2012-08-29

Nós, os tristes

Depressa. Tenho dez minutos de bateria e tenho de dizer alguma coisa de relevante. Mais do que relevante, arrebatadora. É só esperar, ela desce-me. Mas são só dez - nove - minutos de bateria. Oito agora. O sol põe-se em breve. A lua levanta-se. Mas isto está tudo banalizado. Estou na praia, à vista do mar. Mas quem se comove com a praia e com o mar quando todos enchem o livro de caras com fotografias do "estou aqui, finalmente, no paraíso"? E, tomando assim cem pessoas, digamos, trinta alegram-se, trinta odeiam, trinta desprezam, dez vomitam. Sete. Seis. A luz desce sobre mim, afinal sou escritor, a luz desce sobre mim mesmo quando estou criptopórtico. Cinco. Tenho um download a acabar em dez, rezo para que o velocidade aumente. Quatro. Afinal não é a luz. Sou eu que sou brilhante, emissor, sou eu que desço sobre os outros. Alguma coisa grande era dizer que sou deus ou assim. Sou deus ou assim. A velociade do download aumentou, o sol inclinado dá-me nas pernas, nem sequer olho para o mar, está bandeira amarela. Dois. O sistema de segurança do portátil! Pfiuuuuuuu. ( ) Hibernou, o cabrão. Liguei à corrente. Os senhores do café têm uma papel a dizer "proibido ligar à corrente", mas eu expliquei que era um caso relevante, mais do que relevante, arrebatador, pedi outro café, aliás, disse que jantava cá, "mas nós só servimos almoços", oh, então outro café, "está bem, ligue lá um bocadinho". Estou agora com o tempo todo. O pôr-do-sol nem sequer está bonito. Estou com o tempo todo e sozinho. A dona está a olhar para mim. E a enervar-me. Não vou dizer nada, já sei. Sou um zero. Não valho nada. A luz sobre mim - as lâmpadas incandescentes vão acabar, a luz tornar-se-á lenta, branca. Há sempre o efeito quente. Sou um radiador de pesoas. A bateria está outra vez nos dez por cento. Vou desligar da corrente, voltar à esplanada e começar tudo de novo. Depressa. Tenho dez minutos de bateria e tenho de dizer alguma coisa de relevante. Mais do que relevante, arrebatadora. "Estou? Querida? Eu? Estou no escritório, a acabar uma coisa. Sim, vou para casa logo a seguir. Eu também." Cinco minutos. Eu também, eu também. Três minutos. Posso ligar à corrente outra vez? O download acabou. O download acabou.

PG-M 2012

2012-08-23

Primo


Percebi, primo, porque é que demorei mais de trinta anos a escrever-te. Trinta e três anos desde que morreste num dezembro. Tinhas onze. Eu dez. E escrevo-te agora porque já consigo entender o tempo que falta para te rever. Não me lembro que tivesse sido um dia cinzento, mas lembro-me de estar nítido à noite, uma chuva muito grossa e as coisas todas limpas, brilhantes. Os meus pais estacionaram o Simca verde à porta de uma casa amarela e disseram-me para esperar. Uma chuva muito grossa e as coisas todas limpas, brilhantes. Do carro eu via uma janela com cortinas brancas que de vez em quando se moviam. Pensava que só eu tinha o direito de estar contigo e como era injusto ser o único que não estava. Tive pena de não te ter mais nenhum natal, porque eu só te via nos natais e no dia de visita. Nos natais diziam-me sempre a mesma coisa: que apesar do teu sorriso e dos teus olhos muito grandes e negros a olhar para a luz estavas muito doente e não conseguias entender o que se passava no mundo. Eu sempre tive a certeza de que era mentira e o último natal calhou passá-lo todo contigo, não fui brincar com o resto dos primos, fiquei a tocar-te e a olhar-te para dentro dos olhos e a limpar-te a boca santa, como elas diziam. Dei-te a papa uma vez, tinhas dez e eu nove. Tinha aprendido nessa visita a tua casa em que a tua mãe, reagindo às perguntas que eu não conseguia fazer, me explicou como conseguia, como fazia, como vivia. Achei a tua mãe muito bonita. À saída, as escadas intermináveis pareceram-me breves. A esperança e o amor dão músculo aos braços e espaço à alma. Nunca apaguei os teus olhos grandes e negros e ainda acho que o teu sorriso é o meu dos melhores dias. Sempre que me lembro de ti fico com dores. E o pudor ata-me as palavras. Não posso dizer mais nada, mas tinha de te fazer existir. Nunca tinhas chegado a frase, só a nome, um diminutivo, desde essa noite em que a chuva e as coisas todas limpas, brilhantes. Quando nos revirmos tu vais terminar o abraço. O amor, quando é, é normalmente uma coisa grande. Não há amor pequeno, primo, nem histórias com fim que o tenham. 

