2012-05-30

Como espanhol para português

Há um efeito fascinante de se ler um bom livro em espanhol (e eu já não lia livros em espanhol desde a medicina legal da faculdade): o português renasce, cada palavra é uma proposta nova, e então pergunta-se: a sério, acham mesmo que vou perder tempo a preocupar-me com um acordo ortográfico quando para mim são boas todas as propostas de todos os portugueses, todas as propostas de todas as línguas que bebem das mesmas origens?

PG-M 2012

2012-05-29

Saltem o ecrã e venham a mim os meus heróis (a 10 de Junho, ao ar livre, Porto)

Este blogue tem um audiência média caseirinha, que anda entre as cem e as duzentas visitas por dia, às vezes pouco menos, às vezes pouco mais. Dos "seguidores" inscritos, desconheço 90%, mesmo virtualmente, e, se é verdade que gosto pouco da ideia de sair da "toca", mais verdade é que não gosto de sair sem razão. Tendo já tido um convite da Feira do Livro de Mirandela, que muito me honrou (é a primeira vez que me vão pagar alguma coisa por actuar como escritor - e, mesmo que seja a estadia, é uma excelente prática) para o dia 9 de Junho de 2012 (Sábado - os transmontanos e quem estiver de férias nessa zona, que apareçam), a minha editora convidou-me para estar presente no dia 10 de Junho de 2012 (Domingo, 16h-18h) ao lado do João Ricardo Pedro e da Maria do Rosário Pedreira no espaço Leya da Feira do livro do Porto. Sou repetente, pois, no dia de Portugal (o ano passado já lá estive neste dia). Este ano não vou aborrecer quem lá foi no ano passado, mas é uma oportunidade para virem a mim os que tanto me dão, ou seja, os leitores - não só do livro, mas especificamente deste blogue - a quem ainda não me apresentei. Quando eu digo que é para mim uma verdadeira honra não estou a fazer conversa. Acreditem ou não, olho os leitores de baixo para cima. Almejo a tal humildade, a tal entrega ao outro e ao que ele cria. É por isso que os meus leitores são literalmente os meus heróis, e não há experiência mais grata na visibilidade acrescida que o livro publicado na Dom Quixote me deu. Assim, gostava que planeassem  a vossa vida para me virem dar um abraço nesse Domingo, dia 10 de Junho, no Porto. Ficar-vos-ia muito grato e não precisam de comprar nada:). Mas também podem. Mas não precisam. Mas podem. Mas não precisam. Mas:))).

PS: ah, e para lá do Marão, mandam-me a Mirandela dia 9:). Quem andar por lá, apareça na Feira do Livro, junto ao rio.


