2012-09-25

todas as mulheres ao fim da tarde


cada mulher, agora, ao fim da tarde,
a aparecer aos galeões como outra
musa
com os filhos sugeridos nos rochedos
e o sangue nas fissuras
onde os homens colherão
nenhum poema
só poetas com os dedos nas bainhas
e a ameaça permanente do abismo
caiam vivos como mortos
nessas falhas vesperais
dão gargantas maternais
ao infinito

porque há sempre uma mulher ao fim da tarde

é a mãe que te limpa sangue e lama
água quente, tristeza, desespero
é a mão que te abafa cada olhar
muito antes de as pálpebras fecharem

e a morte abrir

PG-M 2012
fonte da foto

2012-09-24

Vem tempestade, escritores


Os dias já se notam. E sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest. Vem tempestade. Corro para dentro do café que ainda não suporta as portas fechadas. O vento assobiará e entrará de qualquer maneira. Por causa da Herta, compreendi o silêncio na nuca e como se distingue do que trazes na boca. Agora sim, é outono. Só é outono quando muda de face e te mostra o inverno e a sombra. A chuva de manga curta. Já te expliquei como na negação da minha velhice me sinto violada por todos os escritores? Nenhum homem entrou em mim assim. Nenhuma mulher ficou perto. Não esperam nem contemporizam. Entram, partem ossos, laminam órgãos, bebem o sangue, secam a água e executam a alma. Já entendi que me enterraram para uma empreitada nova. Uma fonte em vez de um aterro. Já entendi o contrário. Ou nunca entendi. Nunca soube. Os livros andam lá como tufões. Levantam voo no outono, migram no inverno, regressam na primavera e no verão estão sob as palmas das mãos. São as últimas flores, as primeiras árvores nuas. Ou ao contrário, tudo ao contrário. Ou tudo. Matam, ressuscitam, sobem e descem degraus. Os dias já se notam. E sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest. Vem tempestade.

PG-M 2012

2012-09-18

poema à mãe e outras vidas

Mãe, porque é que as palavras duras são mais doces do que duras as doces, e porque é que tanto duram as secas como se desfazem as que eles vendem em apresentações de vinte e oito comprimidos de cristais e tudo se passa num instante enquanto ardemos? Mãe, porque é que os milagres foram substituídos por talidomida? Escrevo-te a estas horas altas para disfarçar. Não quero que no topo da minha página do facebook esteja uma opinião política, mesmo que os meninos da quarta classe ma viessem a apodar de generosa, quero literatura aqui em cima, mãe. Lembras-te de como eu me sentia crescido quando passei para a terceira? Fiquei pequeno de novo, mãe. O recreio é severo. Ainda não consigo ser o mais forte nos domínios dos plátanos. Aflijo-me com os fracos, disse-te que este ano não os deixaria a descoberto, mas ainda não posso, mãe. Ainda fico nas escadas a olhar os grandalhões sobre o pão com marmelada. Quando tenho a boca cheia, desvio os olhos. É nessa altura que os pequenos são gozados e todos se riem. Quase levam os relapsos em ombros. É por isso que quando hoje ler a minha redacção política os meninos do quarto ano me apoiarão sem hesitações. Endorsement. Sabem que não levanto ondas, que sou fiável, mesmo que não concorde com multidões nem me junte a elas. O preço é relevante. Estão lá as meninas mais bonitas, mãe. Que ganho eu em querer fazer coisas com os nerds e as professoras? Tenho de ficar sozinho e disponível a comer o meu pão com marmelada para os grandalhões saberem que não pertenço. Que estou deserto. Livre. Mas escrevo-te, mãe, para te dizer que quero literatura no topo da minha página do facebook. Assim apouco a minha redacção política, que está por baixo. E digo-te o que importa, minha mãe, e digo-o completamente, e passo da literatura à vida, que a todos serve, por uma vez: vai correr bem, mãe, vai correr tudo muito bem. Afinal, a maior de todas és tu. Mãe. Eu, mais pequeno, vou a caminho da cidade que já não existe. Que vento atrasa as faias em Idanha, que sombra adianta as magnólias em Coimbra, que apneia suspende as areias em Francelos? E os invernos, mãe? Tu a separar-me as galochas de borracha preta e a cingires o meu sorriso ao essencial do sofrimento, as paixões negras, as gaivotas do Don Henley no baptizado do Marco, ninguém na estrada, ninguém na rua, a Joana como o grão do anjo e os corações candentes, o avô a posar com a avó junto ao portão verde e a deixar o BMW de estofos vermelhos de pele na palma da mão. E a trincheira agora. O rasgo na terra, os helicópteros ao longe, haverá resgate? Quem está pior? O escritor está de vísceras, deixá-lo. Mãe, achas mesmo que as raparigas gostam de rapazes altos? E alto, o que é alto, mãe? Davam leite simples e pão com marmelada. Davam felicidade em batas brancas passadas a ferro com vincos. Davam nomes. Bordavam. A Eduarda era padeira. O irmão atirava paralelos à nuca. A Sofia era e já não é. A Dona Laura será sempre. Não está em causa a memória de um. Está a de todos. E no meio de todos cada um tem ao peito o abismo de um tempo que não volta. Excepto para ti, mãe. Volta para ti a bandolete amarela, a saia curta, o cabelo armado, o stacatto. Uma frase em suspensão. Uma valsa, a tua mão em arco amplo, o corpo delgado. Toma-se nos braços. Roda. E roda. E roda.