PG-M 2012

2012-08-19

Deserto (smoking in a blue bar)

É um bocado como agora, quando não escrevo, com a agravante de que já não fumo e isso é mau. O deserto e o desejo. O deserto de nada fazer sentido, de nada preencher, e o desejo de me poder alienar consciente. O desejo do ambiente escuro, azul, como dentro de uma nuvem à noite, a super bock de pressão a bombar nas veias e as pontas incandescentes dos cigarros que me davam a resistência para tudo, para não chorar, para não comer ou ser comido pelas mulheres nas queimas, para levar a noite ao meu limite, não ao limite dos outros. Houve noites em Coimbra, faz mais de vinte anos, em que sem ti e apesar do barulho e dos amigos no Briosa - o bar junto ao Bingo, naquela rua em frente às monumentais, lembras-te?, não sei se ainda existe - estava tudo deserto na minha cabeça (no peito nunca esteve). Não é a idade, o envelhecimento, o tempo, nada disso. Nenhuma nostalgia, porque afinal hoje tenho perto de mim tudo o que faz sentido e ao tempo passava às semanas sem ser tocado por ninguém. Uma vez foi uma camisola tua ao engano no meu saco. O máximo sofrimento. O teu cheiro vívido e fresco foi-se apagando, mas a distância, mais do que a distância, a altura, foi sempre aumentando. Não se pode ter tanta memória física na impossibilidade do corpo. Podia, como agora, pôr a rolar o melhor blues, aquelas frases americanas banais que com a batida e os acordes certos parecem dedilhadas e cantadas pelo próprio Criador, "because nothing, nothing, takes the place of you", e escrevia. Escrevia-te. Foram centenas e centenas de cartas. Agora ainda te escrevo - não cartas, sangue. Às vezes cartas, também, porque dás mais valor a uma carta escrita à mão do que a um poema, eu sei. Mas a felicidade tem um equilíbrio complicado. Longe de ti era impossível ser feliz e legítimo fazer tudo, beber, fumar, evanescer. Perto de ti ou nos portamos mal e discutimos, combatemos pela vida, ou fica um deserto e eu fico pela noite a escrever pelos outros. Pelo menos não há nada mais violento do que uma segunda-feira para gente feliz. É estúpido ter saudades de ter saudade, de estar incompleto, gordo, maltratado, esfomeado, sozinho, inseguro. De achar o Torga um Deus, enquanto terminava mais uma viagem no trólei três sem lhe conseguir dirigir a palavra. Fim de tarde em Coimbra, Outubro, chuva, começava o segundo ano de Direito e eu não era nada, tal como hoje. Está bem, ter-te, mulher, e olhar para trás e não me ter visto a encher os bolsos mas os olhos e os ouvidos a tanta gente, e os corpos que abanei, faz-me sorrir. Mas se o espelho algum dia te der importância hás-de reparar que por trás está o deserto. Este deserto. O deserto que se combate todos os dias. Por isso mais vale escrever e fumar e beber e dar à noite o nosso próprio limite. Smoking in a blue bar - é esse. O título que te daria nas faldas do Battery Park, à vista do Hudson, enquanto dedilhasse a minha guitarra e cantasse "Nothing takes the place of you".
PG-M 2012

2012-08-17

A sala negra (no coração da tempestade)