Pedro Guilherme-Moreira 2012
Foto da feira do livro do Porto do ano passado

2012-05-28

Virgíneo, edulcorado, cálido, loquaz


Que me encanta. Comove.
Já to disse tantas vezes: Aramburu, que é um nome que eu ouço agudo mas os espanhóis dizem grave, reconcilia-me com a vida.
A - ram - bú - ru. Dizem eles.
Na livraria de Vigo perguntei pelo último dele na Tusquets, "Años Lentos", mas sabia o que verdadeiramente lá ia buscar. Aliás, era uma manhã para celebrar Aramburu, porque desde que o conhecera ainda não tinha ido a Espanha com esse propósito: estar na livraria em busca de Aramburu.
Sabes como é. Vamos devagar pelas prateleiras. Não adianta ser sôfrego. Pode não haver. Há que contornar os outros clientes, esperar pacientemente pelo senhor que tapa a letra "A", descobrir outras coisas. A estante dedicada ao galego. A estante dedicada aos livros de bolso, que os espanhóis dizem bolsillo mas os galegos dizem peto. Livros de peito, tão bonito. Lobo Antunes, como serão as apneias antunianas em castelhano? E Mia, quantas palavras dará Mia ao Espanhol, quantos lamentos e exaltações aos seus tradutores? As dedicatórias de Saramago em espanhol. Que já são quase todas a Pilar. E então vem àquele espaço entre os pensamentos e os livros, o primeiro metro entre nós e as estantes das livrarias, aquele odor que nos amolece o  peito que é o calor que nos enfraquece as pernas. Faz olhos brilhantes e gargantas secas.
Comove.
Finalmente vou ter só para mim "Los peces de amargura", o primeiro que devolveu ao Aramburu a ameaça da sua genialidade e o encheu de prémios. Mas vou dar um "vistaço" a todos. É assim que se diz "vista de olhos" em Vigo. "Vistazo". Eu tentei explicar à menina que me acompanhou na recolha de todos os Aramburus da livraria o que era "vistaço" entre os lusos, como eles gostam de dizer nos resumos dos futebóis. Contei-lhe o crime de não traduzirem Aramburu em Portugal, mas depois disse-lhe, falível e incoerente como é próprio dos pequenos, que ainda bem, porque eu queria lê-lo numa das suas línguas, melhor espanhol, que basco não entendo.
Fiquei ali a lê-lo muito tempo. Estremeci com uma dedicatória em particular.
Paguei o "Peces de amargura" e saí para a Calle del Principe e não estava ninguém.
No meu livro Aramburu escreve uma coisa que ainda me faz sentir mais pequeno, a pensar se algum dia lá chego: "Dedico este libro a la impureza".
Mas a dedicatória que me emocionou está agora a desfazer-se.
Sei o seu sentido perfeito, mas já não as palavras exactas.
Não faz mal, porque a disse, tal qual, à minha mulher quando ela chegou. Pus o livro no peito Nunca me ocorrera declarar o amor assim. Sorri. Estava orgulhoso, a ler o meu livro na baixa de Vigo. Começou a chover. Convoquei as palavras, antes que partissem de vez, e a vez era a próxima visita  a uma livraria espanhola. Ela chegou, a mulher minha e eu, com o livro no peito,

"À minha mulher, que me enche de felicidade cada vez que encolhe os ombros."

Ou assim.
Não sei se algum dia cresço para abraçar o Fernando.
Pode ser que ele me diga

"Y es que no conozco a un solo hombre a quien pueda calificar de extranjero"

E eu o tente abraçar.
Fernando,
Ainda ando a deitar Sassetti.
Ainda ando a deitar Sassetti para refrear o arrebatamento.

Pedro Guilherme-Moreira 2012


2012-05-17

Vou buscar pão


Eu limpava o pó a uma certeza com um trapo
excisado de glorioso pano
da louça
e veio à estrema
o álbum da prateleira
do meio
que eu abri para aliviar
o mesmo dia de maio
e então vi-o, ao filho que  não via
há precisamente quatro
horas
de beijo a fugir e olhar dentro
do celular
está maior do que a mãe
o corpo aos primeiros meses
a adentrar, primordial,
e tive a saudade que fez do peito
ónus
e enquanto sacudia na ombreira
o pano vi no relógio
ele a voltar
quando voltou
abracei um proto-adolescente com os braços inertes e a mochila nas costas
olá filho, obrigado
pelos dias desiguais
pelo amor sem condição
e a cara dele torcida,
a libertar-se dos beijos,
por me pores no lugar certo
da nossa casa pequena,
que nojo pai,
larga-me,
vi há pouco aquela foto em que a mãe está a ler uma revista no carro
e tu ao vidro com essa cara de malandro
depois vi mais dez, vinte, e sempre tu
como metrónomo
como piano
como sal
e tentando libertar-se o filho perguntou,
percebendo as lágrimas mas velando as emoções,
o que tens tu, pai?
o existencialismo
te pegou?
eu respondi não, rapaz,
foi a celeste do facebook
vou buscar pão
e à noite os Creedence nos bares
da Cândido
dos Reis.


