2012-03-31

A fome de vida


A única fraqueza do filme de Gary Ross, "The Hunger Games", é o contexto onde é vendido: um filme americano não pode demorar três horas, não este, que vai certamente devorar faixas etárias que uma obra monumentalmente longa não apanharia na rede. As duas horas e meia que, mesmo assim, tem, passam num ápice. Os primeiros dois terços do filme são cinema em grande forma - na forma como olho para esta arte, praticamente perfeitos. O último terço foi acelerado: mais meia-hora e era possível manter o nível estratosférico. Isso não faz dele um filme menor, só um filme a precisar de uma versão director's cut. Será sempre um dos melhor de 2012. Mas o efeito que em nós provocam aqueles primeiros dois terços é devastador: experimentem sair da sala de repente - vão notar como o vosso instinto de sobrevivência está ligado no máximo, como o vosso corpo está, por assim dizer, deformado pela forma como acabou de assistir da substituição da humanidade pelo entretenimento. Nada que não vivamos já hoje - diariamente -, mas ainda assim arrepiante da forma como o conta a autora: temperado por pormenores bem imaginados, como os canhões que anunciam cada morto no jogo. O livro de Suzanne Collins foi escrito numa perspectiva visionária do nosso tempo, o filme é ácido, cáustico, magistralmente fotografado e com uma enormíssima direcção artística. Jennifer Lawrence, Lenny kravitz e Wes Bentley são os rebuçados, Stanley Tucci e Elisabeth Banks os actores. A não perder.

PG-M 2012

2012-03-29

Adeus Idanha absoluta



Senhor Presidente da Câmara Municipal de todas as Idanhas,


"Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos louvores", Eça de Queirós, "Civilização"

