2012-01-31

Nenhuma "Separação" (e Sareh Bayat)

Primeiro esta Sareh Bayat. Ela já nos está a doer antes de acontecer alguma coisa de relevante.
Estejam atentos, é a empregada, e Hollywood, já que se prepara para juntar o óscar de melhor filme estrangeiro ao globo de ouro, devia arranjar-lhe uma nomeaçãozita. Tem uma interpretação portentosa.
Curiosamente, os menos bons são os protagonistas, o casal no processo de separação que dá nome ao filme, "Uma Separação". Os muito bons são a dita empregada, o pai senil (só consegui acreditar que ele não estava mesmo doente quando o vi receber o urso de prata em Berlim: chama-se Ali-Asghar Shahbazi), e as filhas, a maiorzita, Sarina Farahdi e a notável (notável!) pequenina Kimia Hosseini. Aliás, Berlim teve uma decisão muito sensata: deu o prémio de melhor actor e actriz  a conjuntos: o conjunto de actores e de actrizes do filme. É arrebatador como nos sentimos próximos de uma cultura que devia estar nos antípodas da ocidental. Não está. A questão religiosa nem sequer é o cerne da questão, embora seja verdade que o sufoco e a sensação de estranheza que a sucessão de pequenas (mas inúmeras) más decisões provoca é exponenciada e acelerada pela religião de Razieh (Sareh Bayat). O exemplo da sucessão de más decisões que pode levar à tragédia é também para nós e para as nossas vidas. Mas o maior exemplo para pode ser para o cinema português: uma vez mais fica a certeza de que não é a falta de meios que afasta o cinema português dos grandes palcos: é a falta de escrita. Este argumento é simples. Não pretende enfiar num filme as coisas típicas do Irão. Narra dois ou três dias muito simples e quase rotineiros. Mas ninguém consegue tirar os olhos do ecrã.
Principalmente quando Sareh Bayat olha para nós.
Nada nos prepara para aquele olhar.
Nada nos separa daquele olhar.

Sareh Bayat

PG-M 2012
fonte da foto 2

O esquecimento do "infim" a Torga

Chatice. Era uma tradição muito minha que ia fazer 16 anos (um menos do que os que passaram desde a morte de Torga). No dia 17 de Janeiro de 1995, ao saber da morte do poeta, escrevi-o na cabeça ao regressar da faculdade por uma rua íngreme que apanhava uma vista da baixa coimbrã antes de se fundir na Corpo de Deus, onde morei no último ano de curso, em frente à Bambi das malhas, num quarto andar sem elevador de onde se via o basófias. Estava triste por razões pessoais: era uma excitação quando apanhava o trólei 3 para ir ao quarto antigo antes do jantar - era o mesmo que o Dr Adolfo apanhava para vir do consultório que tinha na baixa. Para mim, não era normal nem podia ser verdade que o Torga do Miúra era de carne e osso em vez de apenas mito. Mas ele ali estava, quase todos os dias, no trólei 3. Podendo, sentava-me em frente a ele e só uma ideia me ocupava o pensamento durante os dez minutos da viagem: "fala com ele, fala com ele, fala com ele, fala com ele". Nunca falei. Depois ele deixou de aparecer. Depois morreu. Se me esticasse no parapeito do meu quarto da Dias da Silva, conseguia ver o quintal da casa dele. Mas deixei de morar nos Olivais em 1993 - e deixei de apanhar o trólei 3. Não assisti ao desaparecimento gradual do Torga. No dia em que morreu, escrevi este soneto e comecei a publicá-lo na internet todos os 17 de Janeiro, desde 1996, quando a internet ainda era uma coisa rara, estranha e distante para a maioria das pessoas. Falhei este ano, pela primeira vez. Emendo a falha com esta pequena história, que também conto pela primeira vez.

O INFIM


Foi um dia azul, cinzento e vermelho,
que o Belo topou, descendo em desdém,
às curvas já cem de um caminho velho,
um homem que leu pensando ninguém;


Lançou-lhe uma luz sobre o casario,
e o homem parou, por sobre um sorriso,
cheirando a visão, dos lados do rio;
“Poemas remando os barcos do siso,


O guarda desguarda a ausência do posto,
o monte está nu do andar do pastor,
e até o tal Sol tem sombras no rosto;”


E o sino falou calado o clamor:
“Que um cipreste seu de seiva nos crive.”
Nem Torga morreu, nem a morte o vive. 


