente, os meios de formatação da consciência das massa, vulgo "media" ou mídia ou média, que podiam ser a razão de ser de uma descolagem para a visibilidade da arte e portanto do lamaçal, assumem-se como mera consequência do mundo que os rodeia. Mera cobardia, isso sim. Não funciona: nada está imune. Ninguém está imune. Uma frase tirada de contexto cria um vírus de ódio onde a sensatez fica sempre afogada. Há piquetes permanentes nas redes sociais, piquetes que clamam os direitos fundamentais enquanto enterram os que lhes são acessórios.
A angústia do artista é a consequência natural de toda a arte ser diferida. É produzida em solidão, e, embora possa (deva, em quase todos os casos) integrar o seu próprio público potencial (pode ser legítimo o artista eremita, mas é certamente um caminho mais fácil do que se dar aos que dele desfrutam), é um diálogo necessariamente surdo e atemporal. A resposta pode nunca vir, pode vir dez anos mais tarde, cinquenta, um século, um milénio. Não pode o artista esperar que o ponham em directo.
O único esforço do artista deve ser - se quiser, e apenas se quiser - a escolha de um moderador e de um mediador competente e dedicado. O editor, por exemplo, no caso da literatura. E é nos ombros deste que recai a tarefa - tantas vezes terrível - de dar a oportunidade de os próprios contemporâneos do artista exigirem a sua arte no presente.
Muitos destes movimentos assumem direcções opostas, são quase incoerentes uns com os outros, e trazem a incoerência para o discurso associado a qualquer arte. Voltamos a Cervantes, que o disse. O artista que, na sua arte, deve esperar nada. E só estará em paz quando sentir que cumpre o seu dever produzindo e deixando a outros, ou ao tempo, o conhecimento.
Uma coisa é certa: todo o reconhecimento, todo o prémio, é externo à obra de arte.
Como o é todo o esquecimento.
E se a lembrança pode ser sintoma do génio, não o faz.

PG-M 2012
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2012-11-11

Hoje almoçamos sem ti

Hoje almoçamos sem ti, e eu quero que a manhã
siga lenta, e nunca chegue
a hora de contar
os pratos

Hoje almoçámos sem ti, e eu tentei disfarçar
a tua ausência, mas a mão
ia sempre descansar
no lugar onde comias.
A altura do naperon ao chão
e o fingimento
e a tristeza na boca
e a vida,
tudo parecia
igual


E levantou-se a mesa e o teu lugar
estava limpo, mas eu
vim sacudir as migalhas
que fingi
dentro do punho fechado

Hoje o sol deteve-se nos telhados e o frio veio
das ombreiras, porque almoçámos

sem ti.

PG-M 2011

fonte da foto

2012-11-10

as nossas palavras na parede

Quarta-feira, 8 de Novembro, pelas 19:30h e em frente ao meu mar de Gaia, escrevi o texto "Porcelana" porque se me impôs. Quinta-feira, dia 9 de Novembro, pela noite, e porque o mesmo texto se impôs, felizmente, ao organizador de uma sessão bimestral de poesia no Bairro Alto, as palavras, que passaram de minhas a nossas, estavam projectadas na parede e ditas (dizem-me) com emoção e acolhimento.
Comove-me profundamente. Tenho consciência da minha sorte, do meu privilégio. Obrigado.

2012-11-07

Porcelana

Há uma erva a que chamam porcelana.
Diz que é prostrada e de caule avermelhado.
Tu, portanto, que és sequóia a um tempo e porcelana a dois.
Conheci-te como semente atrás de um vidro. Depois uma planta frágil num vaso consistente. Depois a sequóia para a qual não havia vasos possíveis para lá dos que me comunicavam o teu sangue. Depois a desmesura a trazer-te de novo à porcelana. Erva prostrada de caule avermelhado. Sempre atrás de um vidro. Não sei se o da montra da florista urbana, se o que as pessoas trazem sempre em torno. Diria que nos dias bons era o primeiro, nos menos bons o segundo. Um dia vou abraçar-te e ter a escala da carne aplicada a cada pressentimento. É o dia em que a sequóia adornará à escala humana e a porcelana ganhará textura e deixará a prostração, ainda que preserve o caule avermelhado que vem do que ferve em ti. Isso eu sempre soube que era honra. Há uma espessura própria dos seres vivos decorosos, pelo que sei que alcançarás uma forma adequada e me sustentarás nos braços. Em qualquer das formas foste sempre a mais bonita, mas sempre soubeste que essa era a propriedade do vidro. O vidro que não ocorre na circunstância de duas pessoas que se abraçam. A única coisa que espero desse abraço és tu. Finalmente.

PG-M 2012
fonte da foto

2012-11-05

pai, pater, padre, pare, papa, father, père, far, isä, otec, baba, tata, aita, athair

Não há uma só língua em que a palavra pai vague.
E todas têm um peso específico.
E nenhuma é leve.
Contudo, há pais que são desertos, silêncios, ausências. Meras deduções.
Ter de deduzir um pai a partir de uma qualquer operação lógica é, sempre foi, sempre será, um acto de violência gratuita sobre os filhos e sobre as mães que os amam com actos em consonância.