PG-M 2012

2012-05-15

Sassetti e Marsé

Porque esta semana ouvi em Sassetti e li em Marsé novas propostas para o lugar da humildade na arte, e andava quase convencido de que era impossível servir-me da humildade antes que algo de redutor se sirva dela como uma peça relevante no nosso edifício.
Fui ouvir o que o Sassetti dizia, porque, erradamente, nunca me tinha passado pela cabeça que merecesse a pena ouvir o que pensava. Mais uma lição aprendida. Não que eu não tome atenção aos outros, mesmo de lugares e áreas diferentes daquelas a que me dedico. Tomo. Ouço estranhos, ouço desconhecidos. Procuro-os. Procuro os que erigem o conhecimento sem escola. Pois ouvi e vi, na entrevista que o Sassetti dera ao Goucha em Dezembro de 2010, uma sabedoria rara, que me fez correr atrás de uma outra, que ele dera ao Carlos Vaz Marques em 2008, e que eu dispensara. Lá estava o que eu procurava. O facto de o Bernardo Sassetti ter entrado muito novo no meio artístico, virtuoso como era, e de o terem "consagrado" demasiado cedo. Dizia ele que não percebia essa fúria de dar como consagrados os artistas. Dizia também que, quando começou a ser alvo de atenção, experimentou uma mudança de certos olhares (os olhares "tem a mania", as opiniões cínicas que tentam ferir a pureza de intenções do artista) que, não só não lhe agradaram, como fizeram com que se afastasse. Experimentou a competição desenfreada de Nova Iorque e também soube, imediatamente, que ele não era aquilo. Em Londres encontrou o estar cultural e o respeito artístico sem umbigo. Andou onze anos em tourné por todo o mundo, voltou cansado e sem vontade de se submeter a novas "consagrações". Estava lentamente a voltar ao centro. O seu movimento ia levá-lo a ser cineasta, tinha pelo menos quarenta anos pela frente para nos deixar o absoluto empenhamento na excelência, por um lado, e a vontade de ser um tipo normal, pelo outro. Essa vontade era activa, ele cultivava-a tão intensamente como punha na ordem presunçosos que lhe pediam músicas com deadlines de duas semanas. Fiquei cheio de vontade de ouvir tudo o que ele foi dizendo. Era visível a pureza, a transparência, de cada palavra. Sei que agora é fácil dizê-lo, mas tê-lo-ia dito se me tivesse apercebido de que aquele homem vinha dizendo o que eu queria que fosse dito, faria dele um porta-voz de luxo. Afinal, as gargalhadas que eu ouvi ali ao lado do espaço Leya no fim do dia 10 de Junho de 2011, um dos mais importantes da minha vida, onde cumpri o sonho de me sentar numa feira do livro a assinar livros meus a pessoas a quem deverei sempre mais do que elas a mim, afinal as gargalhadas do Bernardo Sassetti nesse fim de tarde quente e grato, eram a paixão do génio. Reconheço que há génios nas artes cujos sinais de expressão são geométricos ou confinados, como as artes visuais ou musicais. Sassetti era-o, antes de mais, por ter aprendido a ser um rapaz simples quando tudo o empurrava para o contrário. É inspirador. Ele perturbou-me com a sua genialidade nas frases da "Canção de Alterne", a melhor canção do Rui Veloso, mas tocou-me ao explicar que a estranheza na mudança de certos olhares e as certezas dos que tudo sabem  podem realmente empurrar os que "têm a mania" para a sombra, podem fazê-los querer legitimamente desaparecer, como disse o Vila-Matas ao mesmo Vaz Marques. E, como explicou melhor ainda Juan Marsé, que já li recusando a banalização da literatura, e é homem que não tem cursos superiores, porque teve de ir trabalhar (como o nosso Saramago) - não teve a escola toda, mas tem a escola toda - não importa a língua, mas a linguagem. Podemos deixar entrar o sotaque brasileiro, ibérico, britânico, a música, com e sem silêncio, a pintura, não importa, a arte é linguagem. A arte é linguagem e a linguagem manifesta-se de todas as formas. E eu tenho pena de não o poder dizer ao Bernardo Sassetti. Mas também sempre tive pena de não o dizer ao Cervantes. Que continuarei a partir com rocim e escudeiro por essas colinas acima, que continuarei a decepar as pás aos moinhos que me façam frente, e nem sequer me digam que o elmo de mambrino é uma bacia de barbeiro.

PG-M 2012

2012-05-08

in(FIM)

(in)FIM. Queria dizer alguma coisa, mas já tudo me parece a mais. Há uma solidão inevitável que está dentro da função. Há cigarros em alpendres poeirentos. Bons tintos. Há um sorriso, um olhar em volta, uma noite de sono pela frente. Amanhã volta tudo mais ou menos ao zero. Uma vida de trabalho arrumada a um lado, as ideias por desenvolver ao outro. Há revisões a fazer quando a cabeça estiver limpa das palavras que a atravessaram, das frases que, parecendo epifanias, a repletaram e assombraram até ao vómito. E agora o prazer máximo do vazio, da planura.

