2012-04-28

Eu subi ao monte Tabu e sobrevivi

É muito engraçado, quase divertido, compulsar as críticas cinematográficas e os comentários de espectadores com que decidimos ir ou não ir ver um filme. Por aqui, tendencialmente, vai-se a todas ou quase todas, porque o vício - negríssimo, intensíssimo - comanda. Eles, os críticos profissionais e os comentadores de pacotilha, validam a decisão de, neste blogue, se escrever mais sobre cinema do que sobre outra coisa qualquer.
Porque alguém tem de dizer às pessoas, em primeira mão, se o excelente filme que Tabu é se aguenta bem ou se é só mais um exercício académico. A resposta é que, mais do que se aguentar bem, escorre-nos pelo corpo na primeira parte e suspende-nos a atenção na segunda, que se torna mais exigente, mas nunca difícil. De facto, Tabú são dois. Não, não é só mais um exercício académico. É um verdadeiro filme onde é contada uma história belíssima superiormente escrita a meias pelo próprio realizador, Miguel Gomes, e Mariana Ricardo. De facto, Tabu é, na primeira parte, um delicioso pastiche de um Portugal de final de 2010 que parece de 1970. Isso é  conseguido pelo preto e branco doce, aveludado, de alto contraste, dessa primeira parte. A chuva é deliciosa. Flui maravilhosamente e dá um grande prazer. A beleza, nessa altura, torna-se inexorável porque, na analepse que constitui a segunda parte do filme, queremos saber o que aconteceu. Na primeira parte apaixonamo-nos pela Teresa Madruga e veneramos a Laura Soveral. Que maravilha. Teresa Madruga, a bater nos sessenta anos, é uma actriz quase sensual a fazer a contida e algo amargurada Pilar. Laura Soveral, a bater nos oitenta, é suprema no desespero da velha Aurora. 
A segunda parte é feita em preto e branco com grão, é semi-muda e literária. Uma espécie de leitura de livro colorida com grandes imagens. É mais exigente para o espectador, mas não deixa de ser deliciosa e não é difícil de ver,. Pessoalmente, acho a Ana Moreira magistral. Todos roçam, aliás, o nível quase perfeito de histrionismo e expressividade. A história é narrada com uma precisão e uma eficácia nada normais no cinema português. E marca, e vem-nos pele, e apetece voltar àquelas imagens, ter o filme em casa para o ver aos bocadinhos. E levar a Ana Moreira ao colo, um dia destes, a um óscar, que tal? E termino com a palavra que me remata estas crónicas cinematrogáficas: imperdível. Ou não escreveria sobre ele. Não por ser português ou académico, mas mesmo por ser excelente. O Miguel Gomes, ainda que pareça que nos despreza a todos com aquela cara de furão, trouxe-nos cinema (e literatura).

PG-M 2012

2012-04-25

Entrevista PG-M Booktailors no Blogtailors


Só um nortenho como o Tito poderia vir ao encontro do lado sem polimento, e portanto mais verdadeiro, deste vosso amigo. Excelentes perguntas, claramente as mais espirituosas a que respondi até hoje e que fizeram desta entrevista aos Booktailors um verdadeiro (tão pândego quanto sério) divertimento. Obrigado, rapaz. Publica-se tal qual o aspecto visutal que tem no original, de que se aconselha a consulta directa no link abaixo.

Garante que as miúdas se tornam mais giras quando gostam de escritores e que o próximo cataclismo que romanceará tem lugar na nossa rua. A coisa que mais o irrita é uma certa forma violenta de ser portista, virtude de que padece. Deseja que os editores levem os autores mais vezes ao colo. Foi uma das muitas ideias que conseguiu produzir, enquanto não se distraiu com a miúda gira que acabou de sentar atrás dele, na esplanada.