Pedro Guilherme-Moreira 
17 de Janeiro de 1995 


foto de Daniel Tiago, retirada daqui

2012-01-30

Plátano

que nem o teu desespero
nas tardes frias de chuva
nem essas mãos a tremer
sobre as cartas que escrevi
nem os plátanos
que te deixam no outono
nem a vigília do inferno
nem a indolência do céu
nem a dor da madrugada
nem dúvidas
sobre o que nasce
certezas
sobre o que morre
nem memórias, por mais doces,
nem absolutamente nada

meu amor te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam

PG-M 2012
30-01-2012

2012-01-25

Os pés a arrastar

Passa por mim com um semblante digno, grave, lábios pintados, olhar em frente, veio do wc e já pagou o café, vai percorrer alguns metros sozinha no passadiço junto ao mar, na íris já não lhe consigo ler a inocência como até há bem pouco tempo, apenas uma vida de sofrimento, as mãos deformadas, e agora isto, a trombose, o avc, os pés a arrastar, os passos pequenos, tão pequenos que são menos de metade dos de um bebé que começa a andar. Melhor: já não são passos, são pés a arrastar, só isso.
Quando na cara já não vemos conhecimento, tendemos a desinteressar-nos e a enterrar a pessoa viva no talhão do nosso próprio subconsciente. Mas quando é assim soa um alarme.
Aos setenta queria cá estar. E se cá estiver não queria arrastar os pés nem enfiar nos ombros o pescoço que já não suporto, mas se tiver de ser há-de ser com esta dignidade no olhar.
Terei vagar para dar leveza à expressão?
Importar-me-ei com a comoção no olhar de um jovem?

PG-M 2012

2012-01-23

Carnificina de salão

A primeira mensagem vai para quem gosta de ver filmes que prendam à cadeira: este é um.
A segunda mensagem vai para quem gosta de ter um olhar crítico sobre si próprio: o filme é um espelho da classe média ocidental.
A terceira mensagem para espectadores normais que não gostam de filmes "malucos" a alternativos: o que este filme tem de notável é usar situações banais, que experimentamos todos os dias, para nos mostrar como estamos sempre perto de quebrar e de mudar.
O filme é visto com um sorriso permanente nos lábios porque está bem escrito e tem grandes actores que estão bem dirigidos por Polansky. São pouco mais de sententa minutos que parecem quinze. Apetece mais, muito mais. Apetece sair por aí fora. De qualquer forma, a aspiração ao simbolismo, tão criticada em qualquer arte mas normalmente ambiciosa e difícil de atingir - frequentemente procurada por Polansky -, faz com que neste filme tenhamos mais paradigmas do que realismo estrito.
Está também assente que a Kate Winslet é para casar. A Jodie Foster tem, no meu entender, o melhor papel de muitos anos, assim como o John C. Reilly. O Christopher Waltz chegou agora às bocas do mundo, já ganhou o óscar e mais uma quantidade de prémios e merece mais - é grande e vai ficar como uma das referências da sua geração de actores, o que é notável para um austríaco, o terceiro mais famoso desde Hitler e Schwarzenegger. O filme, que ainda não foi mencionado, mas levou em português o excelente título de "O Deus da carnificina" (o título da peça original de Yasmina Reza, e o bom gosto de o traduzir fielmente) expõe-nos de forma perturbante (mas leve e cómica - somos nós que trazemos o filme no pensamento e o aprofundamos, se quisermos) a comédia e o drama dos micro-nadas dos nossos dias, dos nossos relacionamentos, do nosso papel como pais e maridos e mulheres, dos nosso vícios e dos nossos tiques, dos nossos limites. Imperdível, claro, ou não se escreveria sobre ele.