PG-M 2012

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2012-09-14

O Urbano disse-me o seguinte do alto dos seus 88 anos de sabedoria


sobre "A manhã do mundo":

"Romance muito ousado e notavelmente bem escrito, A manhã do mundo, ou seja, aquela em que aviões tripulados por terroristas suicidas, embateram nas torres do Word Trade Center. 
Pedro Guilherme-Moreira procedeu a uma escrupulosa investigação dos factos e personagens do drama, muitas das quais aqui aparecem porventura retocadas pela imaginação do autor, como é natural, sendo outras pura invenção sua. 
O livro dá, com muita força, a visão dos angustiantes momentos que ali viveram, à espera da morte, essas criaturas, já meio sufocadas pelo fumo dos incêndios, hesitando entre saltar no vazio, como muitos fizeram, esmagando-se no solo, ou aguardarem ali o fim, por vezes abraçadas, cantando. 
Marc, o grande cozinheiro, Millard, Solomon, Alice, Thea são algumas dessas figuras patéticas. 
Cá fora Darius, cuja mulher num acidente ficou paraplégica, vive comno testemunha os horríveis incidentes das torres gémeas, com o seu filhinho, Stanley, ao colo. E encontra depois Teresa, uma amiga de família, que o apoia. 
É um romance empolgante, que não largamos até chegar ao fim. Revelação de um grande escritor, advogado de profissão, já com alguns prémios, mas que se guardou para esta obra de fundo. 
Agora exigimos-lhe que continue e nos dê outros romances de grande qualidade.
Urbano Tavares Rodrigues, 2011"

e eu fiquei mudo, vaidoso e a arrepiar. A pele e o caminho, como ele exige e eu vou corresponder.
Obrigado, Urbano.
Não podias deixar um homem mais feliz, principalmente sabendo que há tantas pessoas como tu, pessoas que escrevem muito melhor do que eu.

PG-M 2012
foto da recensão de Urbano Tavares Rodrigues no site da Gulbenkian aqui