Qual é o próximo cataclismo que vai marcar a sua escrita: o Katrina, Fukushima ou o massacre de Utoya?
[sorriso matreiro tão aberto que deixa escapar as típicas quatro gargalhadas sonoras do tripeiro e que demonstram a gratidão pelo estilo desempoeirado, e aliás antecedem todas as respostas subsequentes] Qual era a pergunta? Aaah. Bom, e aviso já que as respostas são verdadeiras e não pretendem a piadinha devolutiva estilo Madonna: vão ser dois cataclismos, dois livros, um na vossa rua (juro) e outro na literatura de todo o mundo entre o século XVII e hoje. O Katrina é demasiado americano (até para mim, subculto americano), Fukushima já foi a poema — busca! (na Net: «Hoje é um dia feliz», com o Sayuri) —, e Utoya foi à pressa para o cinema. Nã.

Qual o seu foco principal quando está a escrever um livro?
Todos menos eu, tudo menos o meu; numa palavra: o resto. E, confesso, aborrecer os génios. Ou seja: todos menos eu.

A sua oficina de escrita obedece a que princípios?
Aos princípios da física, por um lado, e aos da paciência, por outro. Se lá me aparece um conhecido duas vezes, mudo. Por isso, vejam se não repetem, até porque o pessoal já me conhece, e aquele vosso número da gabardine é literalmente «chato». Mais: raparigas giras é má ideia, porque começo a mexer-me na cadeira. Ainda agora se sentou uma atrás de mim, e eu já sei que não vou escrever mais nada.

A Manhã do Mundo não chegou a ser editado nos EUA. Eles ainda lidam mal com a literatura sobre o 11 de Setembro?
Esta vou responder a sério: não há literatura que entre nas Torres. Se virem, avisem, para formarmos a ALT. Essa literatura, só daqui a dez anos, disse-me uma luso-americana que também ficou surpreendida por só haver literatura de contexto ou cenário, com uma ou outra exceção que confirma a regra (o Lello e o Lillo não confirmam). Quanto a não ter chegado a ser editado nos EUA, vou parafrasear uma putativa leitora minha: «Estou ansiosa por ler o livro e vou fazer tudo para o apanhar na net em PDF.». Portanto, a arte é como deus, está ilegalmente — deus também não está legalizado — em todo o lado, queiramos ou não.

O que preferia: uma referência no Dica da Semana ou uma boa crítica no jornal Expresso?
Eu tive uma crítica jeitosinha no jornal Expresso, mas acho que o Zé Mário Silva está completamente subaproveitado no dito, e, sinceramente, deveria diversificar e daria muito mais no Dica, onde nem no setor dos congelados apareci. E poucos tiveram esse privilégio.

Miguel Real fala de uma geração de ouro na atual literatura portuguesa. Concorda? Sente-se parte dela?
Para já, quem é de ouro é o Miguel Real, e eu não sou de elogio fácil. Estamos muito bem servidos de escritores, sim senhor. Mas reparem que a qualidade do metal de uma geração não depende nem da idade nem das vendas. Os casos sérios de hoje têm cem ou mais anos e não venderam bem. Convém termos essa humildade e não andarmos sempre a encher a boca com sentenças definitivas, que só demonstram vistas curtas. Não podemos avaliar o que vai ser. Sabiam que na correspondência entre Rodrigues Miguéis — que vendeu muito bem, é muito bom e ainda não teve a sua hora — e Saramago, de 1957 a 1971, Fernando Pessoa não é referido uma única vez (pelo menos na publicada)? Não tenho uma visão geracional, não vejo vantagem nenhuma em estimular a escrita jovem (a leitura sim, falta muita leitura), porque sou dos que acredita no mérito da espera e na maturidade, apesar de Rimbaud, e apesar do que custa vencer os anticorpos de qualquer meio literário (única vantagem da precocidade, ir batendo com a cabeça). No fundo, há muito tempo, porque o verdadeiro espaço literário de um escritor vem depois de ele ir falecer. Noto que o conceito de «ir falecer» é hoje a principal arma do mais bem pago cómico português, o que tem nome de hip-hop. Vou ali falecer. Uma mixórdia (de tomate e queijo).

Escreveu um romance passado em Nova Iorque. Portugal não é literariamente interessante?
É-me um bocado indiferente, porque Portugal já está muitíssimo bem tratado. Mas já escrevi muitas páginas situadas em Portugal. Que um dia verão a luz. Penso que ainda neste século. N’A Manhã do Mundo não me interessou a inovação do estilo, mas do olhar e da estrutura. Quis um romance em aparelho, quis acompanhar os saltadores sem terror e com mundividência. Só saberei se o consegui quando alguém do século XXII desenterrar o livro. Não há condições para o saber nos próximos 50 anos.