PG-M 2012
fonte da foto

2012-05-07

As vísceras simbólicas

Mando. Venham falar-me de crise, de futebol, de economia, de medição de audiências, de política, de escola, depois de vermos este filme ou ouvirmos o Fernando Lopes. Mando-vos decididamente à merda. Depois de uma das mais poderosas cenas iniciais de qualquer filme, a incubadora de pequenos soldadinhos ao som do "You and Whose Army", dos Radiohead (cena de abertura aqui ou no fim do post), e o miúdo que nos peseguirá todo o filme a olhar para nós com um misto ódio e de apelo que dilaceram, caímos de joelhos. Tinha uma dívida para com ele, o filme, mas não a podia pagar enquanto a voz que emudece não resolvesse falar. O que me faz render um tributo tão intenso e emocionado ao filme do canadiano Denis Villeneuve, "Incendies" (A mulher que canta), é o facto de ter reconhecido o processo e o resultado que eu próprio experimentei com o meu "A manhã do mundo". Qualquer pessoa que abrande para pensar, viver, estes momentos, a morte de três mil pessoas em duas torres que colapsam, o ataque de um autocarro em que cristãos fundamentalistas fazem mira a crianças, e, se de mira falamos, a forma como os snipers de qualquer fé abatem qualquer pessoa que lhes passe no centro do alvo, e de repente um nazi a executar uma mãe judaica ou um pai judeu a executar um alemão, um árabe a degolar um israelita ou um israelita a seviciar uma árabe até à morte, soldados americanos a urinar sobre soldados iraquianos mortos em combate, ou todos a gozar com todos, a humilhação dos livres. Está aqui o mundo. Em 2008 e 2009 recuperei o material cuja investigação me tinha deixado obcecado em 2001 e várias opções livres tinham feito desaparecer temporariamente do acesso ao grande público, para não lhe chamar censura. Não por causa de qualquer dor ou dificuldade literária, mas por ser muito difícil deixar entrar sem filtro centenas de histórias de perda nas torres, quase todas com aquele elemento  perturbante do acaso: ele era para não ter ido, ela foi mas nunca ia, eles atrasaram-se e salvaram-se. E eram tantas, tantas histórias para contar que a única opção foi contar todas, e ao contar todas temos o problema do simbolismo. Como é possível alcançar as vísceras simbólicas? Como é que com personagens planos, sem muita carne, sem muita idiossincrasia, se consegue tocar a carne? A solidão desta aventura acabou, no meu caso, duplamente em 2010: por causa do contacto com os familiares das vítimas, que acolheram e sintetizaram para mim esses sentimentos e imagens e empatias em roda livre, os tais que ficaram para cá do filtro que eu quis ser, e por causa de Incendies, que veio ao mundo no final de 2010 e "explodiu" justamente por todo o lado durante todo o ano de 2011. Até o sofrimento da protagonista é deixado por Denis em aparelho, ora omitindo o que podia ser mais gráfico e dando-nos a entender o que ela sofre sem o mostrar. O final do filme, a mensagem expressa, quase despudorada e sem vergonha, é a mais bela e necessária possível: o simbolismo visceral, afinal, é possível e aqui está. E agora Fernando Lopes, aqui e agora, no mesmo lugar que chamei de "As vísceras simbólicas". Porque sempre a paixão lhe subiu na voz e no sentido de cada fotograma. Depois de à morte terem falado os amigos, falam agora os que se sentem roubados pela sua ausência. Aconteceu-me com o Fernando Lopes, algumas (não poucas) vezes, a vontade de o ouvir o dobro do que o deixaram falar, de o ter a voar em torno da consciência cultural portuguesa muito mais tempo, de ver quem podia dar-lhe muito, mas muito mais, tempo de antena. Eu pensava, com o meu fosso geracional por tapar, que ele não era verdadeiramente apreciado e acarinhado. Era essa a ideia que dava. Não ouvi muitas vezes, ainda em vida, subirem-no ao pedestal, como ouvi na morte. Ora, no caso do Fernando Lopes, deviam ter exaurido o tempo, não houve utilidade nenhuma em deixá-lo relativamente discreto no limbo mediático. Ele merecia ter sido o símbolo do que era e perguntado todas as vezes que o cinema soltava um gás, como fazem com tantos medíocres que passam a vida a dizer as mesmas mediocridades só porque aparecem bem e fixam audiências ou pulam nos seus biquinhos de pé curto. Ora, o Fernando Lopes era genial (oh, e como eu recuso o abuso a que a palavra "genial" está sujeita) e é nosso obrigação, como país, deixar de correr atrás dos pacóvios encartados e dar palco aos sábios. Pelas vísceras simbólicas. Caiamos de joelhos.