I. P. O.


Finita. Entreguei o meu corpo e sou - estou -  finita. Tive a sorte de arranjar uma cadeira na sala de espera de Oncohematologia, tu ficaste de pé a manhã toda. Eu pensava que era rara. Quantos sangues doentes, afinal? Fui ao passado enquanto estive prensada entre a senhora da tv guia e o rapaz de trinta e cinco anos de cabeça meneante enfadada com o destino. Tu, de pé e sem posição, sempre em cima da senhora e debaixo da (minha) censura, resolveste ser olímpico e perguntar-me "sempre tens visto a Gabriela?". Vivemos na mesma cama e, tu sabes, não gostamos de novelas, nem sequer desta "Gabriela", mas tu, olímpico, foste buscar a senhora à sombra e puseste-lhe a matéria branca a perscrutar uma oportunidade. "Dá a que horas?", perguntaste. "Às dez", disse ela. "Às dez? Tão tarde? Não é às nove e meia?", "Não, começa antes da da quatro acabar", disse ela. O primeiro sorriso. "A Sónia Braga ainda mete a Juliana Paes num bolso", adiantaste, e eu a pensar, "como é que ele sabe o nome desta?", mas afinal estavas a pescar o rapaz - um sangue jovem ferve de incompreensão, mas as tuas saídas frívolas trouxeram-lhe o quarto sorriso, depois do meu e do teu, gaguejou, desistiu. Diga, diga. "Eu", disse ele, "eu gosto muito da Juliana." Ahahahahahah. A sala reagiu com inquietação. Dormência. Lembras-te de quando entrámos? Era a nossa primeira vez. Meteste pela cirvunvalação, que era melhor e tal, eu já te tinha explicado que pela ponte do freixo saías depois do dragão para paranhos, mas tu meteste pela circunvalação. Quando comecei a discutir contigo banalidades deu-me um aperto no peito porque me lembrei para onde ia e decidi - erradamente - que tinha perdido o direito às banalidades. Não querias deixar o carro no parque, mas os meus ossos já não aguentam, uma dor nível sete de zero a dez nos piores momentos - e não tem havido melhores. Ninguém viu o alerta. Em ano e meio, ninguém se sobressaltou com o pico de proteína. Agora já não podes procurar lugares gratuitos. Hoje foi a nossa primeira vez no I.P.O. Não há primeira vez sem medo. Entrámos de mão dada, a minha direita na tua, o teu braço esquerdo a amparar-me. "Fica aqui no bar enquanto dou sinal de ti no guiché das consultas". Tanta gente. Tanta, tanta gente. Que importância temos? Pouca, muito pouca, talvez a altura da alma, nem mais um centímetro. Marcha lenta na fila do bar e a sala de oncohematologia cheia. Como é que servem cafés a pessoas em absoluto sofrimento? Ou as pessoas em absoluto sofrimento não vêm tomar café? Tanta gente e tu de pé, eu enfiada entre pessoas enfiadas. Eu a pensar disparates, que vida a minha, como vim aqui parar, voltei às vésperas do baile de há cinquenta anos em que te conheci, eu nua ao espelho que a mãe tinha no quarto, o corpo sem mácula, o corpo pronto para ti. Olhei para o meu colo sem luz e os ossos a doer e que pouco tenho para te oferecer hoje. E tu? Terias pedido a minha mão ao papá se soubesses que, cinquenta anos depois, era a tua mão que era precisa para me amparar na igreja, nos degraus de casa e aqui, no lugar onde ninguém está por capricho nem há pulseiras de triagem? Sabes se é aqui ou no outro pavilhão? O de radioterapia está totalmente renovado, é um dos melhores do mundo. A tia tinha razão quando dizia que as pessoas entram aqui menores e saem maiores. Muito maiores. O médico a perguntar o que queria eu para o futuro. "Ver os meus netos crescer". É isso mesmo que terá. Mal escolhido, lembraste tu cá fora. Os netos já estão todos maiores do que nós. Como nos rimos. Estava um perfeito sol de setembro e tu perguntaste-me se eu queria ir comer qualquer coisa em frente ao mar e eu respondi que só queria uma cama para me deitar. Apesar das dores, que aumentam quando me deito, às vezes um oito, eu só me queria deitar. Ainda não se sabe de nada ao certo. Falavam de perucas com voluntários. Mesmo que se  confirme, não vai ser nada. Isto virou doença crónica. As punções magoam menos. Ouvi-te dizer, em surdina, "o momento mais duro para ela foi quando estávamos sentados no bar (outra vez o bar), à saída, para ela comer qualquer coisa (não tinha comido nada todo o dia) e ela olhou para o cartão que lhe fizeram e disse baixinho: "Um cartão do I.P.O. com o meu nome, quem diria?...." Então saí maior. Banalizou-se tudo menos o tempo. As filas na VCI eram bonitas, íamos devagar a falar do dia, tu fazias-me mais festas na mão do que o costume. Não me importo que olhem para mim com medo de me perder, que me amem mais por isso. Já não tenho coisas pequenas comigo e finais são para se ganhar. Comecei hoje a ver a "Gabriela". A Juliana Paes não se compara à Sónia Braga. Os planos são de plástico. Voltei a tocar piano no vestíbulo, está desafinado mas é tão bonito.  Afronta a dor nas mãos. Gosto da Maitê na Sinhazinha. Desta Malvina. Vou ver os netos crescer, desde que passem o metro e noventa. Segunda-feira voltamos. Segunda-feira voltamos e, como tu disseste, vais finalmente poder iniciar a senda por caras bonitas sem o primeiro medo. Não nos lembraremos da glória do passado. E eu terei no meu regaço a solidão que tu sacodes com gargalhadas e conversas de novelas.