Quais as maiores dificuldades que um autor sente para publicar um primeiro livro?
Essencialmente é ter deixado de ser importante na cadeia alimentar. O autor, que antes estava no topo da pirâmide, aparece agora a meio. É o chatinho. O que não é admissível, seja de que literatura falarmos. Mesmo que a alguns até lhes faça bem humildarem-se. Lá ter de trabalhar pelo próprio livro não é mau. Lá não ganhar, em regra, nada que se veja, não é novidade, e é assim há séculos. Pagar as despesas todas é aborrecido, não ganhar um tostão nas apresentações idem, e essa mentalidade tem de mudar. Mas sem o autor não havia livro, enquanto que sem todos os outros elementos só não devia, mas podia. É fundamental que quem escreve se convença de que um editor é fundamental: pode ser pessoal, se não for possível um profissional, mas é fundamental que seja bom leitor e tenha sentido crítico. Mesmo um escritor consagrado não deve dispensar um editor. É mau sinal quando o faz. O meu encontro com a Rosário foi feliz, até porque começámos com os pés, a discordar um do outro, e não houve graxa rigorosamente nenhuma, não está nem no feitio dela nem no meu. Ela até me chamou «Coca-Cola humana». E sou, é verdade.

O que tem de especial ser-se um menino da Rosário?
É muito divertido porque se levam caneladas que lhe são dirigidas e se pode servir como alvo das setinhas dos desabafos dos que acham injusto ela ser a marca que é.Ou seja, está-se mais tempo em jogo do que o normal, mesmo no breve tempo de um livro hoje. Além disso, permite conhecer as meninas da Rosário, como a Aida, a Filipa, a Sónia, etc. Ó-ó. Mais: a própria Rosário tem consciência do exagero das solicitações de que é alvo, mais por falta de imaginação do que por lhe dedicarem atenção e a respeitarem. Ela personifica um modelo de referência que é fruto do seu trabalho. Mas eu preferia que conhecessem as suas extraordinárias qualidades como leitora e poetisa.

Tem pena de não ter publicado mais cedo e com isso ganhar o prémio José Saramago?
Tenho. Dava um jeito do caraças. Mas não me importo de ganhar o prémio Rimbaud para maiores de 50, logo que lá chegue.

Qual o seu maior ódio de estimação?
Os tipos que destroem áreas de serviço em nome do nosso FCP, como se isso fosse amor, sem que o Pinto da Costa — ou pelo menos o Emplastro — os ponha em sentido. Como advogado, se tenho de defender um superqualquercoisa em tribunal, são garantidas duas horas de sermão em que eu lhe explico que eu, o meu pai e um irmão vestimos a camisola do FCP com honra e temos vergonha deles. Que amor não é ódio aos tipos que dão sentido às nossas vitórias. O Benfica — por quem sofro lá fora — tem direito a festejar títulos no Porto, como o Porto os festeja em Lisboa, cidade maravilhosa, mesmo às escuras. Qualquer animal racional tem amigos benfiquistas. A minha mulher é benfiquista e é uma grande mulher. Tenho saudades de quando havia futebol em Portugal e trissemanários desportivos. Penso mesmo que o principal problema da economia portuguesa são os diários desportivos. Por serem diários, não por serem desportivos. Ao menos que voltassem a publicar livros em fascículos — os diários desportivos — como os jornais de antanho. Eu podia desenvolver a ideia, mas agora não tenho tempo.

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?
O Francisco pode explicar ao Pedro que o primeiro sintoma de doença social é o ato de menorizar a criação? Não, Francisco, não estou a falar de famílias numerosas.

As miúdas giras gostam de escritores?
As miúdas tornam-se giras quando gostam de escritores.

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.
Tentem lá parar com esta lógica perversa da novidade e alargar a vida dos livros, publiquem menos, invistam em novas estéticas, sejam visionários, voltem a ter prazer em levar um escritor ao colo, promovam-no como marca (os melhores já fazem isto tudo, mas são poucos).