Gostos discutem-se. Eu digo-vos o que me toma pelos colarinhos no cinema: um filme que deixa entrar a literatura. Por isso, esta é outras daquelas noites em que se torna obrigatório para mim dizer que - mais que para os meus gostos, para as minhas vísceras - não me podem oferecer mais e melhor do que o filme hoje estreado, "Coração da Tempestade", do australiano Fred Schepisi, que ainda por cima tem uma bela filha e melhor actriz, Alexandra Schepisi (a Flora do filme). Não vamos por partes: Charlotte Rampling, uns sensuais 66 anos, magistral; Judy Davis, uns sensuais 57 anos, magistral; Geoffrey Rush, que Schepisi só quis um falso distinto no filme, muito bom; Alexandra Schepisi, a nada ínvia e profunda Flora que se cala da sua aparente frivolidade, muito boa; Maria Theodorakis, nunca tão contida como na santa Mary que compõe, magistral; Helen Morse, que tem arrebatado alguma crítica pela sua governante alemã Lotte, muito boa; John Gaden rigoroso no advogado Wyburd, mesmo Robyn Nevin tem o seu momento como Lal, e o livro, senhores, o grande livro homónimo do Nobel australiano de 1973, Patrick White, que o filme não decompõe como os piores filmes baseados em grandes romances fazem, mas que acompanha como o pulsar de um coração,  em arritmia, na boca, físico, incomodativo. A forma como o Schepisi filma os olhares (os silêncios, o não dito). Está certo que certos filmes se fazem para consumo visual, muitos deles são até muito bons, mas se juntarmos a isso a intensidade de um olhar à condição humana em que nada é confortável, está tudo cheio de zonas cinzentas cheias da luz dos desempenhos e da casa, a casa a que só no final se correm as cortinas. Eu pagava o dobro pelo bilhete de hoje, simplesmente porque o privilégio de ver o que vi e quem vi se deve pagar bem. E não há um momento de acalmia nesta tempestade, antes uma tensão permanente, um convite a olhar para o nosso próprio espelho. Se gostam de grande cinema, não liguem às cada vez mais afectadas críticas profissionais que grassam, porque cada vez há miúdos com mais autoridade na matéria e os graúdos que resistem já se acham no direito de ter tiques, esquecendo quase sempre que se trata de recomendar um filme para seres humanos, não para os pares menos humanos que os sindicam. Já sabem que eu, com uma excepção que é melhor não lembrar, só escrevo sobre filmes que considero imperdíveis no cinema. Neste não se fica imerso no ecrã de uma televisão ou de um computador. Este merece uma visita à sala negra. A física e a dos nosso fundos.

PG-M 2012
fonte da foto
na foto Charlotte Rampling, quando era menos sexy:)

