2012-02-28

leva-me a casa



escreve-me um poema banal do meio do jardim
daqueles parecidos com letras de canções que garantem
que te amarei por todo o sempre
e que vingam entre os génios se tiverem meios tons
e acordes divergentes
leva-me de volta
tenho o corpo tão cansado pela luta
deste nome sob as solas dos sapatos
desta alma dentro das bocas famintas
leva-me a casa
e mais tarde
vem ao quarto aconchegar
a vida
apaga a vela
guarda-me o resto da face
na palma
e não te durmas
sem mim

PG-M 2012

2012-02-27

5-5, vantagem para Weinstein (óscares 84th, 2012)

Já todos sabemos que "O artista" é um filme americano que Harvey Weinstein deixou disfarçado de francês. E isso importa o quê? É um filme encantador, como já se escreveu aqui. Tal como Jean Dujardin fez um once in a lifetime role que tinha de ser premiado. Apesar dos estafados discursos de teóricos e xenófobos, um sábio equilíbrio resultou num 5-5 entre "O artista" e "Hugo", dois filmes que celebram o cinema e que nenhum teórico amará. Ter sido "O artista" o grande vencedor é o justo prémio para o filme que constitui a maior perda se não for visto. Porque é uma experiência magnífica. E a vitória histórica da Meryl com um intenso discurso a desvalorizar o óscar e a valorizar o que também os teóricos nunca amarão: a verdadeira amizade, essa que é cumprida com lealdade e sem anúncio. No departamento dos fait-divers, esta foi das mais apagadas cerimónias de sempre, mas o número do "Cirque du Soleil" é de tirar a respiração. Billy Crystal não foi unânime, mas para mim, além de ser Guilherme e com mais ou menos botox, será sempre o meu apresentador de óscares. Na prática, a minha expectativa foi sempre o filme inicial em que ele "invade" os filmes nomeados e depois os canta a la Boradway. It's a wonderfull night for the oscar night. Trapinhos, dizem que a Jessica Chastain compensou o apagamento dos globos de ouro (já pareço uma "gaja" a falar), a Angelina, finalmente, prevaricou, porque quis mostrar as partes escanzeladas e, por linda que seja, acabou vítima de bullying por um grupo de vencedores do óscar do melhor argumento adaptado ("Os descendentes"), com destaque para Jim Rash. Mas houve quem gostasse, há sempre. Bérénice Bejo, já se sabia, é apagada na televisão, o que ainda dá mais valor ao seu desempenho n"O Artista". Não houve total justiça no óscar da melhor actriz secundária, porque Janet McTeer (disse-se aqui) deveria ter sido inultrapassável, mas não está mal entregue a Octavia Spencer, como não estaria a Jessica Chastain. Na melhor actriz, eu tinha o fraquinho pela composição de Michelle Williams, mas concedo que, se não o entregassem este ano a Meryl, mais valia enterrá-la. Tem 3, falta agora um para igualar Katherine Hepburn, há muito a líder destacada com 4. Espera-se mais criatividade e menos contabilidade na próxima cerimónia. Ao contrário do que sói dizer-se, a academia conseguiu fazer a melhor cerimónia de sempre, no meu entender, em 2009 (ler comentário a essa cerimónia aqui). Já não me importo que para o ano não seja o Billy Crystal, mas gostei que tivesse sido. De relevante, e porque considero "O Artista" um filme weinstein-americano, este foi um bom ano para a América, ao contrário do anterior, em que nenhum filme americano figurava no meu top 5 privativo. Este ano, o iraniano "Uma separação" foi a excepção. Bons óscares para o ano, dizem que com Gatsby repristinado, entre outros.