Que pergunta não fizemos e deveríamos ter feito?
Consegues dar resposta de uma só linha? E eu responderia que conseguir, conseguia, mas não era a mesma coisa.





Pedro Guilherme-Moreira escreve sem carta e é politicamente incorreto quando declara a plenos pulmões que o faz desde muito novo e que não, não foi nada acidental. Estava farto de ouvir a família dizer bem dos poemas e das fábulas parvinhas com que tentava impressionar os professores e, como qualquer escritor frustrado, começou a escrever poesia pondo nisso o maior drama possível. Experimentou a prosa lá pelos 20, mas comparava com coisas decentes e ficava envergonhado. Depois percebeu que tinha de se apressar se ainda quisesse colar na testa o autocolante de «jovem escritor». Foi assim que já tarde, aos 40, mais coisa menos coisa, a chamar a mulheres de 50 «raparigas da sua idade», publicou, com o alto patrocínio de Maria do Rosário Pedreira e das Publicações Dom Quixote, onde pululam dezenas de prémios nobéles, um livro sobre as vísceras do 11 de Setembro chamado A Manhã do Mundo. Teve um acolhimento muito razoável nos dois meses em que as livrarias deixam estar o livro quieto nas montras sem devolverem os que não se vendem, e ascendeu ao 6.º lugar no top Bulhosa. Os pontos altos da carreira do livro foram o professor Marcelo ter recomendado um único livro no dia 11 de Setembro, precisamente A Manhã do Mundo, e, ex aequo, a visita a uma escola de Novas Oportunidades em Azeitão, na qual pessoas sem a instrução completa o foram ouvir com o seu livro na mão porque sim. É advogado e pioneiro das novas tecnologias, mas acha que ainda é muito cedo para ter iPad e muito tarde para ter iPhone. Vive, escreve e corre junto à praia e é adorador e ex-atleta de voleibol.

2012-04-24

Meu amor, my valentine (literatura gestual)

Vai este texto sem data e a propósito dos muitos que se dedicam diariamente ao que escrevo e a todos os que o seguem, até porque não tem sido costume passar mais de uma semana sem lhes (vos) dar alguma coisa. Tenho de agradecer e pedir desculpa pelo tempo que passou sem notícias minhas. Encaro com espírito de missão a função, rima à parte. Desde a publicação de um livro meu por uma editora com o prestígio e a tradição de uma Dom Quixote, penso mesmo que é meu dever dar regularmente coisas novas aos leitores, porque isso tem a dupla função de me permitir aperfeiçoar certos registos e estimular a adesão ou dissensão. Tudo menos a passividade. E a vaidade. Não escrever nunca é motivado em preguiça ou falta de imaginação, porque eu não tenho a primeira e tenho excesso da segunda. Posso estar doente fisicamente ou ocupado profissionalmente. Nesta semana, foram ambas, e o profissionalmente alarga-se à escrita, porque em 2011 e 2012 meti-me num duplo projecto (um livro está pronto, o segundo vai ficar), e, se antes partilhava trechos em escrita, deixei praticamente de o fazer. É muito difícil, confesso, mas estar no mercado significa excesso de sombras. E eu estou muito bem com os bons que iluminam. Agradeço-lhes e deixo para reflexão o magnífico vídeo que Stella McCartney idealizou e produziu para o pai, e que tem uma espécie de poesia gestual daqueles a que chamo os dois cisnes negros: Natalie Portman e Johnny Depp. A canção é bonita, mas mais bonita se torna com esta visão de uma literatura de gestos. Se um surdo quiser ler um livro para uma plateia de surdos, faz assim. A letra é simples, mas comove especialmente gesticulada desta forma. Fez-me pensar no que seria um texto meu lido alto e acompahado por gestos. E como a literatura, que obviamente é já muito visual na intimidade de cada um, ganha uma visão colectiva. É diferente de lerem alto para nós os que ouvem. É uma representação, uma colecção de palavras visuais. Também para quem não ouve deve haver quem "fale" e "leia" melhor do que outros. Aqui o desempenho de Natalie é mais expedito do que o de Johnny. Nas televisões, o trabalho gestual é frenético. Mas como seria uma leitura vagarosa de um texto de que gostamos - um poema, o nosso poema favorito - acompanhado por gestos? Fico com vontade de fazer disso boa prática. Sempre me preocupei com quem tem mais dificuldades em aceder ao conhecimento. Até porque, normalmente, essas pessoas têm mais vontade do que quem não tem nenhuma limitação. Será o meu amor, my valentine. E para surdos podemos ler assim em qualquer parte do mundo, que não são precisos acordos ortográficos e o bom-senso gestual está sempre presente. Obrigado. Grato por estarem sempre aí. E agora comovam-se com os dois cisnes negros.