PG-M 2012

2012-01-22

Nunca digas livros nunca

Há uma razão para neste blogue a regra ser não escrever sobre livros.
E também há uma para que um advogado fascinado com as - e praticante das - novíssimas e criativas estratégias de Direito preventivo não tenha o mínimo jeito para executar estratégias no meio literário:
é que, por selvagem e supranumerária que esteja, a advocacia ainda tem uma ética e uma urbanidade. A ética é até protegida por lei. E os advogados - com as excepções que confirmam a regra -, mesmo quando se atacam, devem fazê-lo com a ética e a urbanidade que os regulam.
A literatura, se teve ética e urbanidade, há muito a perdeu. Da bondade nem se fala. 
Claro que, em profissões onde não há regulamentação, ética ou urbanidade, espera-se dos seus melhores elementos o exercício desses valores de forma individual, dando o exemplo aos demais.
O problema é que o meio literário é demasiado atractivo e charmoso para que os vaidosos e medíocres se contenham. Então chega-se a um ponto em que não é possível um saudável convívio social: estar no meio literário com inteligência é estar fora dele. Os próprios escritores dizem uns aos outros: não te preocupes com isso, escreve. Escreve apenas. Afinal, o escritores já não são o topo da "cadeia alimentar". As mais das vezes são tratados como uma "liability". Uns chatos. Uns melgas. 
Há uma razão para neste blogue a regra ser não escrever sobre livros: a ética e o conflito de interesses mandaria sempre escrever generalidades. Escrever bem ou mal sobre este ou aquele, por mais que a opinião seja legítima, nunca permitiria vencer a triste (mas necessária) regra da mulher de César. Sob anonimato sim - aí está uma excelente aplicação do anonimato - caso a preparação técnica e os conhecimentos fossem vastos, mas aqui conhece-se demasiado bem a ignorância para pensar sequer que seria possível lá chegar. Finalmente, quem quer escrever a sério tem de trabalhar muito: já bastam as conquistas que por cá se fazem ao tempo do Direito e estes dias têm vinte e quatro horas e um só estômago. Assim, o prazer dos livros, essa infinita gulodice, é passeado nas livrarias, em silêncio e tantas vezes em êxtase.  
Não há tertúlias na selva.

PG-M 2012

2012-01-21

Eliminar o terreno

Dizer que as redes sociais não são nada, é cabotino. Dizer que são tudo, perigoso. É como a vida, sim, mas não deixa de ser uma exposição forçada. É verdade que a porta da minha casa nem para os amigos está aberta: prefiro dar a vida pelos amigos indo ao encontro deles, mas deixar esta reserva como o que ela é: sagrada, onde podemos ser frágeis sem vigilância. Na vida pública, redes sociais incluídas, onde me encontro entre pessoas que venero, tenho a porta aberta a todos e conheço apenas uma parte dos meus inimigos - aquela que me prejudicou sem margem para dúvidas. Conheço poucos, e quase todos estão convictos de que eu não sei o que me fizeram. Não falo de certas personalidades vaidosas que se acham demasiado importantes para nos passar cartão: falo de gente pérfida. O meu defeito é nunca dar essa tema por encerrado e manter uma perene abertura para que a elevação compareça e tome a mesquinhez. Uma amiga veio trazer-me em privado o conforto das seguintes palavras de Sun Tzu: "A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar." Aplico este ensinamento todos os dias na advocacia, mas não sei como na literatura, onde não encaro como boas as artes da guerra, mesmo as sábias. Num mundo de palavras, não posso usar ou colocar mordaças a quem quer que seja. Também não me dou qualquer importância, sendo que um parágrafo desta extensão já me parece pouco avisado - é que os frustrados e ressabiados também se fartam de escrever por essa internet fora. Verdade que os sonsos pouco escrevem, os pérfidos deixam parágrafos bem urdidos e sempre para ferir e que os benevolentes nada temem. A minha arte de guerra, se quiserem, é, por ora, eliminar o terreno e eliminar-me a mim próprio como adversário. Medida sanitária fundamental para deixar tempo para as coisas importantes que tenho em mãos. Tenham uma boa semana e aceitem um antecipado e profundo agradecimento - são tantos os que, pressentindo um coração (baaah, que lamechice:) em sobressalto acorrem a serenar:). E contam comigo, ah se contam. 
PG-M 2012