PG-M 2012

2012-02-26

Óscares, última hora, devia ser da Janet

Sobre o delicioso "Albert Nobbs", talvez baste dizer que é delicioso. Passado num hotel no fim do século XIX, tem Glenn Close e Mia Wasikowska em grande forma, mas...o que tem mesmo é um desempenho tremendo da menos conhecida (mas com uma já longa carreira) Janet Mcteer, que faz valer o seu metro e oitenta e cinco de mulher para compor uma notável homem. Sendo comum que aqui se escreva sobre óscares, até porque é a 27ª noite seguida em directo e sem interrupção, até porque quando não havia internet o louco subscritor destas foi para bibliotecas reconstituir todos os nomeados desde a primeira edição, nas vésperas do grande crash de 1929, até porque é uma espécie de vício sem nenhuma crença balofa de que a arte está aqui (embora dentro do grande espectáculo também a encontremos), não me lembro de um ano em que se não me oferecesse a mínima dúvida sobre a justa vencedora do óscar da melhor actriz secundária - Janet McTeer, pelo Hubert Page de "Albert Nobbs", que vai ouvir, e já ouviu noutros festivais, a habitual piada de que devia ganhar o óscar do melhor "actor" secundário, e não actriz. Conseguir brilhar ao lado de Gelnn Close, suplantando-a, é notável. Embora seja altamente provável que ganhe a Octavia Spencer - que, estando bem, eu nunca preferiria, mesmo dentro das Serviçais, a Jessica Chastain, ou fora delas à encantadora Bérénice Bejo (O Artista), o papel do ano é este, e vale o filme. Mas esta noite valerá, não tenho dúvidas, pelo regresso do Billy Crystal - que é tão bom, tão bom, que bem podiam dizer que tinha havido boicote e ninguém ia aparecer que, se o Billy lá estivesse, teria milhões de espectadores. Vale uma aposta? Boa noite de óscares.


PG-M 2012

2012-02-25

Maurizio, risotto e Orlando Inamoratto

Quanto a comer italiano, a nossa aspiração máxima é encontrar a verdadeira cantina da mamma, algo simples, caseiro, nada pretensioso ou caro. Mais: sabemos bem que ir a Itália não significa encontrá-la, porque o turismo tipificado acaba por engolir a qualidade e exagerar no modelo. Acresce que, mesmo tendo ido a itália, e já tendo procurado comer um risotto genuíno, nunca encontrara nada que me satisfizesse. Mas um dia, aqui há alguns anos, na Póvoa de Varzim, numa pausa das Correntes d'Escritas, o maior encontro literário português e dos maiores da Ibéria, uma colega de curso que é poveiro e adepto da comida italiana levou-me a uma Pizzeria que supostamente teria as características ideais. O prato do dia era, precisamente, rissotto com cogumelos e bacon: momento memorável, como passaram a ser todos os momentos em que eu volto à Pizzeria do Maurizio, um puro sangue da Catânia que escolhe os seus produtos a dedo e tem a escola da cozinha caseira da tal cantina da mamma. Quis voltar lá no dia seguinte e na noite do dia seguinte, e sei que cada vez que me é servido aquele risotto desacelero o coração para prolongar o prazer. Provei ainda uma massa no forno que estava divinal e as pizzas, essas, são exemplares. Para rematar, entrar na Pizzeria Castelo (porque fica perto da fortaleza da Póvoa), atrás do Casino, é uma verdadeira viagem a Itália, desde a decoração à música e ao próprio proprietário, Maurizio Guzzardi, um rapaz italiano que merece a visita só por si e parece saído de um filme do Vittorio de Sica. Não se esqueçam de lhe pedir para contar a história dos bonecos pendurados atrás do balcão, que eu hoje sei ser a do poema incompleto "Orlando inamoratto", de  Matteo Maria Boiardo (1441-1494) e da continuação "Orlando furioso", de Ludovico Ariosto (1474 - 1533), que pode ser lido aqui.

CANTO PRIMO
1 Le donne, i cavallier, l'arme, gli amori, le cortesie, l'audaci imprese io canto, che furo al tempo che passaro i Mori d'Africa il mare, e in Francia nocquer tanto, seguendo l'ire e i giovenil furori d'Agramante lor re, che si diè vanto di vendicar la morte di Troiano sopra re Carlo imperator romano. (...)

PG-M 2012
fonte da foto é o próprio blogue da Pizzeria
Pizzeria Castelo
Rua Tenente Valadim, 30
Póvoa de Varzim (frente à fortaleza)
252626553/ 933372314



2012-02-23

Pennies from heaven ("O Artista")