PG-M 2012
foto é captura e ecrã do cena do video supra, mencionada no texto

2012-05-05

Fiel ou infiel, eis a questão

Gosto pouco de zonas cinzentas ou discursos marialvas, a fidelidade é um valor anti-natural que se cultiva por decência. Se aconteceu ter olhado nos olhos de alguém e prometer-lhe isso, cumpra-se. E daí para baixo desfia-se um rol infinito de hipocrisias para as quais falta paciência. Há quem discuta as fronteiras até ao cérebro de cada um de nós, mas isso para mim nunca foi questão, eu fantasio e masturbo-me com o que me der na real  gana e ninguém tem nada a ver com isso. Aliás, já simplifiquei a questão em forma de poema, o tecido social é hoje, com maior ou menor virtualidade, um masturbatório encantado, e o proveito que cada um tira disso é com cada um e ninguém tem nada a ver com isso. Só é bom que não traga fealdade para onde pode haver beleza, porque os homens e as mulheres nunca se relacionam nem relacionarão em exclusivo e, tal como no sexo há muitas matizes para lá do coito, também nas relações entre homens e mulheres há um universo antes - e apesar ou sem a obrigação - da traição. Quanto ao cinema: o conjunto bem estruturado de curtas-metragens que "Les Infdèles" constitui é, mais do que uma excelente obra colectiva de bons realizadores e muito bons actores - um superlativo: venha lá quem vier, Jean Dujardin confirma aqui, e transcende, o merecido óscar que ganhou este ano -, uma excelente oportunidade de reflexão. Principalmente para quem está cheio de certezas, também para quem tem legítimas dúvidas. Da piada desbragada à que leva classe, da tensão digna de thriller à melancolia, da beleza de um casal de infiéis ao drama de um pacóvio bem parecido, "Les Infidèles" são duas horas de grande cinema e, acima de tudo, de boa lição. Como se nós precisássemos, dizem os infiéis. Pois vão e digam-me qualquer coisa. O que, parecendo uma questão lateral, tem de ser destacado como imperdoável neste filme é o, imagine-se, "trailer", mal montado e direccionado a um público pouco exigente. Esses também se divertem, mas cedo começam a cacarejar baixo. O filme perde clientes por causa desse trailer obtuso e isso não é nada normal: é que o "trailer" é quase sempre melhor do que o filme, não pior.

PG-M 2012

2012-05-02

Em Maio (reeditado)

Em Maio, amo-te nua
sem memória do inverno,
amo-te o corpo na rua
amo-te o rasgo de inferno
e nem sol te contém,
passas da sombra, da luz,
do tempero e do desdém,
da vénia que te depus,

e vens-te.
Em Maio,

amo-te no vestíbulo
de todos os lugares do mundo,
assim, rotundo,
imundo,
nos pórticos de palácios
nas antecâmaras do mar
nas dunas
no quarto
no tecto
nos espasmos do capim
no não no sim
nas montanhas e planaltos
nos saltos altos
nas desculpas nos pretextos
entradas de dicionário
não somos corpos
bissextos
amantes de breviário
vais fazer-me no ginásio
vou comer-te no granito
do tampo que te tiver
em refeições imprecadas na incoerência da nossa
cozinha.
Venha quem vier

Em Maio és minha

PG-M 2011

fonte da foto

2012-05-01

cortamos os dois, meu amor

subitamente a urgência de um poema liminar ao centro da dolência
subitamente a urgência de um poema laminar ao centro da decência
subir-te à mente a agência dos dilemas capilares ao centro da demência
no teu quarto a gilette de escrever e a máquina laminar
com cuchilas nas vogais e tesouras consoantes
e o povo sem saber se do hospital declaras
o louco que ao espelho veio a ser calvo escritor
ou o escritor
que louco emergiu de uma cabeça a  espelhar
a súbita urgência de um poema liminar


não há no mundo redondilha que nos salve em mal menor
cortamos os dois, meu amor

PG-M 2012
fonte da foto: making of do filme "Camino": na imagem o realizador Javier Fessr e a actriz principal Nerea Camacho