Eu vi as cotovias sobrevoar o parque durante mais de vinte anos, mas só hoje tive esta profunda inveja de elas não dependerem dos homens para partir ou voltar.
E foi durante mais de vinte anos que eu escondi, sempre que pude, que desaparecia do mundo aqui, porque aqui é o lugar mais vezes perfeito de todos os lugares imperfeitos.
Foi só aqui, no parque, encostado às colinas onde tilintam bois e ovelhas de dia e peroram girinos e pais durante a noite que o universo se calou e eu ouvi o silêncio absoluto. Lembro-me bem. Estava no alpendre sem luar e ainda fumava e a brisa deixou de soprar e já não era hora dos sapos da piscina. Tudo se calou de momento – aconteceria uma vez mais num lugar remoto do alentejo com a planície como quintal e por aqui rasou a perfeição por mais quatro ou cinco vezes. Não que seja preciso. O silêncio normal está muito bem. Hoje, sentado nas escadas de madeira aprodrecida do bungalow mais alto do parque a fingir que leio “Vida e Destino”, vejo a cotovia rasar a copa das árvores e as colinas circundantes e entrar e sair livre do lugar onde os homens se decifram, esse valor perto da totalidade de cada um, a paz por dentro.
Há vinte anos, uma nota no rodapé de um guia falava da inauguração de um parque de campismo e juntava fotografia do que só podia ser mentira, estava a visão da ilha quando se chega, mas eu resolvi vir ver, voltar às idanhas da minha infância, sentir-me pequeno em Monsanto, levar cornadas de bodes em Penha Garcia, jogar futebol no campo de tiro, brincar no parque infantil de Monfortinho, atirar pedras ao Erges e entender que as cotovias nunca dependerão de Orbitures ou Câmaras Municipais para vingar. Para se vingar da contenção. Para impedir que as cinjam. Vim ver as abelhas fazer mel de rosmaninho. Descobrir que a estrada de cegonhas foi, finalmente, asfaltada. Testar a curva desconhecida do Tejo. O queijo de Malpica como em cem anos de solidão. O corvo Vicente que, como um cão, se deixou adoptar por Idanha, a velha, e armazenava a comida nas escadas do adro da igreja. A amoreira. A cerejeira. O olival. Os brasões de Medelim. Os bons dias da papelaria. A família do mercado. A excelência do Helana, a comida em casa do Moinho, onde o menino - que nos toca - canta em vez de falar. Esta que eu fiz cenário de um livro que ainda está escondido e estará. A albufeira para onde a trouxe com aquele barriga redonda de seis meses e onde jurámos que o traríamos depois de nascer enquanto ela bordava o nome numa babete e os dois com os pés na água a deixar descer mais um fim de tarde completo, redondo, laranja, a esbater na encosta. A avenida de faias a descer com a torre da estrela ao alto. A tutela das fragas de Monsanto. Deixem-me em paz. Espargos, criadilhas, trufas. Os anos noventa foram gloriosos: preços baixos e a certeza do paraíso encheram o parque. Os anos dois mil catastróficos. A Orbitur, cuidando do espaço com mais profissionalismo, trouxe a frieza, subiu os preços, rompeu fidelidades, fez circular os gerentes quando começavam a conhecer o objecto, esvaziou aquele que eu nunca tive pejo em chamar de mais belo recanto de Portugal continental. Deixou-nos sozinhos. E se eu disser que, mesmo assim, não foi há mais de três anos que descobri o verdadeiro jardim do Éden, que se acede pelo fundo da rua do Helana, e acende no carreiro que começa no portão da belga que dá ares de louca ou de lúcida e é dona daquilo tudo, uma visão esmagadora do topo de um planalto que parece um pequeno Massada a encher-nos o peito com a cova da beira bela como em mais lado nenhum, ainda que de todo o lado seja quase tão perfeita, aqui não é só a melhor entre os lugares imperfeitos: é mesmo o lugar perfeito.
O parque vai fechar daqui a dias. Nós estamos perdidos. Sabemos que há casas, turismo, estudantes, canoas, acampamentos de escuteiros, senhoras do Amortão, mas fechar este parque é deixar que o corpo do lago se curve pelo seu lado mais digno, é abrir o tampão e deixar que se esvaiam os sonhos todos.
No fim de tudo, senhor presidente, e como diz Vassili Grossman no “Vida e Destino”, a verdadeira conversa que poderia ter consigo não é esta. O que eu precisava de dizer não tem forma de ser dito. Deste chão jorra um energia poderosa que se mistura a meia altura na luz do dia e, à noite, no tecto dos céus estrelados. Não tem comparação com lugar algum do mundo por onde passei. Há coisas parecidas, nada é assim. Como um super-herói, aqui li, escrevi, sorri e ri como um doido, aqui me deixei serenar como um homem.

Seja, Senhor Presidente, esse homem, porque o melhor político não é bicho que chegue a tanto. Ou a tão pouco. Não explique nada. Limite-se, por favor, a contrariar o destino da dignidade de um povo. Dê-nos um lugar para morrer felizes. E um parque para viver.


Eça abriu. Eça fecha: "Eu e tu e aquele monte somos moléculas do mesmo todo".

Pedro Guilherme-Moreira, em carta aberta,
29 de Março de 2012

2012-03-21

Os vivos mortos (by The Walking Dead)