Nenhuma arte é muda, ainda que o silêncio seja essencial a todas elas. Um livro é lido em silêncio, mas projecta-se dentro de cada um de nós como cinema. As palavras talvez apareçam - e devagar - na poesia, as palavras como forma, como desenho. E há filmes cujo ritmo remete para a literatura. "O Artista" está longe de ser um filme mudo, mas está perto de ser um filme perfeito. Explique-se. O filme tem tido a crítica óbvia de que não basta a estética e o desempenho: é preciso uma boa história. Mas, caramba, esta é uma boa história. Simples, mas desde quando é que a simplicidade é um defeito? E nem sequer é bem um boy meets girl, mas antes Star meets girl, girl works her way up, star works his way down, old star makes way for new star, girl becomes star, old star falls, new star protects old star.
É maravilhoso, repito, maravilhoso, ter a oportunidade de perceber, na década de dez do século vinte e um, o que encantava as pessoas há cem anos. Raras foram as histórias filmadas no chamado cinema mudo que tinham argumentos complexos: isso não era possível. Ainda que se olhe para o Rudolfo Valentino - a que se cola a composição do George Valentin de Jean Dujardin, - com encanto, os argumentos que ele protagonizou seriam hoje considerados ineptos. O realizador e argumentista Michel Hazanavicius quis, claramente, deixar a linha narrativa próxima do original que lhe serve de inspiração estética. E digo inspiração estética porque em momento algum quer este filme reproduzir com precisão os filmes de há cem anos ou as condições em que eram vistos. Este filme foi uma grande ideia e, se nem sempre as grandes ideias são bem executadas, esta foi. É surpreendente o efeito que o filme provoca. Funciona como uma deliciosa pausa num mundo ruidoso e em permanente actualização: acompanhar uma história sem vozes e escassos diálogos aguça os restantes sentidos: o olhar do espectador bebe as posturas, as expressões, os pormenores dos cenários - já de si simplificados pelo preto e branco. E fico sem dúvidas de que Jean Dujardin é o actor do ano, porque liga e desliga a necessária histrionia de forma desconcertante. Nunca pensei sair do cinema a dizer que o homem não é "forçado". Mas não é. E depois tem uma elegância nos gestos que não é fácil encontrar nos actores dos nossos tempos - só parece fácil porque anda perto da perfeição. E embora dance bem, não dança maravilhosamente e a única crítica vai para a cena final: a culpa nem é de Jean Dujardin, mas da coreografia, esta sim histriónica quando o não devia ser, o que prejudica os actores, embora Bérénice Bejo se saia muito bem desta injusta prova - a dança devia ter tido a contenção que todo o filme mostra, mas isto não ensombra o que este filme é: a certeza de um mito antes do tempo, mas uma certeza. Perdê-lo é perder um momento de extrema beleza que não se experimentará tão cedo. Perdê-o é perder a visita à estética dos nosso avós. Perdê-lo é perder uma visita ao primeiro cinema e às primeira estrelas. Perdê-lo é perder um momento de paz absoluta e de poesia imagética. Perdê-lo é perder uma das melhores ideias da década, talvez até do século, ainda melhor exectuada do que "Hugo", e eu gostei muito de "Hugo". Um ano em que nos são oferecidos dois filmes de absoluta celebração do cinema de todos os tempos tem de ser...celebrado. Confesso que quase chorei no fim deste. Uma espécie de gratidão automática a quem se lembrou de fazer isto - paguei menos de cinco euros por tanto. É barato- talvez o vá ver outra vez para compensar (e este é dos que se vê duas ou mais vezes). Ainda ressuscitaram a grande Rose Murphy, com Pennies from Heaven, Ludovic Bource escreve uma grande banda sonora (tinha mesmo de ser) e toda a gente se apaixona por Peppy Miller. E embora não nos devamos enganar - este é um filme americano, não francês -, transpira a maior virtude dos americanos, quando sabem acolher e celebrar o mundo sem o engolir. Principalmente quando o mundo os vai celebrar a eles.

PG.M 2012
fonte da foto

2012-02-22

Dulce y tomillo

Em 2003, a poetisa Dulce Chacón regressa a casa no princípio de dezembro. Vinha do hospital, onde em vão tentara curar um cancro. Nessa noite, vagueia pela casa, sente as suas coisas e detém-se na cozinha, onde escreve uma sms que envia aos próximos. Pilar del Río era uma das amigas e nunca se esqueceu destas palavras:
"La cocina huele a tomillo, algo pasa en esta cocina,
  quizá sea la vida"
Dulce morre no dia seguinte.
Este episódio é relatado pela própria Pilar no livro "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, Quetzal, recentemente editado mas já em falta em muitas livrarias.