PG-M 2012

2012-04-17

Tetrapétalo

Estou inserido num mecanismo que me faz pensar ciclicamente com o coração
É um sistema de inércia
como qualquer outro sistema de inércia em movimento de translação uniforme
relativamente a mim, a luz
é invariável e não depende da velocidade da fonte
a luz não depende
do observador que a mede
a existência de um céu é contraditória
com o conjunto de factos e com as leis da mecânica
bebo por uma palha
escrevo por uma palha
amo por uma palha
toda a carne está cravada no metal
e o que te comanda são duas bolas castanhas
raiadas de amêndoa
que não por serem olhos te sorriem
é o navio de espelhos do Cesariny
que não navega, cavalga
é o pão para a fome dos filhos do Pacheco
é a bicla do Herberto e o poeta a dar à pata
para um verão interior
estou inserido num mecanismo
que faz do terço de mim
tudo em ti


PG-M 2012
fonte da foto

Altroegoísmo


(...) que se saiba mais sobre a pele dos outros do que sobre a própria - não sei nada sobre a minha, não me vejo há semanas, a barba cresce e apara-se no pescoço, conheço esse espaço no pescoço, sim, mas o que diz sobre mim esse espaço no pescoço? e as ideias? a ideia solitária, única, cintila, mas mil vezes repetida perde a saúde, o mundo está nos olhos dos outros, a nossa parte de dentro está nos olhos dos outros e a parte de dentro deles devia estar nos nossos. (...)"

PG-M 2012

2012-04-16

Pletora (noite pátria)

Ó silêncio da manhã, névoa eterna, noite
pátria, este biombo que as lágrimas tomam
será o meu escudo e o medo a montada
das veredas ínvias aos campos abertos
onde juram sangue as almas penadas
vazias de força tapadas de fome
de si e de luz e de esperança e comidas
de tempo e da honra e da voz e de nós
como gente, o golpe é de braço em abraço
sem conta ou limite que não do amor,
Ó silêncio da manhã, névoa eterna, noite
pátria, mesmo que de um colo frágil parta
a branda luminância desta espada,
mesmo que da humanidade o torpor,
cindirei a fera em duas
uma parte de esquecer
outra parte de lembrar
e o sangue

o sangue
exangue

PG-M 2012

2012-04-11

O sentido do universo

Se por vezes os elevo no tempo
ou tomo nas mãos as roupas que
deixam
nos dias em que me atraso por casa
e o cheiro impresso nas fibras
me devolve o corpo todo
como a espessura das coisas que deles
em mim traçam o curso das estrelas
e definem
o sentido do universo