PG-M 2012

2012-09-10

Um dia solene

Magoa, dizes tu. Põe-te em sentido. Faz-te - como é que disseste? pfff - mirrar, ficar minúsculo perante a grandeza da memória de cada um de três mil mortos. Mas não foste tu que sofreste, meu caro. Não foste tu que viveste. Não foste tu que perdeste. Tu foste apenas mais um entre milhões de curiosos que se encostaram à vedação do ground zero com as mãos na cara e um espaço entre os dedos para ver tudo e lamentar cinicamente enquanto alimentavam um apetite macabro. E estroncavam a fechadura e rasgavam  o véu. Foste o próprio vazamento da decência. Foste apenas mais um entre milhares de rostos e vozes solidárias a dar palavras e abraços ao desabarato às famílias das vítimas para no final se confortar e se abraçar a si próprio. Foste apenas mais um entre centenas de escritores a pensar que escreviam o tratado definitivo sobre a condição humana à luz de uma espécie de holocausto que tu próprio definiste como individual. Que tu próprio inventaste como individual. Não tens vergonha? Não tens vergonha da forma como entraste nas torres? Não tens vergonhas de te tentares aproximar das motivações dos mortos, pior, das motivações dos saltadores? Não ouviste os senhores a dizer que nada mais importa, muito menos tu próprio? Mas quem mandou? Quem mandou desceres aos infernos dos detalhes quando todos eles já tinham ascendido ao firmamento da memória, do sentido? Quem mandou expores-te às e expores as entranhas dos desaparecidos aos que levas pela mão no teu livro? E agora queixas-te? Estás contaminado pelo horror? Não achas que é injusto tentares levar-nos de novo ao limite? Não achas que almejas o impossível? Uma apoximação subtil à morte? À natureza e à condição? E adjectivas como de grandiosidade e heroísmo os actos dos que tiveram que tomar a suprema decisão perante o supremo terror? E queixas-te? Magoa, dizes tu. Que é um dia solene. Porque não te calas, então?

PG-M sobre PG-M
2012, 11 anos depois

2012-09-09

a beleza não cabe nos corações humanos


a beleza não cabe nos corações humanos.
quando se instala transborda e os resíduos - que são líquidos - contaminam os corpos e geram animais loucos ou apaixonados ou ambos, não é segredo que é incurável, e há quem a tente tratar (à beleza) ficando gelado e há quem a tente tratar ficando triste e há quem a tente tratar fodendo tudo o que ama e há simplesmente quem ame, admire e cuide do que lhe atravessou o peito: isto será apodado assim por alguns: é a mais frágil e provisória das soluções. o portador da beleza só pode agradecer a sorte e viver com esse peso. porque a beleza, apesar de não caber nos corações humanos, não acontece a todos nem acontece sempre.

(há os que sabem desviar rios, mas dotes raros não contam)