PG-M 2012
fonte da foto

2012-02-21

Guia para distinguir uma avestruz de um falcão

Pelas oito e meia da noite já consigo apanhar o Archie Bunker, a Edith e o midhead a serem corrosivos com a greve, quando acaba salto para o Seinfeld e do Seinfeld para o John Stewart e a lucidez, a que se tem seguido o Conan O'Brien, a leitura de suplementos literários, revistas de cinema ou rosa - para perceber os limites das pessoas -, os livros, as "minhas" séries para entrar pela noite até o sono chegar. Não consigo evitar as notícias, porque se expandem e inundam, sempre as mesmas, sempre sobre o mesmo, nem os comentadores, sempre os mesmos, sempre sobre o mesmo, mas longe de mim condenar a priori a inteligência de políticos e cientistas e a astúcia de jornalistas que fazem o possível para o dinheiro não os perverter e dominar totalmente. Mas, parecendo que quem tem a cabeça na areia sou eu, eu sei, ó se sei, que quem segue as notícias e o futebol e os especiais informação e os debates económicos nessas mesmas horas em que eu me deixo inebrirar/ arrebatar pelos verdadeiros génios, está bem mais alienado e menos lúcido ao fim dessas horas todas, e sei, ó se sei, que é subtil o domínio lobista sobre a consciência das pessoas. O que me custa é o aparato de anarquista que qualquer pensante dá quando discursa assim: a esmagadora maioria das pessoas está, obviamente, no grupo dos que fizeram a audiência desses blocos noticiosos e desses programas especiais de economia e futebol. Não podemos dizer que são simplesmente estúpidos. Podemos apenas dizer que os que têm o poder político e mediático estupidificam exponencialmente, às vezes sem querer, às vezes querendo, as mais das vezes dizendo que querem e sabem o que queremos. Outro dia perguntei a um empregado faz-tudo de um milionário, que está o mais baixo possível na linha hierárquica social de um trabalhador, sendo mandado fazer tudo e desconsiderado por todos acima dele, que me falava entusiasmado, pela milésima vez, de um dos populistas de consumo diário (e são tantos) sem ter armas para perceber a armadilha em que caía: perguntei se ele desmobilizaria se visse um actor conhecido, todos os dias, dizer poesia durante meio minuto no telejornal, ou programas a falar das maravilhosas aventuras de quem faz literatura, teatro, cinema. Claro que ele diria sempre que não, mas o brilho nos olhos das pessoas não mente. E também lhe disse, desculpe, não sei se lê, mas desgraçado de quem não lê. A resposta foi surpreendente para quem bebe todos os dias no café com os inúteis a quem pagamos a baixa e o subsídio de desemprego para guardarem as portas de cafés todo o dia: disse-me que se lhe dessem bons filmes e séries, não tinha de as sacar, agora que todos os videoclubes das redondezas fecharam. Que se lhe trouxessem livros lia. E que ficava vidrado a ouvir o Vitorino Nemésio há trinta e tal anos. Os tempos mudaram, dir-me-ão, mas eu digo-vos que o que mudou foram as pessoas, que deixam que os façam de estúpidos e até para pensar têm preguiça. Todos os canais noticiaram hoje que o Eusébio tinha mudado a medicação - dizer que enlouqueceram era arriscar ser acusado por qualquer azar futuro do Eusébio. As pessoas passam o tempo e deixam-no passar sem o tomar nas mãos. Afinal ele replicou-me que lia, sim senhor, porque se não lesse já tinha enlouquecido. Tinha embrulhado num pano o "Clarabóia", do Saramago. É o último dele, disse-me. Pois, o primeiro.

PG-M 2012

2012-02-19

i want some steam on my clothes

I put a spell on you, isto cantado na voz preta e aveludada da Nina não soa ao mesmo do grupo de baile no salão da paróquia, onde o fresco do Johnny se abalança ao grupo de espigadotas da frente, eu não, eu trago-te. Já sabes que te trago para a sala azul cheia de fumo, mesmo que não fumemos, tem de ser na penumbra evanescente e são menos relevantes as línguas e os corpos circunferentes do que os cigarros putativos que se fumam. Agora toca a Nina, a seguir vêm os putos KDL, ainda passa o Cohen, mas tem de ser um Cohen puro, enxuto, outra vez a Nina, já manhã, I want some sugar in my bowl, i want some steam on my clothes.

Ignorância nomeado pel' "A Ronda dos Dias"

O excelente blogue "A ronda dos dias" incluiu o "Ignorância" nas suas recomendações  e escolhas, o que nos honra de sobremaneira, pela qualidade diária que a Ivone Costa lhe imprime. Post aqui. Obrigado. É especialmente saboroso ser mencionado com desassombro, honestidade e sem agenda. O "Ignorância", esse, continuará a ser o que é: nada. Um grande nada que faça, de vez em quando, sentido para uma só pessoa (que não o autor, que esse não merece:).

Fim


Às 2:30h deste Domingo, 19 de Fevereiro de 2012, ponto final no romance que me levou as forças todas:). Champanhe. Amanhã pronto para outro. Up and away. Boa noite e obrigado aos leitores que estão desse lado e fazem desta solitária tarefa - que ainda por cima não é exclusiva e exige uma conquista à actividade principal e o triplo da disciplina (afinal, único segredo da literatura:) - um ofício tão compensador.