PG-M 2012

2012-04-10

Profilaxia da literatice


Sem qualquer ambição específica que não a de aprender e alimentar o vício dos livros, tenho "dialogado" transversalmente com escritores e escritoras desconhecidos ou esquecidos (alguns deles grandes sucessos ao tempo) de todas as épocas, e confirmo a minha suspeita: a qualidade não reside apenas nos nomes que resistiram ao tempo. A resistência ao tempo é um acaso, uma sorte ou um bom trabalho na recuperação de certos nomes. Dialogar com escritores desconhecidos é encontrar, entre eles, os conhecidos (e por isso não implica uns contra os outros, até porque a maioria convivia alegremente). Aliás, dou-vos um exemplo imediato: nunca gostei tanto de um russo como estou a gostar de Vassili Grossman, o que quer dizer que gosto mais dele do que de todos os outros russos consagrados de quem li muito mais coisas. E a quem ficaria a dever Rodrigues Miguéis, que vendeu centenas de milhares de livros em poucos anos? Deixou de servir? Aliás, não é questão de classificação ou escalão. Cada escritor de qualidade não tem comparação com outro escritor de qualidade. Se tem qualidade tem a sua voz e a sua estética. Pode repetir-se a si próprio, mas não decalca os outros. Até no tempo de Quixote. E no domínio da crítica literária, deus meu, se lerem a Maria Amália Vaz de Carvalho sabem que já ninguém faz crítica assim. E prossigo com uma certeza: falta tanta humildade, tanto trabalho, tanta leitura, tanto respeito, tanto silêncio a todos nós. Menos barulho, menos berros, menos vaidade, menos sentenças definitivas (hoje em dia há uma desespero em eleger os tipos definitivos neste ou naquele ramo), menos superlativos relativos de superioridade, mais absolutos sintéticos ou analíticos, menos comparativos, mais graus normais. E - apesar de reflexões recentes - mais carácter, mais bondade. E um exercício: tratar os de hoje como os tratam as boas livrarias: lado a lado com os clássicos - não acima nem abaixo, não numa dependência hierárquica. Também há muita gente a falar de livros que não leu e a citar escritores que não conhece. Falta sentido crítico perante o conhecimento que nos é disponibilizado. Muitos falam, poucos ouvem. Como diria Savater, hoje em dia lê-se um romance para se tirar o bacharelato, mas este escritor - e filósofo - prefere que o leiam já com o bacharelato tirado e vão procurar informação a outro lado. E se quiserem uma sentença ou um aforismo, tomem este: "Um bom escritor é o que escreve mal de vez em quando; um mau escritor é o que escreve bem de vez em quando". Deixem-se os génios - e o génio - em casa.

PG-M 2012

2012-04-06

Rita "Redboots" meets Tito "Redlight"