2012-08-16

Fotomaton

Diz que o sol um dia nos mata e morre - não, explodir não explode, não tem massa que chegue - mas enquanto isso não acontece levanto os olhos da minha mesa de escrita em frente ao mar e tiro pequenas notas em fotomaton. A esquadria leva-me o ponto proximal para as ondas noroeste-sudeste que com algum vigor enrolam no mar médio e se apressam para a praia. A maré está quase cheia e o mar quase agitado. Daqui vejo uma nesga de praia com um grupo de miúdos negros da contraluz que se diverte onde as ondas chegam, comportamento típico de bandeira amarela. Está com eles, de pé, uma avó com as mãos na ilharga e as pernas abertas fincadas na areia molhada, o ventre ligeiramente para a frente e os ombros ligeiramente para trás - a descontracção diz-me que mora perto, é de cá, ainda que das freguesias interiores, mas a deselegância e a falta de auto-estima leva-a para o grupo dos que nos desatam a serenidade da praia, tão depressa grita aos miúdos como à comadre e sempre por razões que não poderiam inquietar ou indignar um espírito leve. Ainda vejo os miúdos - épica visão dos meus próprios verões -, graças a deus já não a vejo a ela. Mesmo em frente a mim, a esta hora, a mesma contraluz que torna os miúdos negros põe diamantes no mar, o brilho da frente das vagas. O empregado arrasta as cadeiras da esplanada preparando a descompressão. Cada vez menos mesas vão sendo ocupadas, mas na que está duas à minha frente, mais perto do mar, senta-se um homem da minha idade há mais de uma hora, sem livros, sem jornal, só um café e uma água com gás na mesa, massaja as faces vezes sem conta, esfrega os olhos, inclina-se sobre o braço da cadeira, ora sobre o ombro esquerdo, ora sobre o ombro direito, mas não faz nada. Olha mais para dentro do seu círculo do que para a praia ou para o mar. Agora pegou numa mochila, está a coçar a nuca, mas continua ali, sem fazer nada. Mais para a esquerda está um velho com um chapéu de palha, camisa branca e calças de linho - também não faz nada, também se inclina sobre o ombro esquerdo, ou melhor, faz tudo, se olhar o mar for fazer tudo. Mais para a esquerda ainda uma rapariga de caracóis amarelos escreve numa folha, pára, escreve, lê, pára, escreve, lê. Na linha exacta do senhor da pedra, lá ao longe, um casal de meia idade, ele ao sol, ela à sombra, ele a ler um livro grosso e leve, ela a ler uma revista grossa e leve. Passam várias crianças em tronco nu por trás de mim para ir ao wc. Chegam pessoas para um café de final de tarde, hesitam na escolha da mesa, nunca têm a certeza se querem vento, se querem sol, se querem resguardo e sombra. Eu vou pedir outro café daqui a pouco, apesar de estar habituado a bebê-los frios e a fazê-los render uma hora, tento não passar os três por período de escrita, mas o normal são dois em três horas e três horas é o mínimo para se fazer alguma coisa - abaixo disso só em plena produção, quando está tudo definido e é só executar. Mesmo assim, menos de três horas é sempre pouco para escrever. Também deve ser assim para pintar ou para fazer música. Qualquer interrupção é faltal. Como já não fumo há seis anos (e tenho pena), excepto em texto, preciso do café para entrecortar pensamentos. Deixa ver se tenho dinheiro certo. Gosto de pagar o café para me poder levantar e ir embora quando me apetecer. Gosto de ter dinheiro certo para não esperar com a carteira na mão e passar logo à tarefa seguinte. Agradeço sempre cada serviço prestado, mas costumo irritar-me no verão, não pela demora no atendimento, mas porque os contratados sazonais não sabem de cor o que eu quero e me pedem dinheiro quando colocam o café na mesa - ainda que eu queira pagar, não gosto que me peçam o dinheiro, não gosto quando falha o tratamento desigual, quando o pobre homem que está a tentar ganhar umas coroas não se informa sobre o cliente que serve, se é um bruto de  passagem ou um que gasta destas cadeiras há anos - mesmo que nunca escreva um segundo livro no mesmo café, volto por pequenos períodos aos que já usei. O homem aqui da frente foi, finalmente, embora. O velho do chapéu de palha continua lá, mas com os ombros encolhidos. A rapariga dos caracóis amarelos mudou de cadeira, voltou a cara para o sol. Está a ler - não sei o quê, mas está a ler, pelo menos tem a cabeça inclinada como quem lê. Há um senhor gordo de t-shirt vermelha com um portátil, mas não me interessa. Há mais cinco ou seis mesas cheias, mas não me interessam. O brilho do mar está a deslocar-se para a direita, em breve perco-o e começa o pôr do sol. No passadiço passa muita gente que também não me interessa. Aliás, estou prestes a fazer como a rapariga dos caracóis amarelos, a desligar este ecrã e a murchar sobre o meu livro, a ficar dentro do meu círculo como o homem que não fazia nada, podia estar em casa ou na montanha, afinal o que distingue este momento não é o que vejo, não é o mar, não é velho do chapéu de palha que agora tem os braços caídos, não é a rapariga de caracóis amarelos que agora tem a cabeça toda ao sol amplo, que a seguir vai fechar sobre matizes de vermelho e dar o dia por terminado. É o cheiro. O cheiro da praia, o cheiro da montanha, o cheiro da casa. O horizonte ainda está claro, como fica sempre que o vento norte se levanta, mas nenhum vento resiste ao silêncio que a praia colhe pelas oito. E então tudo se cala, tudo fica laranja. O fotomaton ainda não entra nos dicionários de português, como se o que se escreve fosse mais importante do que o que se diz. Diz que o sol um dia nos mata e morre - não, explodir não explode, não tem massa que chegue - mas enquanto isso não acontece baixo os olhos das pequenas notas em fotomaton e murcho para um livro de teatro.