Mas, pai, talvez não tenha sentido usar contigo as mesmas palavras frias, os mesmos conceitos precisos, as lágrimas duras que fizeram de nós filhos de papel passado em vez de boleros.

E ainda assim eu sei que - sobre pais que nem um prosaico abraço concederam aos seus filhos pequeninos, nem cederam à tentação da beleza e da candura - nunca superarei o tom de manifesto. Mas se foi essa garantia de mediocridade que me impediu sempre de escrever o que era devido, hoje prosseguirei na lama:

Nós somos os filhos e as filhas nas costas.
É evidente que nos amas, pai.

Eu até sei porque te calas e não dizes nada

A verdade é que todos nós somos doentes incuráveis da mesma enfermidade.
Se o Cástor Perez, o pai de um rouxinol, essa Silvia, se senta num café com os velhos a fumar e jogar à sueca e tange a guitarra e a filha para a acompanhar  nos Veinte años, e cada passo da letra parece dirigido à dedução do nosso amor, e não a outro qualquer, nós, os filhos deduzidos, deixamos a todos, sem excepção, as tais lágrimas duras por tudo o que não podemos ter,
um pai cumprindo um simples gesto de amor,
que o teu por nós foi sempre sacado por arredondamento, nos teus silêncios ou nas tuas ausências, pai. Qué te importa que te ame/ si tu no me quieres ya?
El amor que ya pasado/ no se debe recordar./ Fui a ilusión de tu vida/ un día lejano ya/ Hoy represento el pasado, no me puedo conformar/ Com qué tristeza miramos un amor que se nos va

E es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad

E pelo menos um desses filhos tem um pedaço de memória não incinerada em que o seu pai se acompanhava à guitarra cantando a Paloma, dicen que por las noches no más se iba en puro llorar, juran que el msimo cielo se extremecia al oir su llanto. Como sufria por ella, que hasta en su muerte la fue llamando, ai ai ai ai ai, cantaba, ai ai ai ai ai, gemia, de pasión mortal moria, que una paloma triste
nos és otra cosa mas que su alma

E só aí, depois de um vibrato, eu me rendia e os serões explodiam em palmas
e eu ia impodindo em mim - quanta injustiça que o mundo te visse transparente
e eu não
quanta injustiça que o mundo te visse de cara aberta
e eu nunca

E agora tudo nos faz chorar, pai, a nós, aos enfermos.
O pai de uma escritora que aparece em todas as fotografias que lhe foram tiradas numa certa tarde chuvosa de feira do livro de Lisboa. Ridículo, pai.
E no entanto faz-nos  chorar.
Todos os pais destes filhos enfermos se fundaram na própria ideia de egoísmo transformada em rigor.
Todos os pais destes filhos enfermos decidiram, num certo ponto da viagem, que há sentimentos que não merecem protecção, porque provindos da alta deformação da auto-piedade - mas todos os filhos enfermos, para sobreviverem, tiveram de gostar de si próprios.
Todos os pais destes filhos enfermos consideraram que o amor deve ser doseado.
Todos os pais destes filhos enfermos advogam a alta instância do inquebrável "não" como condição na dinâmica evolutiva da espécie humana.

Todos os pais destes filhos enfermos guardam para eles palavras de chumbo amoladas em rebolo de betão.

Todos os pais destes filhos enfermos usam como máxima que a porta-da-rua-é-serventia-da-casa e
Todos os pais destes filhos enfermos os põem na rua;
Todos os pais destes filhos enfermos os traem
Todos os pais destes filhos enfermos terminam

e nenhum pai de um filho enfermo lhe foi doce,
bem chorasse nos filmes,
e nenhum pai de um filho enfermo deixou de dizer uma vez em todas as suas vidas
tu desculpa sabes que te amo sou teu pai
ou por ele ou por uma mãe
desesperada

e num fim óbvio de solidão auto-piedosa, esses pais, todos os pais destes filhos enfermos, se servem deles como seus cuidadores e ficam frágeis como fios de cabelo e denunciam, com propriedade, os abraços não implementados
pelos mesmos filhos enfermos.

alguns têm amantes, outros só a sombra
no olhar

Todos os pais destes filhos enfermos os vendem
Todos os pais destes filhos enfermos os perdem.

Mas todos os filhos enfermos se curaram para servir os que lhes sucederam
e dão outros erros, não os erros perfeitos dos que os antecederam,
dão erros cândidos
dão excessos, abraços,
beijos,
tens de parar com isso, pai

Com qué tristeza miramos un amor que se nos va

E es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad



PG-M 2012



2012-11-03

Nunca chove na enseada ao fin do mundo


ela, antes de min,
fai tormentos de tormentas
engurras no aire, queixumes,
deixa a roupa e as bágoas
no vestíbulo do mundo

e chégame sempre sorrindo
co ollar en claridade


Chámase Galicia
e non hai - nunca houbo -
mentira algunha
cando é coidado
e é de amigo.
Por iso é certo:

Nunca chove na enseada ao fin do mundo

PG-M 2012
fonte da foto

2012-11-02

Um livro em português na Galiza

Abro uma vez mais a excepção e dou esta extraordinária notícia - que me comoveu profundamente - de que acabo de ter uma crítica ao livro "A manhã do mundo" na Galiza. Não, o livro não foi traduzido. Pilar Cheda, jornalista no periódico de Lugo "El Progreso", leu o livro em português e escreveu as linhas que se seguem, e se lêem em galego. O que me fez ter a certeza de que não há razão para que um escritor português não vá falar dos seus livros à Galiza - se esquecermos os preciosismos e nos ativermos ao sentimento dos falantes, a língua é a mesma. Não quero ser injusto para nenhum crítico - e foram alguns, felizmente, até aqui -, mas há uma razão para estar comovido, além daquela de ser lido fora de fronteiras (será mesmo "fora"?:): a de que Pilar Cheda captou, ponto por ponto, a intenção do autor no seu estado puro. Quando eu tiver de explicar porque é que escrevi o livro e que intenções tinha quando o "compus", remeto para Pilar Cheda. Aqui vai:

"E se...?
Pilar Cheda

A manhã do mundo chegou a min por acaso e tiña todas as posibilidades de non me agradar. Non me resultou atractivo o tema, non teño simpatía algunha polos norteamericanos e penso que a traxedia do 11-S se utilizou sen pudor. Aínda así, tiven curiosidade por ser o punto de vista dun portugués e lin. De non ter feito iso, tería perdido algunhas das sensacións máis incribles que me ten dado a literatura.
"Sofre porque o tronco do irmão já não aguenta mais abraços". O estremecemento chega xa nas primeiras liñas. Pel de galiña, certeza de que estou ante unha obra diferente e cambio total de actitude de cara ao libro. Boto a andar da man de alguén que mira dentro das persoas e que sabe mostrar a súa esencia. Véxolles a alma e os personaxes deixan de ser estraños. Está o meu veciño, o meu primo, a camareira do bar da miña rúa, mesmo eu.
A manhã do mundo ten apariencia de libro, mais non é iso. O lector non debe deixarse enganar pola presentación física, polo conxunto de follas encadernado ao estilo tradicional. Iso só é apariencia. O autor debeu pensar que era preciso un vehículo para facer tanxible a súa obra e decidiu escribila, mais en lugar de folios en branco ben podería ter usado papel pautado porque o que esas páxinas esconden non é unha novela, é música, concretamente, unha sinfonía.
Pedro Guilherme-Moreira válese de seis cordas perfectamente afinadas para compor unha obra cun tema central claro, tempos ben diferenciados, voces entrelazadas que completan unha única historia e envolven ao lector nunha espiral harmónica da que provablemente non queira saír. As pasaxes presentan ás veces un ritmo frenético que fai xemer, outras teñen a calma da lembranza serena, hai cordas rasgadas pola dor, acordes tenros que acarician e, só unha vez, o máis expresivo dos silencios.
A música de A manhã do mundo (narración para quen prefira seguir co engano de que ten un libro entre as mans) penetra ata o máis fondo do receptor, ata ese lugar onde ninguén precisa entender, chega con sentir. É unha sucesión de sentimentos que se agolpan, aínda non remata un e xa arremete o seguinte con tanta intensidade que obriga a avanzar na obra para recuperar a respiración. A tensión nunca baixa, sempre queda unha corda soando, un harmónico no ar.
Esta obra podería ser a banda sonora dun filme. A música óese dende a primeira páxina. Evoca secuencias con tanta perfección que quen se achega non só é testemuña do que acontece, senón que penetra na acción e pasea polos escenarios onde se desenvolve, mira arredor, participa e, aínda sen poder cambiar os feitos, alonga a man para apertar a dalgún personaxe que pide coa ollada, sen palabras, só ese contacto.
Advirto a quen teña coraxe para abrir o libro que é inútil intentar pechar. Non se preocupen se no medio da noite despertan intranquilos, coa sensación de ter deixado alguén en perigo e senten a necesidade de pasar follas para pór fin ao sofrimento desa persoa. A min aconteceume non unha vez, senón varias. Non é grave e ten cura. O único efecto adverso pode ser erguerse ao día seguinte cheo de sono, mais coa satisfacción de quen salta as barreiras para escoitar, coñecer e comprender a alguén que nunca antes tivo voz e ten moito que contar.
A manhã do mundo é unha inmersión no ser humano tan veraz que arrepía. Contrapón os instintos de supervivencia máis primarios do home á cualidade que o fai evolucionar, a capacidade de decidir. Nesa elección, non sempre entendida ou aceptada, está a dignidade de cada persoa.
O autor derrocha empatía coas voces que presenta. Non hai vitimismo, non hai lástima, só historias comúns, persoas cunha vida real, nunha circunstancia extrema, conscientes dos seus actos e con capacidade de decisión.
A medida que avanza a obra, a pasividade incómoda, a tormenta de sentimentos remexe as entrañas, o pensamento sae do rumbo marcado e o ouvinte/lector perde o control das sensacións. A pregunta é inevitable: E que faría eu? Obxectivo cumprido.

Lugo, 30 Outubro 2012"