Uma análise frívola à sessão do "Conta-me histórias" da Rita Redshoes no Auditório Municipal de Gaia, com o Jorge Oliveira e o Tito Couto a assumirem o papel de entrevistadores, plasmaria em surdina que tinha sido uma brejeirice pegada. Depois, os diversos aportes culturais complementariam com adjectivos como "engraçada" ou predicativos do sujeito como "sem pés nem cabeça". No entanto, deste camarote, de onde se vêem mais séries e talkshows americanos do que telejornais portugueses (apesar do Jorge Oliveira), e onde se lêem mais livros do que jornais desportivos, o que se viu foi um momento de entretenimento raro. As unhas deste cronista de pé descalço - que não as costuma roer - são a prova de que, por menos de cinco euros, Rita, Jorge  e Tito trouxeram a Gaia hora e meia de sorrisos largos, riso sincero, desbragado, tensão, comunhão e êxtase. A nossa mentalidade pequenina levar-nos-ia, de um lado e de outro (porque de um verdadeiro combate se tratou), a simplificar os interlocutores em demasia. É comum vermo-nos nos outros sem qualquer esforço de objectividade, que é parecido com sensibilidade. Conhecendo a estrutura social do público do evento, não seria aconselhável uma conversa modorrenta e aborrecida sobre temas elevados que estariam ao alcance de qualquer dos intervenientes, mas não necessariamente da maioria daquele público que, ainda assim, acompanhou a comoção que se viveu - e viveu-se comoção até ser atingido o ponto de quebra, aquele que uma Madonna, por exemplo, atinge logo à primeira invectiva e um George Clooney nunca atinge. A Rita Redshoes esteve colada a ele quando proferiu o clássico "não sei porque é que me convidaste". Mas respondeu, "só", com uma das melhores interpretações que lhe ouvimos (e ouvimos muitas, apesar deste irritante plural majestático poder induzir em erro:) da música que seria o culminar do descambar: Bad Lila. Daí para a frente a Rita assumiu a personagem que Tito Couto tinha levado para ela, certamente com excesso de defesa, mas quem esteve lá e viu a "performance" do Tito não a poderia censurar. E esteve o Tito bem? Demasiado bem para a mediocridade reinante. São tantos os "entertainers" a tentar momentos memoráveis "à americana" sem nunca chegarem lá perto, que Tito, usando apenas a sua  verve nortenha, mostrando atenção aos detalhes e um razoável trabalho de casa, sem nunca se assumir como humorista mas contendo melhor e mais fino humor do que a maioria dos humoristas deste país, conseguiu, não levar Rita para onde queria, mas para onde não queria. E é esse momento, aquele em que se percebe claramente que o espectáculo seguiu o seu próprio rumo e descolou das previsões de quem o planeou que a tensão é criada na plateia. É o melhor momento. Mesmo Jorge Oliveira, cujo papel deveria e poderia ter sido o de contraponto às investidas de Tito, se deixou embalar pelo "tsunami" que ia engordando em torno da palavra "instrumento" - era o ponto do riso desbragado, irracional. Rita descalçou os "Redshoes" e calçou as "Redboots" e mostrou uma maturidade (e uma qualidade) superior aos seus trinta. É verdade que, naquela a que poderíamos chamar a "parte dois" deste "concerto", Tito poderia ter usado a sua vasta cultura livresca para tirar da sólida Rita momentos de antologia. Mas não o podemos censurar: Tito "Redlight" resolveu apostar tudo na comédia, no modelo de uma artista preguiçosa - todos sabem o quanto a Rita trabalhou esrtada fora para responder ao seu justo sucesso - mimada e mimalha, menina de seus pais e libidinosa. Esta última característica, sendo claramente o oposto da artista que esteve à nossa frente, classicamente contida e distante, embora próxima do seu público, mostra claramente o que os três conseguiram atingir no final: o cumprimento de um guião que, sendo induzido por Tito, foi cumprido brilhantemente por todos. Rita "Redboots" mostrou um estofo raro - não nos podemos esquecer de que, ainda que Portugal seja um país pequeno, nem sempre a cultura urbana do sul entende a absoluta ilusão do astismo nortenho, tantas vezes confundido com vulgaridade. Faltou apenas abordar a questão do domínio universal da cultura americana, que é "particular" em Rita, que a faz legitimamente sua sem qualquer vergonha. Mas Rita conseguiu dar uma resposta diferente de todas as que lhe ouvíramos até aqui à pergunta mais desesperante de todas: "Porquê Redshoes?"; consentiu com classe uma tangente à sua vida privada, interpretou brilhantemente o Bad Lila  como uma síntese de toda a primeira parte da conversa e concluiu com alma a sua música mais tocada de todas, "Choose Love". Levou dali o que lhe interessava, mais adeptos, e esse homem que foge a todas as convenções chatas e autistas do meio cultural português chamado Tito "redlight" Couto. Dois (três) corações grandes, verdadeiros artistas.

PG-M 2012
fonte da foto: facebook de "Conta-me histórias"

2012-04-02

O joelho


Comove-me o joelho dela quando às três da manhã nele pouso a mão e me lembro das covinhas que há quase trinta anos desejava tocar sem imaginar que eram mais do que comportas de prazer e que o amor era esta coisa fina, plana, infinitamente comprida, este joelho morno aninhado sob a minha mão é mais do que qualquer oração eloquente e deixa-me com aquela forma de choro que não se expressa em lágrimas - os olhos estão quase sempre fechados, ou abertos para o negrume do quarto - mas na anormal contracção do diafragma e dos músculos intercostais e num subtil vinco nos lábios que não chega a ser sorriso.

PG-M 2012

O cabrãozinho social (e os maridos das outras)