PG-M 2012




O absoluto, Maria


Nunca te aconteceu quereres agarrar aquele momento perfeito? Chiu, vá, não fales. É uma pergunta retórica. Vais estar calada e ouvir-me cinco minutos. Sim, tendemos todos a pensar que só acontece nas férias e então as férias acabam e entra-se naquela depressão ligeira. A neura. Mas não tem de ser assim. Vou então ensinar-te a minha visão do absoluto. Para que abrandes sempre que queiras. Sabes quando alguém cai à tua frente e se magoa a sério? Melhor: sabes quando tu cais à tua frente e te magoas a sério? É isso. O absoluto é isso. Pela maior força assoma o essencial: tens um pé partido, estás a sangrar, nada mais importa. Durante dias a família acompanha-te ao hospital, o teu marido senta-se ao teu lado durante horas. Vocês enfim falam. Os teus filhos entram à hora da visita e abraçam-te a cama onde não te podes mexer. Nem vais poder mexer durante umas semanas, meses na pior das hipóteses. A rotina adapta-se. O lixo da vida desaparece. E é o mesmo o que nos dizem os que mais nos amam e os que se estão lixando para nós: não é um caso de vida ou morte. Ninguém morreu. Ou, na outra ponta, porque é que estás assim? Já viste que era muito pior se alguém tivesse morrido?
O absoluto, Maria.
Aquele momento em que estás com os fones nos ouvidos a fumar e a ouvir o Sulk e o sol das seis te enche as pálpebras e tu sorris porque ainda faltam nove dias para elas te acabarem e pensas que só nesses nove dias vais poder repetir o sol das seis mais nove vezes. Oito, porque no último dia viajas às sete da manhã. Seis, porque no penúltimo tens de limpar e arrumar.
O absoluto, Maria.
Quando acordas subitamente a um Sábado e te preparas para uma Sexta e o olhar sereno dele e o sorriso sonolento dos miúdos te diz que não é Sexta, é Sábado, e o corpo descomprime e tu agarras-te a eles todos como se não houvesse mais dias. Descobres que mirras a cada manhã útil. Não tem de ser assim. O absoluto, Maria.
A conjugação cromática de uma esquina a caminho do emprego. O cheiro de torradas e café. O colega gentil.  Se tentares viver a vida como um adágio para cordas o cabrão da janela, o que te enfia bocas como estiletes todas as manhãs, vai aparecer em câmara lenta e voz arrastada, os dias decorrem todos como se fossem o último dia da tua vida. O absoluto, Maria.
Todos os dias são o último da nossa vida, Maria.
Sob adágio para cordas. Lembras-te daquele do Platoon? Esse. Como se tocasse todo o dia todos os dias. Fuma, mesmo que não fumes. Finge que fumas aquele último cigarro na névoa azul do bar da nossa juventude, pode ser um charro, fuma e fixa-te na ponta incandescente. Já sabes, Maria. O absoluto, Maria.
O som dos helicópteros em fade out e a voz do Charlie Sheen enquanto os violinos entram,  dizendo

"Penso agora, olhando para trás, que não combatemos o inimigo. Combatemo-nos a nós próprios. E o inimigo dentro de cada um. A guerra acabou para mim, mas estará sempre cá até ao resto dos meus dias, assim como estará Elias, lutando com Barnes pelo que Rhah chamou possessão da minha alma. Houve tempos em que me senti como a criança nascida daqueles dois pais. Mas, de qualquer modo, aqueles que entre nós sobreviveram têm a obrigação de construir outra vez, de ensinar os outros o que sabem e tentar encontrar o bem e o sentido com o que resta das nossas vidas."

Por isso, Maria, vou levar este frasco de comprimidos comigo. Melhor, vou despejá-lo já na sanita.
Como é possível que não tenhas noção de que em certos minutos, muitos para os teus amigos, quase todos para os teus melhores amigos, todos para o teu marido e para os teus filhos, és e serás sempre a mais bela mulher da criação?

Como é possível que cada um de nós não veja isso de sí próprio? Que a solidão é apenas um lapso do corpo e um sobressalto do tempo? Que é a tristeza a precisar de espaço para morrer - e não cada um de nós fora do seu lugar.

Não há abismos portáteis. Mas o absoluto, Maria.