2012-01-20

todo o poeta é temporariamente morto


E ainda por cima diz que estamos todos

surdos
poucos
muitos conhecem este e aquele
absolutamente todos os abraços e palmadas entre o herberto e o antunes, as costas laminadas
e ditam, exaltam e dizem "obra definitiva"
gente importante a medir livros como miúdos
pilas
com um ardor no peito, esse arrebatamento que carece de
testículos
e pêlos
no cu
e porto e ponte e foz)

todo o poeta é temporariamente corpo
todo o poeta é temporariamente morto

PG-M 2012 (!)

liberdade a frio

Hoje tirei as sapatilhas para correr descalço por dentro da rebentação e não me soube bem:
a água do mar está gelada.
Mas, tal como a liberdade, fica a sua impagável metáfora:
nem sempre estar livre é doce ou fácil, mas é sempre melhor do que o constrangimento de estar preso ou ser de alguém ou de alguma coisa.


PG-M 2012
fonte da foto




2012-01-16

Seriously (Globos de Ouro 2012)?

O que ressalta nos Globos de Ouro 2012 é a forma como vamos sendo desinformados de há uns anos a esta parte. Era bom que as agências noticiosas que fazem o sumário matinal tivessem tido jornalistas a ver a cerimónia, mas as mais das vezes colhem a informação pela mera consulta (na diagonal) da lista de prémios, havendo frequentes confusões entre drama e comédia, televisão e cinema. A Michelle Williams, por exemplo, com a sua brilhante prestação e vitória pelo papel em que encarna Marilyn Monroe, foi omitida em quase todos os serviços noticiosos, que esqueceram a distinção entre comédia e drama. Vai daí, se queremos mesmo estar informados, temos de ver em directo ou ler jornais estrangeiros. Eu vi em directo pela primeira vez, e posso dizer que pode ter sido a última. É uma cerimónia apressada, alcoolizada e sem emoção. Nem o "glamour" da passadeira vermelha a salva. Ouvi dizer um comentarista - que, claramente, também não tinha visto em directo - na televisão portuguesa que "é uma cerimónia mais descontraída e em que os discursos são menos controlados". Usando uma expressão de espanto tão em voga nos EUA: seriously? Os discursos são ainda mais contados e cortados. Quem me vai lendo nesta página deve saber que acompanho os óscares em directo há vinte e seis anos, vai para vinte e sete. A cerimónia de 2010 foi absolutamente fascinante, mas mesmo a de 2011, que foi das piorzitas dos últimos anos, mete estes globos no bolso. Nem é pelo excesso de categorias: ao faltarem muitas técnicas, e ainda que haja essa "dicotomia" drama/ comédia, cinema/ televisão, os globos equiparam-se aos óscares em categorias (vinte e muitas).O que desiludiu foi a sensação de "enlatado" de cervejita na mão. E, sinceramente, fora o justíssimo prémio para a Kate Winslet, por Mildred Pierce (completamente omitido nos tais resuminhos), nada de entusiasmante ressaltou. Valha-nos o São Ricky Gervais, que apareceu muito pouco desta vez. E a Sofia Vergara. Também é comum dizer que são o prenúncio dos óscares: serão, mas não porque os votantes sejam visionários: apenas porque os lobbies são fortíssimos. E já alastram para os Bafta e para os Césares. Era bom que, pelo menos, deixassem os Goya em paz, que eu ando a visionar a lista de premiados dos últimos anos e ainda me tenho surpreendido com muitos filmes. Este é o ano em que o mundo, definitivamente, se americanizou. Se franchisou em EUA. Vocês ainda acham que "L'artiste", um dos vencedores do ano, é francês? Sabiam que o título orginal é mesmo em inglês: "The Artist"? Valha-nos a melhor notícia cinematográfica da década, até ver: William Edward Crystal volta para nós e apresenta a cerimónia 84 dos óscares, a 26 de Fevereiro de 2012, no Kodak Theatre. Ainda bem que o Eddie Murphy se chateou com os tipos. Ter o Billy Crystal de volta é, só por si, dois terços da emoção deste ano. É, juntamente com Bob Hope, o apresentador de óscares do século XX que nos vem, inesperadamente, visitar ao século XXI. Está mais velho e, não tenho dúvidas, melhor do que nunca. Até lá.