PG-M 2012
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2012-09-07

Sanidade

Eis o devir literário em que deixei de encontrar quem  relativizasse. Todos estão certos, demasiado certos de si. Como diz Julio Ortega, no editorial do Babelia 1.084 (El País de 1 de Setembro de 2012), "(...) a tribo do gosto encarniçado revela o desequilíbrio afectivo (...)". Podia, mas não vou, replicar processos autofágicos fascinantes. Em tempos falei no denominador comum da bondade, mas não, não pode ser, porque não é bom quem deixa de ir ao encontro dos outros, não é bom quem considera que a sua atitude deve ter um aporte estético. A bondade não tem estética. Por uma vez, e na sequência da tangente traçada a García Márquez, ele que antes da fama vai em busca dos amigos para se assegurar das próprias escolhas, e depois do "Cem anos..." - portanto, depois da fama - conta com os amigos para o esconderem do mundo que o quer devorar pelas melhores e pelas piores razões. É doloroso que isso tenha acontecido pelo acaso do bom sucesso e pelo trauma da devassa. Aterra-me essa coisa da fama, mas aterra-me muito mais a devassa, por pequena que seja. Por uma vez, e no preciso fim-de-semana em que o supra citado Professor Julio Ortega publica um quase-ensaio intitulado "A questão do gosto", em que diz, entre outras coisas, que "(...) o gosto é o último refúgio da boa consciência. Pelo resto é-se responsável: a má informação, desigual educação, capacidade de discernimento. (...). A crise, com efeito, exige um exercício crítico que parte dos nossos hábitos: põe-nos em dúvida, despidos pela violência da maior de todas as evidências: a nossa própria irrelevância. (...)". Alcanço a clareza de que para se ser bom ouvinte tem de se alcançar uma certa passividade, tem de se abandonar  locomotivas e passar para o vagão restaurante. Já aqui falei de uma amiga que, embora nutra por mim grande consideração e me considere bem formado, me diz que não a ouço bem. "Virtualmente" não ouço bem ou, se ouço, depressa esqueço. Melhoro,  com falhas, no cara a cara. E como cara a cara sou raro, e como a falta do bom ouvinte altercêntrico é flagrante  em tudo, também na postura literária deixa de fazer sentido escrever todos os textos a partir do próprio centro. Sou filho de um director de uma fábrica de móveis, como Scott Fitzgerald, nasci no mesmo dia de Marcel Proust. Seriam excelentes motivos para ter a certeza de que a história não se repete, mas são mais do que isso: são irrelevâncias. Curiosidades. Circo. Mas é do que mais se abusa na filosofia do nada de hoje. É o mesmo Ortega que escreve "(...) Hoje sabemos que o gosto pessoal é outra prova da nossa fugacidade. A história literária é, por isso, uma economia do esquecimento: só recordamos graças ao muito que esquecemos. Daí o melancólico espectáculo do desenganado escrever: trabalham para o esquecimento, não sem inspiração, legiões de opinadores encarniçados na precariedade. Sem ironia, enfatizam o seu trânsito ao reafirmar o seu gosto como medida de autoridade, essa ninharia. Por isso, as antologias são o jornal de ontem da literatura: como os prémios, os best-sellers e a moda, anima-as o ardor do esquecimento." E não bastasse este brilho para nos calar, tinha de ressaltar há minutos, num belo livro sobre dramaturgia de Joseph Danan, o mesmo perturbante diagnóstico, que também é uma urgência para a sanidade, de Maurice Blanchot em "L´Écriture du desastre" (Gallimard, 1980, p122): "Temos de passar por esse saber (teórico, digo eu) e esquecê-lo. Mas o esquecimento não é secundário (...). O esquecimento é uma prática." Esqueçam-me, pois.