PG-M 2012

2012-08-09

A miséria

Enquanto reteve a juventude no corpo, e mesmo algum tempo depois, o Zé do Portão violou a sua mulher Guida e esse acto reiterado tornou-se uma das rotinas sufocantes do pequeno Mário (na foto), agachado atrás do aparador de cartão da única divisão da casa, à espera de vez. Não de ser violado, sorte, mas de apanhar no focinho, como dizia o pai nos seus tempos áureos, focinho que no seu caso era uma cara clara e inocente para uns olhos claros e inocentes. Mário chorou tudo o que tinha para chorar até sair de casa. Fez um percurso honrado e não violou a sua mulher nem bateu no seu filho, e isso foi relativamente bom. Acabou por cair na mesma rotina dos homens da terra, que é chegar do trabalho e comer e sair de casa e beber cervejas no café enquanto se vê a Sport tv e se fuma falando alto ou cantando o karaoke, mas sempre moderou os seus instintos. Verdade que lhe apetecia rebentar a cara à sonsa que ainda se atrevia a criticá-lo por não ajudar em casa ou andar aos beijos com outras gajas ou jogar uns trocos no bingo ou assapar nas retas da praia. Verdade que queria esganar o puto quando ele se punha a berrar por tudo e por nada. Mas nunca o fez. Nem uma coisa nem outra. Era muito criticado pela mesma terra que ficou muda durante os anos em que apanhou do pai. A terra que consentiu as violações da mãe durante mais de trinta anos, até faltarem forças ao velho. Não, antes ainda, porque Mário, no dia do casamento, deitou a mão ao pescoço do pai e avisou-o de que dali em diante não tocava na velha. A terra deixou de ouvir choro, mas Mário não tinha a certeza se a velha tinha chegado ao consentimento lúgubre ou se faziam outras coisas porque lhes faltavam as forças para a violência. Verdade seja dita: Zé do Portão nunca usou objectos para agredir mulher ou filho. Era sempre com o punho redondo que a mão sapuda formava. Mário era criticado pela terra por gritar com o pai em plena rua, descompusturas violentas que envergonhavam a terra do seu próprio silêncio e Mário usava para não ter de matar o velho ou bater na sua própria mulher.

O velho era gordo quando era novo. Ficou magro, arraçado do que era. A mãe sempre tivera um vincado atraso mental. Agora a vida do velho é arrastar-se com as muletas, às vezes com a mulher no encalço a dar os passos pequeninos do atraso mental e a olhar no vazio. Não falam um com o outro. À semana ela mal sai de casa. O velho sai, mas anda com dificuldade e a arrastar os pés os dez metros que separam o portão vermelho do café. E foi isto que ficou a vida deles. O velho sai de manhã e fica calado no café, sem falar com ninguém. Ao Sábado, rigorosamente, passam os dois o princípio da tarde ao portão a ver os carros passar. Nunca falam um com o outro. Ao Domingo saem depois do almoço e andam cento e cinquenta metros até ao próximo cruzamento da terra e passam lá a tarde, de pé, a ver os carros passar. O Mário chega do trabalho e come e sai de casa e bebe cervejas no café enquanto se vê a Sport tv e se fuma falando alto ou cantando o karaoke. O Mário grita ao velho e toda a gente o critica na terra. Mas o Mário não faz caso, e tudo se sana depois de ele oferecer pancada. Às vezes é o Mário que apanha no focinho.  Focinho que no seu caso era uma cara clara e inocente para uns olhos claros e inocentes. E o Mário, se tivesse noção da sua miséria, era capaz de apostar que mais de metade das pessoas da rua tinha a vida que ele tinha. São as pessoas que dominam o mundo com o seu olhar pardo de desafio e dor. E um sangue espesso e escuro.

PG-M 2012
sobre factos sem ficção, por uma vez

2012-08-07

O pequeno poema sobre o arrebatamento (não disponível para desencanto 2.0)



não sinto nada

diz a veia ao olhar
rubicundo
enquanto ferve

reformula:

não sinto nada porquanto
me sinto em tudo
portanto, se sinto tudo
(disforma)

não sinto nada
e fica tudo
por dizer
e a folha em branco
é o esplendor

do arrebatamento
(e então começo)