PG-M 2012
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2012-01-13

Michelle Monroe

Uma das coisas que sempre evoluiu com os anos, agora décadas, de amor que tenho dedicado à mesma mulher foi Norma Jean Baker. Foi a minha mulher a primeira a desviar-me da Marilyn Monroe e a fazer-me olhar o fenómeno pelos lados, pelos cantos, pelo verso. Podemos opinar, podemos até detectar, numa só cena, a raridade do objecto que admiramos, mas para perceber do que estamos a falar temos de ver os filmes todos, se possível por ordem cronológica. E foi o que nós fizemos, como jovem casal de namorados sem muito para fazer: coleccionamos todos os filmes da Marilyn Monroe, que não são assim tantos - nem podiam ser, tal era o extremo a que ela levou todos, sem excepção, e a que a levaram a ela - e vimo-los. E vimo-los outra vez. Deixamos, claro, "Os inadaptados" - o filme maldito - para o fim. Que nos trouxe as virtudes do "método" para a eternidade. Foi o filme que deixei que me marcasse mais, vida fora, até ao "Túmulo dos Pirilampos", que até hoje não encontrou parceiro (e dificilmente encontrará). Michelle Williams, no filme "A minha semana com Marilyn", interpreta uma actriz baça, por mais que a iluminação e a fotografia lhe concedam brilho. Se é de propósito, é genial. Todos sabemos que é impossível imitar Marilyn Monroe - Angelina Jolie, pouco corajosa e, ela própria, a estrela universal de hoje, recusou o papel -, e nenhum realizador o quer: os "copycats" estão fora de moda. Na moda estão as aproximações viscerais: não vai ser fácil ultrapassar, no corpo inteiro, a Edith Piaf de Marillon Cotillard, justamente premiada com um (inesquecivel) óscar. Michelle talvez não mereça o óscar que lhe querem dar desde "Brokeback Mountain", e que ela merecia por Blue Valentine.Talvez não o mereça por este filme, embora seja notável o seu trabalho de composição, que se torna cada vez mais complexo à medida que o filme avança: Simon Curtis, um realizador de televisão por excelência, mais uma vez, deixa-nos na dúvida se fez ou não de propósito, mas eu gosto da ideia de estranheza e desconforto que nos causam as primeiras cenas de Michelle Wiliams, e da imersão a que ela nos leva à medida que o filme avança, culminando no banho nua. Michelle é uma perfeita Marilyn nua. Já o vinha sendo vestida, com a sua barriguinha, com os pneuzinhos no sítio certo, excessiva, mais do que adorável, que nunca é. É talvez porque vi (e li) tanta Marilyn, porque a passei a situar debaixo da pele e a trago como uma espécie de pin na lapela de cinéfilo, que me entreguei à experiência deste filme com um raro prazer. Será por ser homem e a Michelle ser um deleite? A minha mulher ficou algo desiludida, eu ia preparado para isso, mas o filme superou largamente as minhas expectativas. Porque é um bom filme. Imperdível para os fãs, mas imperdível, acima de tudo, para os que não o são.


PG-M 2o12

2012-01-11

A lista da Rita Bonet (livros do ano de 2011)

Está lá "A manhã do mundo" no topo. Tanto de humildade como de gratidão. A Rita já tinha feito a melhor síntese do livro em crítica (aqui), numa coluna luminosa na "Os meus livros". E agora isto. Obrigado.

2012-01-10

Ai cidade

Às vezes tenho saudade
da cidade
das pessoas
a dilatar o leito
dos passeios
dos cafés quentes
com luzes
despudoradas
de não pegar na enxada
e não tomar os copos
em lojas frias.
Da música clara
em gabinetes
com os papéis
sob mãos finas


de não ter bichos e campo
sem fim,
de ter preguiça
e não se ver


do carro à porta.
do perto
do curto
do dia


que acaba
Às vezes tenho saudade


da cidade


PG-M 2012
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2012-01-09

Nova Iorque (pela patrulha da neve)

Nota prévia: mais uma tradução livre de uma letra que é menos poema, mas ainda é New York, dos Snow Patrol, a arrancar:

Nova Iorque (Snow Patrol)

Se estivesses ao meu lado
em vez de em Nova Iorque
se a curva de ti fosse
sobre mim
dir-te-ia que te amei
mesmo antes de saber
porque amei a mera ideia
de ti
Se os corações não quebrassem
não era doce o remendo
há tanto que esta dor
pode ensinar
Há a distância e o silêncio
palavras que não me
entregaste e são a oração
dos dias.
Vem. Sai. Vem lá,
vem cá, vem cá.