2012-02-18

Hugomatógrafo

Apresentem-se as críticas e as reservas que se apresentarem, diga-se que o 3D, apesar de deslumbrante e usado com propriedade, é a anti-natureza do próprio filme, que os actores podiam ter densidade - e não apenas beleza (no caso dos pequenos) e classe (no caso dos maiores), por aqui só se consegue dizer que "Hugo" é cinema pleno e que até para a magia dos primóridos desta arte, que retrata, era irrelevante o primor e fundamental a paixão e o empenhamento. Scorcese e o empenhamento são irmão gémeos, e o mestre debita. Seria pena que, por mais que a própria indústria não esteja com muita vontade de o consagrar, este filme não fosse o vencedor da noite dos óscares. Porque às vezes o simbolismo, sendo arrojado e corajoso, conta. E este filme merecia ser um símbolo. E depois darem-me a Paris dos anos 20 e 30 e ainda por cima a gare de Montparnasse ao tempo em que o meu bisavô a usava é demais para o coração. Já tenho preparada a carta: "Senhor Scorcese, o modelo do Paris do pós-guerra mandava-se aos amigos que estão com a ideia de situar um romance aí e nessa data, não?"

PG-M 2012
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2012-02-17

Casal de labradores

Vá, Literatura, senta.
Deita.
Busca.
Come.
Bebe.


Vende.


Quieta.
Anda cá, Break-even.
Paga.
Lindo.


Sai, Literatura,
sai.
Vai, Literatura,
Vai.

(informação: a criação de labradores vende as literaturas com três meses
 e adopta break-evens de todas as idades; há animais com outros nomes: músicas, dignidades, jovens, professores, advogados, jornalistas, arquitectos, portugais, etc, etc)

PG-M 2012
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2012-02-13

Os que vão morrer saúdam-vos

A propósito desta sucessão de mortes perto e longe de nós, que culminou com a de Withney Houston, é curioso observar como a morte se constitui como uma virtude e não devia. Quantas pessoas, na véspera da morte da cantora, ao ser-lhes pedido um comentário à dita, diriam bem ou falariam dos tempos em que ela os tomou pelos pés de arrebatamento? Também assim os prémios, que de repente nos recordam a existência do premiado. Não tinha morrido, já? E depois cai-se num choro ou numa exaltação colectiva, porque se sente que é a oportunidade de libertar as palavras que não guardamos para os vivos não premiados. Nada contra velar os mortos com propriedade, nada contra os obituários, epitáfios, editoriais. Mas a verdade é que, se não andássemos com a cara virada à morte ou à normalidade dos dias - e os tesouros encontram-se em dias regulares, não no meio de festas, barulho e exaltação -, talvez tivéssemos a percepção clara do efémero e não desperdiçássemos a oportunidade de dedicar palavras mais contidas no tempo certo às pessoas certas. E contássemos as nossas histórias de vida, que os outros estão disponíveis, pelo menos, para ler quando lhes apetecer. A da Withney deu-se há vinte anos, quando saíamos com um casal amigo do Lumière, no Porto, onde tínhamos ido ver "O Guarda-costas" e o Fernando comprou o single "I will allways love you" (ainda hoje o mais vendido de sempre por uma mulher), que ouvimos na aparelhagem brutal do seu Honda Civic vermelho durante toda a noite, em "repeat" - claro que ele já não tem o Honda, nem o cd (já era cd, estava nos princípios, e como a música era cheia de silêncio, pareceu-nos tudo perfeito), nem nós temos o Lumière, mas temos ambos as mesmas mulheres. A semana passada morreu o meu colega Zé Maria, pelo qual eu tinha passado sem dar um abraço ou um aceno três dias antes, num centro comercial. Esta semana morreu o meu colega e vizinho Coelho dos Santos, grande advogado e ex-deputado, que eu via passar há trinta e quatro anos na mesma rua do anjo a norte, de mão dada com a sua namorada, estariam ambos a meio dos oitenta. Só por uma vez tive coragem de lhe dirigir a palavra, estávamos sozinhos os três na Casa Barbot e eu procurava os tectos de que era suposto o meu bisavô ser o autor. O doutor não me conhece mas sou seu vizinho há trinta e três, colega há dezasseis, o doutor foi advogado da minha mãe e do meu avô, é uma honra cumprimentá-lo. Vi na cara dele que talvez a honra lhe passasse fina entre os dedos, que ele era pessoa de coisas grandes e eu de pequenas, mas, caramba, disse. E também está bem que nos indignemos uma vez ou outra pela morte que nos choca e pela revolta que nos toma por não termos sabido dizer antes as coisas que queríamos dizer e dizemos com tanta força no luto. Mas não está pior viver com a morte ao lado, com ela e com a garantia e naturalidade do sofrimento que, dando-nos um peso indesejado no olhar e tirando-nos amplitude à inocência, é o que levamos desta vida, só por acidente neste sorriso em que insistimos e bem. Vamos todos morrer e é bom que estejamos a fazer o mais possível aquilo que gostávamos de fazer à morte, seja praticando a solidão, seja semicerrando os olhos de charme por irmos felizes a qualquer momento. Manuel António Pina escreveu este poema nas suas desconcertantes sabedoria e simplicidade, e, se é certo que sem prémio ou morte muitos lhe ofereceriam trejeitos, eis na forma pura o que também penso:

OS MORTOS


Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.


Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.


Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?


E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos,
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentindo-me com mãos primeiras, terminais.


Manuel António Pina
In "Poesia,Saudade da Prosa"
(Uma antologia pessoal)


PG-M 2012

2012-02-11

Abrazos (variações em lá maior)

não lhe chames infelicidade
é antes uma incerteza nas caras
sempre melhor do que a forma como te desfazes na boca
em cubos de alcaçuz com óleo de anis
demasiado doces demasiado outros
para subitamente dizeres larga-me
tenho de ir
- porque é que as fotografias deles estão sempre bem
e as nossas não?
- serão felizes mesmo?
lá estás tu do pedestal
é terrível a forma como sobes todas as
noites
só porque te dirijo aquela frase sem advérbio de modo 
és bonita de qualquer maneira
e tu sobes protestando
que um cavalheiro diria especialmente
especialmente qualquercoisa
- e depois estão sempre em todos os lados do
mundo,
é estranho, marido, que só naqueles sábados
fechados em casa
por um estar doente ou não haver o que gastar
a pressentir o teu sorriso à vista do meu corpo nu
completo e imperfeito
eu chegue ao pico da forma?
que a minha plenitude seja a tua mão
de manhã?
a cama do teu vulto no prelúdio
do meu?
estão sempre a sorrir nas revistas
a dançar nas televisões
a brilhar nas rádios
gargalhadas sinfonias rímel base cheiro pele
e tu que és bonita de qualquer maneira
não lhe chames
infelicidade
é antes uma incerteza nas caras
sobe em vez de ao pedestal
comigo neste abraço
até roçarmos as nucas
no tecto
as costas dobradas sobre o caule do outro
macanudo ao largo com o lápis de despir
bajamos que tengo que ir a trabajar
sí, you también
después nos vemos?
dale.