PG-M 2012
fonte da foto

2012-08-05

Voleibol e o elogio da imperfeição

É, hoje vou falar disto. Deixem este velho e pesado voleibolista falar (é verdade, o número oito aí do lado, nos idos de oitenta do século passado). Batam-me, mas eu acabava já com os serviços em suspensão. Obrigava até a que fosse obrigatório servir sempre com pelo menos um apoio. O voleibol é praticado na minha família há pelo menos três gerações, pouco importando qual a que fez mais campeões (tivemos a nossa - boa - dose e temos aí miúdos a despontar para os melhores). Eu sou da geração dos olímpicos Maia e Brenha, de quem fui aliás colega de equipa na Académica de Espinho, nos idos de oitenta do século passado. Quem hoje for ver um encontro de voleibol em Portugal não se sentirá defraudado. No meu tempo não era bem assim, porque a regra de só marcar ponto no próprio serviço tornava alguns jogos um absoluto tédio. A FIVB foi alterando as regras, e alterando e alterando. A dos pontos sucessivos e a passagem dos sets dos quinze para os vinte e cinco ponto foi fundamental para dar interesse a este - belíssimo, encantador, visceral (qual golfe, qual quê?) ,- desporto, este da bola que voa, e quanto mais voa mais espectacular o torna. Da bola e dos homens. Mas a FIVB também deu cabo do voleibol de praia, hoje bem mais desinteressante e feio do que quando, originalmente, se parecia mais com o de pavilhão. Aliás, para quem foi formado em pavilhão e não fez nem faz parte da geração dos praiistas modernos, o voleibol de praia é , e será sempre, uma coisa esquisita. Mas, ainda que um amor difícil, não deixa de ser um amor. Ora, o advento destes jogos olímpicos de Londres 2012 fez-me cair em mim. Assistindo aos jogos ao lado de alguns leigos e ouvindo os seus protestos, apercebo-me de que, realmente, o voleibol "perfeito", o jogado ao mais algo nível e com poucas falhas (por exemplo, por um Brasil em forma) perde beleza. O voleibol "perfeito" contraria parcialmente a génese do jogo: a bola no ar. Todos sabemos o êxtase a que pode levar um longo "rally" (quando a bola não cai e ambas as equipas a vão resgatando sucessivamente, em grande e épico esforço), e como é sempre espectacular - mesmo num jogo de infantis. Se duas equipas se vão sucedendo em "side outs" (marcar ponto no serviço do adversário para voltar a servir) limpos "empatam" literalmente, o jogo, que fica chato, pelo menos até aos vinte pontos. Além de demasiado rápido para ser desfrutado e até apreendido. Parece-me que a tentativa da FIVB de tornar o voleibol num desporto agressivo, de ataque, desfeou-o, tirou-lhe emoção, emoção que só volta se o nível descer ligeriramente. Realmente, só um inenarrável Nicolau, esse comentador dinossáurico da RTP, poderia repetir à exaustão que "o nível do voleibol" de um Alemanha - Sérvia estava "baixíssimo". Pois é mais baixo do que o de um Brasil - EUA, sem dúvida, mas é a medida certa. E talvez a ânsia de comentar tudo o que mexia (e não) o tenha impedido de ver um jogo espectacular. E nem sequer falo da inspiração que é para mim ver um Grozer (o craque alemão) com 104 quilos a voar e acertar pedradas em tudo o que mexe, porque o homem é inconstante, e portanto um jogador polémico e apaixonante. Nem da última final olímpica, a de Pequim 2008, em que tradicional falta de humildade e sobrancerias brasileiras trouxeram a imperfeição de volta e deram uma grande vitória aos EUA. O que eu falo é de travar o jogo para manter a bola a voar. Sejam corajosos, então. Proibam lá o serviço em suspensão. Tragam de volta a colocação, os efeitos, a flutuação. Até as  enroladas recepções em passe desde o chão. Mas travem isto e façam a bola voar. E, ainda que não, deixem este velho e pesado voleibolista falar.

PG-M 2012

2012-08-03

sempre os mesmos olhos verdes




Tinham de ser verdes
sempre os mesmos olhos verdes


mesmo quando eu acaso
escolhi
a mulher universal,
lá está,
dediquei-lhe uns
olhos verdes


talvez porque


mesmo nas árvores nuas
se fizesse primavera
talvez porque
mesmo nos campos ocres
a fome virasse
tempo
e era ao frio
ou no velho sol de
agosto
que o silêncio me trazia
sempre os mesmos olhos verdes


e eu soube


que ela tinha crescido
o sorriso, a boca, o queixo, o colo,
o corpo,
levara-os sempre ela
aos lados todos que quis
mas quando enfim me voltou
trouxe intactos os olhos
verdes


sempre os mesmos olhos verdes

que mesmo nas árvores nuas
compõem as primaveras
e mesmo nos campos ocres
tomam para si
o tempo

PG-M 2012
fotografia de Chris Kelm. Fonte.