PG-M 2012
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2012-09-05

Carta a García

Esselencia,
Gabriel,
Mestre,
Essência,
Colega,
Amigo,
Nós por cá todos bem. Melhor. Espero que esta te encontre no momento em que a voz que te acompanha ta possa ler e que tu não penses como o Borges cego, porque a ti ainda só te falta a memória e é só de vez em quando. Qualquer escritor diria agora, neste passo e instintivamente, que melhor a cegueira do que a demência. Qualquer pessoa, que nós, os escritores, principalmente o mais certos de nós, temos a mania de ver rasas ao chão por oposição ao que se inspira e escreve nas alturas. Escrevo-te de la basura para te avisar que quase ninguém ouviu o que disse o teu irmão Jaime, e nas agências noticiosas internacionais apareceu só, e verteu para todas as notícias e depois entrou em todas as cabeças e alguns corações, que tu estás demente e não escreves mais. Pero Jaime não disse isso. Jaime disse que manténs o humor e estás rijo. Mas que crê que não escreverás mais, oxalá se engane (disse também). A memória está difícil. A demência cobre-te como uma sombra cada vez maior e os períodos de lucidez destapam-te a uma luz cada vez menor. Seja, Gabriel. Que no te voy a llamar Gabo, porque sou só um amigo universal. Em rigor, se eu estivesse aí dir-te-ia que já não andavas bom quando enjeitavas o "Cem anos...", tu tomarias uma pausa caribenha, mirar-me-ias gravemente sobre os óculos com o conhaque na mão e rebentarias numa risada - digo eu, que não te conheço e mais te invento e propago. Mas tu já não és de riso fácil. Odeias o "Cem anos..." porque te trouxe a fama que te trouxe a solidão não necessária que tu comparas à de um ditador latino-americano e resolveste n'"O outono do patriarca". O poder do ditador e o o poder da fama são parecidos. Mas fica sabendo tu - tu sabes - que estive a modos de chorar quando soube a história da velhota soviética que copiou os "Cem anos..." à mão e explicou que o fazia porque, para perceber quem estava louco, se tu ou ela, o livro tinha de ser escrito de novo, palavra por palavra. Elegeste-a na "Goiaba..." como a tua melhor leitora, lembras-te? Não te lembras. Parece-te que é esta a tormenta maior? O momento em que não consegues controlar a solidão necessária e, por isso, tens de deixar de escrever? Sinceramente, e ainda que andasses há quinze anos à procura do "Cem anos...", achei uma parvoíce pegada aquela de estares a caminho de Acapulco com a Mercedes e os miúdos e, subitamente, surgindo-te a estrutura do livro na cabeça, tenhas voltado para trás para o escrever, tenhas vendido o carro para pagar as contas enquanto nada ganhavas, e depois a tua mulher tenha pedido tudo fiado durante quase um ano, incluindo a renda de casa, para ela própria deitar o manuscrito no correio ao som da oração espontânea de "queira deus que não seja um romance mau e tudo tenha valido a pena". Liberalidade minha. Quão grandes são mulheres assim? Não se medem. Escrevo-te sabendo que nunca serei o único nem o primeiro nem o último. Ia até a dizer que talvez fosse o único que não me tinha por importante por escrever uma carta a García Márquez, mas a verdade é que me sinto muito importante por ter o que te dizer, ainda que o problema de qualquer escritor seja precisamente ter sempre o que dizer e não se saber calar ou, calando-se, o fazer no momento errado. Cobardes. Somos todos uma cambada de cobardes com a mesma pose de pontífices que acusas alguns críticos de ter, os mesmo que inventam enredos tácitos para os teus livros ou para os livros de um qualquer. Não somos nada, Gabriel. Olha lá como não somos nada. Somos a emoção de um leitor, portanto nada, porque a emoção é dele e isso é tudo o que somos. Existimos enquanto um bom editor, não importa se amigo, acreditar que falharemos bem. Porque todos os livros falham, mas só alguns falham bem. Tu chegaste ao ponto em que talvez a demência te proteja as rotinas terminais - diz o Jaime que te querem matar antes do tempo, mas todo o escritor depois da escrita é terminal. Se tu estás realmente depois da escrita, estás no ponto das rotinas terminais, e as rotinas podem proteger-te o tempo de estar como queres e com quem queres. Disseram-me que os teus vizinhos mexicanos continuam a ouvir-te as risadas de sempre. Mas isto sou eu outra vez a delirar, porque Pedregal de San Ángel é uma espécie de Beverly Hills e nos bairros de luxo as casas estão demasiado sozinhas, demasiado perfeitas e tristes para que os vizinhos se ouçam. Diz o Jaime que talvez não escrevas. E depois? Depois não queres falar onde decidiste morrer? Em Barranquilha nunca. Em Aracataca não, por causa do medo dos fantasmas. Em Nova Iorque és pária, e nem a La Coupoule parisiense, que era o lugar dos teus outonos e por isso teria todo a pertinência metafórica, valeria a despedida. Talvez o México seja o teu lado de dentro. Escrevo-te para te dizer, Gabriel, que te deixes ficar sem memória mas com risadas e não ligues a esta carta ridícula. Serás brindado, espero que não em breve, como o melhor do mundo e afinal dirás, como disseste sempre, que não passas de um jornalista caribenho que a fome e a urgência de enfrentar o terror da avó Tranquilina fez escritor de vara de condão em hotéis de passe em que o teu quarto nunca era o mesmo porque as putas o tomavam primeiro e tu, quando saías bem bebido do jornal às quatro da manhã para retomar uma das quinhentas páginas em branco que sempre tiveste ao lado, não querias saber das perguntas perigosas dos franceses ou da copiosa retórica que os castelhanos espalharam no planalto andino. Querias saber da tua vida e dos teus amigos. Ou sou eu que te estou a inventar, Gabriel? Pero al menos y por todo y por todos, no te mueras. No ya. E não uses essa espécie de epitáfio que tu próprio escreveste: "La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla." Havemos de transcender o nosso próprio sistema desordenado se repousarmos no nada que sempre nos definiu acima de qualquer engano. Una risada. Una risada es lo que eres. Uma que permita o reencontro e a despedida de um amigo. Y que te ponga la rosa amarilla en la mesa de siempre.
Que esta te deixe bem Esselencia, Gabriel, Mestre, Essência, Colega, Amigo.

PG-M 2012
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