O excelente artigo "Amor, lujo e buona conciencia" (aqui) levou-me ao remate de várias reflexões que tenho feito sobre o tema da bondade e da decência - isto inclui uma recente troca correspondência com um amigo muito crítico da postura bondosa no mundo -, para chegar a uma conclusão curiosa: se procurarmos ser o melhores possíveis corremos o risco de passar a imagem de que somos esse modelo de virtudes de que fala o Javier. Ora, um modelo de virtudes só é socialmente suportável se, das duas uma: 1) se deixar calcar pelos outros, sem ressentimento, mágoa ou expectativa de reconhecimento OU 2) se fingir que é um cabrãozinho como os outros. Com efeito, são estes cabrõezinhos, os que andam pela vida com um aporte moral "mais ou menos" e só chegam "ligeiramente" atrasados a todos os lados e só apoiam os amigos "de vez em quando", e com os quais se pode contar só às terças, quintas e sábados, mas têm a porta e um sorriso sempre abertos, os verdadeiros sucessos sociais: nem têm má consciência nem deixam de ter. São "zen", não querem saber. Têm normalmente os melhores carros e as melhores casas e até as melhores mulheres (eu não sei se neste caso o grau comparativo de superioridade não deveria ser "mais boas") e as maiores dívidas e melhor vidas ("mais boas" outra vez?), e não poucas vezes são homenageados e premiados como os modelos de virtudes que nunca tentaram ser. O problema é que o verdadeiro modelo de virtudes chega ao fim da vida sem sequer saberem que ele é mais do que um banana metido nas suas coisas com a mania de ajudar os outros e muito bonzinho para família e amigos. Daí que o modelo de virtudes deva fingir ser um cabrãozinho social, tal como todos os outros, para que não constitua para eles uma ameaça e uma irritação permanente, porque "Os maridos das outras" (vídeo aqui) são sempre "o arquétipo da perfeição/ o pináculo da criação" (Miguel Araújo) e os maridos das nossas raramente suportam estar constantemente a ser comparados com essa gente exemplar. Já se só tivermos gente duvidosa à nossa volta, paz total.

PG-M 2012
fonte da foto

A condição da literatura


Já não há nada a fazer: Fernando Aramburu tem sobre mim o efeito da paz literária - é tão bom que me faz sentir completo e feliz, além de inútil. E que não haja dúvidas de que só perante esta completude da inutilidade e a certeza da desimportância se pode algum dia chegar a escrever uma página que faça o mesmo a outros.

E eu gostava de tentar explicar porque é que um Vassili Grossman me dá idênticas bênçãos, mas em termos de volumetria: à medida que se avança em "Vida e destino" alcança-se a certeza de, como escritor, nunca atingir nada de tão grande. Mas se a consciência da própria ignorância ou incapacidade é condição e chão de uma arte melhor ou a certeza de arte nenhuma, é por aí que todos deviam começar: ao espelho, constatando a sua própria pequenez e, então sim, começando do zero.

No entanto, a literatura sempre foi, em todos os séculos, um equilíbrio insano entre os que dela fazem o seu ofício ou nela obtêm o seu emprego, os artistas que lhes dão matéria-prima e os próprios artistas entre si. Não é condição de boas literaturas que os artistas se estimem entre si, mas é certamente condição que os empregados da literatura não tentem diminuir quem cria o que lhes dá emprego. Ora, é precisamente o que temos hoje um pouco por todo o mundo. Temos e teremos até que uma nova ordem permita que se perceba que os livros, podendo vender-se, não se devem vender sem escritores. E nem se diga que o facto de os editores e livreiros terem a cara e o corpo dos escritores para vender o livro como eles o querem vender é argumento para contrapor o que acima fica dito. Na verdade, muito antes disso, o livro deixou de ser de quem o escreveu, não no sentido benigno de que o livro é dos leitores, mas no sentido maligno de que o escritor, ao assinar o seu contrato num tempo em que a maioria entrega o livro ao editor praticamente sem custos ou compromisso deste, deixa de ter domínio do processo. O facto de alguns bons editores e livreiros tratarem os seus escritores como o que eles deviam ser sempre, o topo da "cadeia alimentar", não deixa de ser uma excepção à regra de que estão hoje efectivamente a meio dela e de que todos sabem com infinita sabedoria o que é bom para o seu livro menos ele.

É por isso que o Fernando Aramburu faz de mim um homem inútil e feliz. E a constatação de que, no passado, em tempos miseráveis (bem piores do que estes) se publicaram obras-primas, exponencia a minha inutilidade e a minha felicidade. Porque vai ser assim sempre, mesmo que seja cada vez mais difícil encontrá-los.

PG-M 2012
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