Não nos iludamos: é uma série americana. Uma série que eu excluí, à partida, daquelas a que dedicaria horas de vida. O meu preconceito contra filmes com zombies sempre se espraiou em pleno: nunca lhes achei piada nenhuma. Sempre gostei de tensão, de horror, mas, caramba, zombies não me apetecia. Acontece que a virtude dos zombies de "The Walking Dead" é muito menos o seu realismo e muito mais o seu conceito. E o que nos agarra às duas temporadas - terminou ontem a segunda na Fox - é a própria dualidade da condição humana. O enredo desenrola-se num fim de mundo próximo, um apocalipse, o que a torna minimal, ou seja, à medida do espectador que se habitua a um grupo restrito que consigo convive semanalmente (já agora, por menos impressionável que se seja, não aconselho a que se vejam mais de dois ou três episódios seguidos, para quem está a pensar pôr-se em dia: aquilo instala-se na cabecinha, quer queiramos, quer não).
À partida, pois, não havia paciência para aquela dinâmica do zombie que morde um tipo normal que entra em mutação e depois vai surpreender outro tipo normal, aterrando-o e, eventualmente, matando-o, fazendo-o mudar de equipa.
Não, aqui o conceito foi simplificado ao máximo, e é isso que torna a série apelativa: há um vírus e uma epidemia desse vírus que provoca a reanimação mecânica dos corpos dos mortos. Esses corpos não têm actividade cerebral, são lentos e desengonçados - embora possam correr - e só procuram seres vivos para devorar ou desmembrar. A única forma de os exterminar é destruindo-lhes o cérebro. Nada mais simples.
Podemos aditar a isto a contenção, que é sempre uma virtude na arte: não há, praticamente, ataques surpresa de zombies. Há essa inevitabilidade: como não se cansam nem param por nada até atingir o seu objectivo, se a sua presa se distrai, tropeça, corre para o lado errado, é apanhada e morre. Pior: se atacam em grupo, é quase impossível vencê-los - ou é um erro tentar - e o melhor é sempre fugir.
Ora, é bom que se diga que há episódios onde, praticamente, não aparecem zombies. Basta a sua possibilidade para criar uma tensão crescente. O melhor desta série é a forma como, numa situação limite, joga com as matizes de cada personalidade. Rapidamente aprendemos que um homem de família é muito mais perigoso do que um solitário, porque defende a sua prole a todo o custo, sendo capaz de matar o seu igual sem contemplações. Vemo-nos ao espelho. Observamos modelos de personalidades que pensamos conhecer. Colocamo-nos na pele deste grupo, pensamos o que faríamos nós. As decisões nunca são fáceis, e há cenas verdadeiramente terríveis - não pelo que se vê, mas pelo que significam. Confesso que a mais forte das duas temporadas foi, para mim, a que culminou no desfecho do caso de uma menina chamada Sofia. Não vou revelar em que sentido, claro.
O facto é que dei por mim, hoje mesmo, a discutir com outro aficionado o que faria para proteger um grupo assim. Falei no velho fosso inundado dos castelos, mas ele dizia que, eventualmente, uma multidão zombie, como a que saiu de Atlanta no final da segunda temporada, com um objectivo específico, podia ultrapassá-lo. Falou-se em cercas electrificadas. Em fortes. Isto só pode ser sinal de um excelente série, no meu entender a melhor desde "Lost", que, tendo as suas falhas aparentes em termos de argumento (principalmente na primeira temporada, em que deixou pontas incompreensivelmente soltas), pode colmatá-las nas temporadas seguintes ao recuperar as histórias que deixou por contar. Para já, e à vista do último episódio da segunda temporada, que deixou dois vectores interessantes que vamos querer seguir, a espera por Outubro de 2012 e pela terceira temporada será inquietante. Imperdível, claro.

PG-M 2012
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2012-03-20

Uma calamidade para o século vinte e um


‎"(...) Nesse mugido de mudos e nesses discursos de cegos, nessa espessa mistura de pessoas unidas pelo terror, pela esperança e pela desgraça, na falta de compreensão mútua entre as pessoas que falavam a mesma língua exprimia-se tragicamente uma das calamidades do século vinte.(...)" Vassili Grossman, Vida e Destino - e eu acrescento que esta "calamidade" se radicalizou no século vinte e um: estamos particularmente disponíveis sem corpo para os estranhos, e particularmente indisponíveis com corpo para os amigos: de algum modo, a ilusão de perfeição é a nova droga global.
come, my friends,
come and see my absolute perfection
come, my friends,
forget my flaws and my faults
I can't go anywhere with this body
I'm everywhere without it
PG-M 2012

2012-03-16

O aforismo do amor e do ciúme

 O amor é forte como a morte, o ciúme cruel como o inferno. 