PG-M 2012
exercício sobre desenho de Macanudo

2012-02-07

Nostalgia do cumprimento de um sonho

É verdade que estou profundamente grato a todos os que me aturaram no processo de promoção turística da ponta do meu icebergue (ou seja, a edição profissional do primeiro livro visivel). É verdade. Claro que todos os círculos profissionais têm a sua dose de autismo e vaidade, claro que o círculo literário português é mais pequenino e se torna mais doloroso porque o experimentamos com pretensa pulsão artística e metade dos nossos novos amigos nos vêm alertar que aquilo é uma coisa séria e profissional, não atreita a romantismos. Claro que não há só bons profissionais: há alguns funcionários de mangas de alpaca que sabem tudo e ditam sentenças em vez de reflectirem, verdadeiramente, nos dias seguintes do fenómeno livro, e claro que o escritor é, hoje em dia, uma figura menor e chatinha - ainda que não para todos. Claro que me senti desconfortável e burro nas televisões, nas rádios, nas revistas, mas mesmo assim fui bem divulgado por quem não tem obrigação nenhuma de me divulgar e tenho de agradecer, como agradeci, a todos. Agradeço também, sem qualquer ironia, aos que optaram por não me divulgar, mas o ponderaram. Não desengraço com os que deliberadamente me excluíram: eu tenho um feitio especial, uma mania de que as pessoas ou são autênticas comigo ou podem ir dar uma volta ao bilhar grande. Isso é estúpido e mesquinho, e por isso também cometi alguns erros de diplomacia, que assumo. Mas só isso. De facto, no momento em que é preciso optar, que é este preciso momento, e eu agradeço o sossego de voltar à escrita e tenho quase o meu quinto romance pronto, eu opto por estar de bem com deus e com o diabo - no melhor sentido, porque há um bom sentido para este cliché -, até porque acho que todas as pessoas mal intencionadas são bem intencionadas, desde que fiquem à frente dos outros. Repito: não é ironia. Acredito verdadeiramente na bondade como reduto último da natureza e do carácter humano. Não vejo mal nenhum em sorrir e abraçar os que nos anunciam como piores: bem vistas as coisas, ou estão a ser vítimas de uma injustiça, ou, se são mesmo piores não nos querem verdadeiramente mal - querem apenas bem demais a si próprios. Já contei muitas vezes a história do tipo mais pérfido que se fez meu amigo e nunca me traiu porque eu sempre o tratei bem. Ao princípio, por desconhecimento. Depois, porque - mesmo avisado - já tínhamos entrado numa roda de mimos e favores de parte a parte. Esse rapaz, até hoje, só foi bondoso comigo. Porque hei-de eu querer mal a quem é maldoso? Este é o fim de uma reflexão prolongada: esta foi a primeira função da minha vida em que houve algumas pessoas a disparar com maldade pura. Tenho já um pedacito mais de quarenta anos, pelo que não me posso queixar. Não, não é a maldade que vence, tampouco o egocentrismo. O egoísmo sim. Mas se houver paciência para os egoístas somos capazes de lhes exaltar algumas virtudes. E a mediocridade? O que fazer da mediocridade? Bom, é ela que batalha pelo poder: temos mais é de a suportar, tentando que nos ouça de vez em quando, porque nunca seremos capazes de usar das mesmas baixezas. E esperar que alguém faça o mesmo, com paciência, se nós próprios tivermos algum mau momento. Tolerância, acima de tudo. Portanto, a decisão é muito simples, e equivale ao que os melhores amigos sugerem ser a atitude "zen": aceitar com gratidão tudo o que vem à rede, lidar com a possível lucidez e sabedoria todos os que se cruzam connosco e aprender com eles. Nunca passear superioridade.

Devo dizer que os meus treze leitores em Portugal (juntando livros, blogue e facebook), quatro no Brasil, três em Moçambique, dois em Angola e um em Goa merecem um pedido de desculpas: continuo a ter emoções em excesso, mas agora escondo quase todas nos livros do futuro. Para este parágrafo há uma conclusão bonita: quando por brincadeira escrevi o número de leitores fiquei todo orgulhoso. Mesmo que sejam só esses. Confesso também que não foi de propósito, mas por limitação, que fiz render as minhas sessões de autógrafos - todas duraram horas, não pelo número de pessoas, mas pelo tempo que passei com cada pessoa. Creiam ou não, sinto-me em dívida para com todos. Da próxima farei como o grande Saramago - só assino- mas introduzo uma inovação: olho-os nos olhos. Que tal? Até 2013.

PG-M 2012

2012-02-05

The Charlize one woman show



Querida Charlize,
Já não vale a pena clamar que não gostamos das mulheres pelo que aparentam. O próprio Matt (Patton Oswalt), no filme de que aqui curamos, Young Adult/ Jovem Adulta, treplica quando tu lhe respondes que gostavas do Buddy (Patrick Wilson) porque era um bom homem: "E os outros homens não eram?". Pois, se o Buddy fosse feio talvez não adiantasse ser bom homem. Também não adianta mentir: foi o teu rabo no reclame da Martini que nos deu uma espécie de contraponto para o teu trabalho como actriz. O problema é que durante anos se pensou que tu te afirmaste porque todos esperavam pouco de ti. Transportei a tua bandeira quando ninguém dava cinco tostões por ela, como a da Hale Berry (para a qual tive de me livrar da tua), como a da Marion Cotillard (para a qual tive de me livrar da da Hale). Preocupava-me se conseguirias algum dia igualar o filme em que tens o teu desempenho mais brilhante (não, não é o que te deu o óscar, Monster, mas sim Terra Fria/ North County), e aqui está ele: porque tenho a regra de considerar sempre mais difíceis os papéis em que o actor, basicamente, faz de si próprio (no sentido social, claro), não tenho dúvida de que este foi o teu melhor desempenho de sempre. Autêntico, focado, inspirado, tu, que és esteticamente sublime e fazes sorrir por seres esteticamente sublime (sempre que punhas um trapinho ou um tracinho no filme), também consegues ser dramaticamente perfeita, ao ponto de ser quase impossível apontar-te um erro, um overacting, um underacting, enfim, o que quer que seja. O Jason Reitman não esteve com grandes rodeios: temos um "one woman show e não vale a pena disfarçar: centremos a câmara na Charlize a ver se ela se aguenta. O teu olhar possesso no bar, quando te apercebes de que a "tua" música era também a música deles (The Concept - Teenage fanclub) ficará sempre, na minha bitola e espero que na de muitos, como um momento de grande cinema de actor. Não me costumo queixar das não-nomeações para óscar e tu já estiveste nos globos, mas não se deixa passar à conta de filmezinho simpático o espectáculo de uma grande actriz. Queria Charlize, com este ganhaste um jantar. Podes cobrar quando quiseres.:)