Vem. Sai. Vem lá,
vem cá, vem cá.
Porque os oblongos neons
e as dores do oceano
e o fogo que desata
está incompleto de tudo
das luzes e do amor
da sorte que faz de dois
um
e outra vez
dois

Se estivesses ao meu lado
em vez de em Nova Iorque,
nos braços que disseste
nunca deixar,
dizia-te que era simples
e sempre apenas nós,
não há mais lado
nem pertença

Vem. Sai. Vem lá,
vem cá, vem cá.
Porque os oblongos neons
e as dores do oceano
e o fogo que desata
está incompleto de tudo
das luzes e do amor
da sorte que faz de dois
um
e outra vez
dois

Vem. Sai. Vem lá,
vem cá, vem cá.
Dá-me só os sinais
do princípio e do fim
ao silente caos
que me enlouquece
porque os oblongos neons
e o calor do oceano
e o fogo já
a extinguir-se

Snow Patrol, sob tradução livre de PG-M 2012

2012-01-08

Eu nunca disse um poema meu

Eu nunca disse um poema meu
Eu nunca soube dizer nenhum
Começo e apago a voz
e as palavras finas
quebradas


com aquela pressa triste

e leio

mecanicamente a chuva
mecanicamente as lágrimas
E as pessoas ali
ou no futuro a olhar
à espera de mim
todo

Acontece que eu em pequeno
já trocava as coisas e
punha poemas no dorso
dos cães
e restos de comida
na adversativa
e dobrava as coisas todas
engomando intransitivos

Os meus colegas dos encontros
literários
ficavam rindo baixinho
acotovelando
o parceiro
claro que não disse nenhum poema
dele, diziam,
se nunca escreveu nenhum!

e riam

Eu nunca disse um poema meu
Eu nunca fiz uma sombra tua
Eu nunca ergui o meu corpo acima
de nada
Eu nunca urdi um silêncios deles
para me ouvir

Sou não poeta poema e que me lembre nunca disse sequer em ambiente informal um poema

meu
e isto é mesmo verdade
poema nenhum

PG-M 2012
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"Até cortar os próprios defeitos

pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
Clarice Lispector


PG-M 2012
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2012-01-06

Tajabrincar?