— Assim o declara o texto original hebreu, o grego, o siro e o arábico: Crudelis sicut infernus zelotipia. Todos sabeis que à morte, a qual é trânsito e passagem, se seguem outros dois termos de que se não passa: ou inferno ou paraíso. Pois, se o amor é como a morte: Fortis est ut mors dilectio, por que se não segue também depois do amor ou paraíso, ou inferno, senão inferno somente: Dura sicut infernus aemulatio? Porque o amor desta vida e deste mundo é uma morte que só tem precitos, e não tem predestinados; é uma morte pela qual sempre se vai ao inferno e nunca ao paraíso. O paraíso do amor — se o houvera — havia de ser amar e ser amado, e amado com certeza de nunca ser aborrecido. Mas como não há, nem pode haver no mundo, nem este amor, nem esta certeza, senão as dúvidas, os escrúpulos, as desconfianças, os receios e as suspeitas de se me amam ou não me amam, ou de que já me ama menos que dantes, ou que trocam o meu amor por outro, ou de que outrem pretende o que eu amo, em que consiste por vários modos o tormento crudelíssimo do ciúme, este ciúme sempre duvidoso, sempre crédulo, sempre fixo na imaginação, e nunca satisfeito, este é o inferno inevitável e sem redenção a que todos os que amam se condenam, e em que são atormentados duramente, sem fim e sem remédio: Dura sicut infernus aemulatio.

Padre António Vieira, 1608 - 1697, Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma, parte 2

2012-03-15

O aforismo do coração de ferro



"(...) É o ferro amado da pedra-ímã — a quem os franceses discretamente chamam pedra amante — e é tão milagrosa ou tão amorosa entre ambos a força desta natural simpatia, que a pedra, como amante, sempre está atraindo, e o ferro, como amado, sempre correspondendo. Ela o chama, ele se move; ela o guia, ele a segue; ela o eleva, ele se suspende; ela o ata, ele se deixa prender; se ela pára, ele pára; se sobe, sobe; se desce, desce; se anda à roda, rodeia; sempre juntos, sempre conformes, sempre unidos, e tão pegados entre si, como se um e outro foram de cera. E se isto obra no ferro uma qualidade oculta, que seria no coração, ainda que fosse de ferro, um amor declarado? Um ferro amado de uma pedra não pode deixar de pagar amor com amor. (...)"

Padre António Vieira, 1608 - 1697, Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma, parte 1
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2012-03-14

O aforismo prescrito do amor



"(...) Não há coisa mais alheia do ser de homem do que não responder com amor a quem o amou primeiro. — De maneira que, em sentença daquele homem de cuja língua estavam pendentes as sentenças de todos, o homem que foi amado de outro, ou o há de amar também, ou deixar de ser homem. (...)"

Marco Túlio Cícero, 106 a.c. - 43 a.c., dirigindo-se a Brutus

PS:  o Padre António Vieira, que será o autor do "aforismo" de amanhã e que citou Marco Túlio, exclui deste amor (para mim) prescrito o "amor desordenado", que equipara ao ódio. Portanto, o que realmente se encontra prescrito é a paga com amor ao amor são e ordenado:).

2012-03-12

O aforismo da glória

É importante ter sempre presente a própria irrelevância, que os momentos de glória - existindo - são sempre acidentais, principalmente entre os melhores, porque os piores chafurdarão toda a vida para se manterem nesse plano ilusório e convencer-se-ão - e convencerão a maioria dos outros - disso.


PG-M 2012
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2012-03-06

It's a terrible love and I'm walking with spiders*



Todo o amor é terrível
porque até o mais perfeito
será despojado à morte
assumindo a amarga sorte
do desgosto universal

e o incompleto, se é amor,
precisa do mar inteiro
p´ra falhar e,
se vingar,
como até o mais perfeito,

será um amor terrível.

PG-M 2012


* este poema, num tom quase "clássico" e dedicado a todos os tipos de amor, foi inspirado na cover que Birdy fez para a canção dos "The National", cujo vídeo se encontra na entrada deste post. "Terrible Love" - contém o conhecido verso "It's a terrible love and I'm wlaking with spiders", de Matt Berninger, e discutido nos meios intelectuais há mais de vinte anos. A posição mais sensata que li foi a de que "walking with spiders" não quer dizer nem "andar com aranhas" nem "andar com voador ou andarilho". "Walking with spiders" pretende dar o tom e o desconforto ao conceito de "Terrible Love". Portanto "walking with spiders" quer dizer "walking with spiders" e é obviamente intraduzível:).