PS: permitam-me recomendar, quase no sentido inverso deste (de como as aparências pouco importam e de como é possível ser-se feliz num ambiente quase niilista), um que me passou pelas mãos este fim-de-semana e onde o conhecido pequeno grande actor Peter Dinklage recentemente vencedor de um Emmy e de um globo de ouro por "Game of Thrones", está muito bem. É um delicioso e quase ignorado filme de 2003: A Estação/ The Station Agent. Imperdível.

PG-M 2012te da foto

2012-02-02

Pedro

Nota prévia: não é meu costume expor o meu filho pelas melhores razões. Pelas piores nenhum pai expõe. Tenho uma fotografia em toda a rede em que se vê a cara dele, ainda pequenino. E este poema que ele escreveu com nove anos, e que a Prof.Dra Ana Maria Chaves, emérita tradutora, traduziu espontaneamente assim e me enviou por email, o que deu início à nossa amizade. Não escreveu mais nenhum. Até hoje. Lê pouco, não escreve, mas quando escreve escreve assim. Sinto-me obrigado a publicá-lo, não por ser pai, nem sequer pela qualidade do texto, mas pelo testemunho de um processo raro: ele não é de letras nem se interessa por elas. Mas escreve aos doze a um amigo imaginário, que insiste em dizer não ser o próprio pai, que também se chama Pedro - e o que as palavras encerram é profundo e belo.

Pedro

Pedro, és agora a minha estrela
a que brilha lá no céu lá no escuro
cada vez eu morro mais, cada dia mais um pouco
por não estares aqui connosco.
Cada vez brilho mais à tua beira e no isolamento total de quem
nos ama

E agora na torre estás tu pendurado cada dia, cada dia
penso em ti como a luz para iluminar o meu
caminho
cada dia morro em paz a olhar essa paixão

e a estrela agora é a tua
alma

Gui
fonte da foto

PS: E alguns dias depois, a fantástica Profª Ana Maria Chaves enviou-me a tradução, mais uma vez feita de forma espontânea:



PEDRO
(by Gui Moreira - Translated by Ana Maria Chaves)

Pedro, you are now my star
the one that shines up there in the dark
I die every day, every day a little more
for you’re not here with us.
I shine every day a little more by your side
in the utter loneliness of those who
love us

And now you’re hanging in the tower every day, and every day
I think of you as a light that illumes my
way
every day I die in peace contemplating that passion

and the star is now your
soul

2012-02-01

Chuva

Quando se acorda menos disposto, o facto de estar a chover não ajuda, excepto quando a chuva é, em si, o objecto do dia. E quando se descobre que vem de sul e o vento é suave e a temperatura na praia é sequência do corpo, ou seja, não corta a pele, há quase um ânsia por aquela corrida da hora do almoço. E se a corrida vem e começa a chover torrencialmente logo nos primeiro metros e se pode abrir os braços ou dançar ou cantar sem parecer louco - e isso é possível nos passadiços de madeira abandonados em dias como este - a palavra "purificação" passa de metáfora a facto. Ainda por cima reparei, pela primeira vez, nos pequenos seres que andam a correr desesperados sob o passadiço quando passo: não são ratos, são pequenos pássaros que se abrigam dos pingos mais grossos. Quando se aproxima o meu corpo de bem mais de cem quilos, o passo pesado, e quando passa o meu vulto de quase dois metros, uma ave do tamanho de uma noz não pode ficar. E  são muitos que levantam voo. Sorrio, volto para trás na linha da capela sobre o mar e passo à areia, o vento é doce pelas costas, e embora a coluna se ande a queixar da areia que afunda, a que a chuva molha é a mais fácil de todas. Se eu não gostasse de fugir para a espuma, de sentir o mar em cima, não custava nada. Mas é no mar que se dissolve o lado mau e se sintetiza o bom.
E pelos milhares de quilómetros que corri à chuva, houve sempre, mais ou menos de cem em cem, um corpo misterioso a libertar-se do guarda-chuva e a enfrentar o cinzento escuro, onde os piores pensamentos dão lugares aos mais leves e tudo se organiza na ordem devida.

PG-M 2012