Diz o Miguel Sousa Tavares que programas como "A casa dos segredos" deviam ser considerados crime e proibidos, e eu tendo a concordar com ele.
Enquanto existem, contudo, passam por mim como a realidade que são: televisão.
A televisão que se resume, hoje, a um conjunto de iluminados que sabem o que todos queremos e vão (des)nivelando a oferta por essa bitola ideal - já nem adianta defender que se vende qualidade da mesma forma que se vende lixo. A preguiça e o cilco vicioso "tenho de garantir o meu emprego"/ lobbies faz o resto.
E espreito pelo buraco, sim, até porque o argumento daquilo é quase sempre superior ao de qualquer novela. Não está aqui em causa a justeza do resultado para os concorrentes: eles já sabem que vão estar sujeitos a um massacre psicológico que ultrapassa todos os limites. Agora, que não reste dúvidas de um facto incontornável: nenhum de nós é melhor (ou pior) do que eles. Nós somos aquilo.
Observar homens e mulheres como ratos em laboratório deixa-nos tirar algumas lições úteis para a vida, e não é, certamente, o profissionalismo quase perverso de uma Teresa Guilherme (que muitos criticam porque gostavam de ter o poder que ela tem e outros desprezam por considerar que ela tem poder a mais e o exerce discricionariamente, ao sabor dos seus caprichos, o que, podendo ser verdade, não deixa de ser uma acusação espantosa no clima de lixo televisivo: eu só sei que há uma diferença abissal entre quem nasceu para fazer aquilo e quem tentou imitá-la).
Por outro lado, não me espanta a fama instantânea: três meses a ser exibido em horário nobre faz dos concorrentes personalidades mais requisitadas e incomodadas, alvo de verdadeiras histerias, do que muitos palermas com fama feita há anos. Mais palermas ainda do que eles, a bem dizer, mas arrogando-se o direito a um lugar porque dão cabo da nossa paciência há muitos anos.
Eu dizia que o mero facto de uma pessoa se candidatar a um programa destes é mau sinal e demonstra uma deficiência de personalidade: hoje já não sei se é mesmo assim. Nesta "Casa dos Segredos 2", em particular, foi muito curioso observar a reacção de crianças crescidas - como o eram 95% dos concorrentes - a alguma maturidade, e a reacção foi quase unânime: a maturidade é pérfida.
Também nunca cheguei a perceber a razão de os livros ficarem de fora, fora o simbolismo próprio de regimes totalitários: eu ainda tentei mandar o meu, mas sem sucesso:). Há que ter o campo de concentração a funcionar em pleno.
Por último, o mistério: talvez com a excepção de dois familiares e da excelente jornalista Ana Almeida, que descontraidamente fazia das galas verdadeiras e desempoeiradas noites de pândega no seu facebook, não encontrei mais nenhum ser vivo das classes A/B e C1 que confessasse ver, nem que fosse de vez em quando, o dito programa (análise às audiências aqui).
Ainda que a maioria das audiências estivesse nas classes baixas, estão, pois, por explicar as altíssimas audiências nas classes A/B e C1 (perto de 35%). Eu só encontrei quatro ou cinco "melros" desses milhões.
Já sei: copiar e colar - entre pessoas perto da perfeição não se discutem certas coisas.
O que também é sintomático da técnica da avestruz de que esta nossa curiosa espécie animal abusa.
Tajabrincar?

PG-M 2012

2012-01-05

How deep (um pedido de desculpas permanente)


How deep?
Muito, já se sabe.
Por isso, extravasa para livros e pessoas.
Daí o "excesso" de pathos. E a estranheza.
Nem todos querem ser tocados. E fazem muito bem:).
A esses, as minhas eternas desculpas.
Os melhores amigos sempre me avisaram, em tempo: tu és assim, nós sabemos o que a casa gasta, mas não podes pedi-lo  a todos. É certo que a verdade crua é uma estupidez. Como a ausência total de hipocrisia. Caio para o excesso da primeira e para o decesso da segunda, o que está mal.
Por isso é justo. Ser confundido com um stalker qualquer é justo.
Porque esse é realmente um problema: querer saber dos outros. De uma forma activa. Sem se fingir de morto, como os cães amestrados.

Mesmo em redes sociais, onde os "cool" menos caridosos entendem a solidão de outros como um animal rastejante e nojento. Não é coisa de eu que sofra, solidão. Nem de outros males ou frustrações, como todos os que partem do pénis freudiano ou da careca hegeliana. Mas pode tocar-me, nunca se sabe. Para esses, vaidosos como não sói ser-se, a solidão adocicada da miúda ou da madura parola não tem perdão. Está mal. Eu digo que, mesmo que devamos moderar-lhes a dose, não é suposto que lhes cavemos a cova. Nenhum mal em exponenciar a sensualidade, a auto-estima, todo o mal em apoucar liminarmente os que sentimos como menores.

O que é feio, mesmo, é o auto-elogio. Um defeito enorme e incorrigível. Que é meu, só meu.
Portanto, por mais que invista na virtude, cairei sempre pela base: o bondoso não diz que o é.
O pérfido diz que é bondoso e anuncia-se cheio de boas intenções.
Vai que, embora as aparências enganem, eu aparento o inferno.
Seja. Também não contava com um julgamento em tempo útil.
"(...) À barca, à barca segura,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida! (...)"


PG-M 2012
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2012-01-03

Em Janeiro


Em Janeiro,
amo-te quando começam
a madrugada e o vento
e todas as outras coisas
e tudo o que é bom ou mau
como acontece no amor
que tem janeiros no fim
de cada abalo do tempo
e em cada abraço dos corpos
e em cada passo do mundo


Em Janeiro, amo-te pelo que foi
e por tudo o que há-de vir


PG-M 2011
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ps: este é o poema que voltará todos os Janeiros