2012-12-30

Senhor Burke e o sexo em Coimbra


Don't you feel like cry-cry-cry-cry-cry-cry-cry.

Dias (noites) instruídos por Solomon Burke.
Noites de desaforo com o senhor Burke no ouvido, ninguém por perto.
E que ninguém se chegue.
Sempre a cena recorrente. Sempre o mesmo problema das músicas de dois minutos e tal:
coitus interruptus.
Sempre o repeat.
repeat  repeat  repeat  repeat  repeat  repeat  repeat  repeat
Droga não, caraças. Como é que se sente o Solomon literal com droga?
Como é que eram as gravações, senhor Burke?
O estúdio tinha de ser mais ou menos como a cena recorrente:
nove metros quadrados, luz baixa e azulada, muito fumo, o senhor na mesa do canto, nunca pronto.
O senhor na mesa do canto, nunca pronto.
Fumava, Mr Burke?
O seu bigode curto como o meu, os seus lábios grossos como os meus, o cabelo em carapinha como o meu dos melhores dias. Tínhamos todos vinte anos, mais ou menos coisa.
Eu a ficar preto, como o senhor, e os filhos da puta dos skins a cercarem-me entre a camões e a dias da silva e eu judas:
"Eu não sou preto, sou só moreno", raio de judas da dias da silva,
a brandir fotografias de nerd pálido e a triste condição de caucasiano quase a implorar, vão perguntar ao Torga, que vive ali em baixo e vem no trólei três comigo, se eu não sou branco.
As miúdas a milhas, senhor Burke, e nós com o tempo, e nós com o espaço, todo do mundo e sem saber o que fazer.
Convenhamos:
na altura o senhor andava numa cassete de crómio cuja fita (também preta, linda) tinha de ser reengolida a voltas de caneta e começou a ficar quebradiça precisamente no "Just out of reach", e, que raio, o "Just out of reach" não é grande amostra sua, pois não?
Ainda não havia a moda dos "headset", senhor Burke, mas espere lá, vamos voltar atrás:
o senhor, acha, senhor Burke, que eu tinha multiplicado o sexo se o tivesse replicado pelas monumentais, enquanto subia no encalço das miúdas de psicologia?
E que, wasted, no meio dos betos do psd que fabricaram a vitória para a associação nos late eighties, teria alcançado o nirvana no bar da OAF, em vez de um café sem açúcar enfiado pela goela abaixo e bute? Bute para casa, que a noite acabou para ti.

Eram giras, aquelas seis de psicologia.
Ou eram três?
Onde estava você, senhor Burke?

"Tonight's the night", o Al Berto a ser vaiado no Dom Dinis e a mandá-los a todos para o caralho, descíamos com elas para o "Briosa", o bar do Bingo (lembra-se senhor Burke?), e era de língua até às quatro, não era preciso embrulhar miúdas podres na relva do parque, comer e ser comido pelas próprias finalistas que nos tinham galado um curso inteiro ao som do "Marilu", dos Ena Pá 2000, nós a querer e elas a deixar, mas nunca chegava, nunca havia tempo, ia-se-lhes nos arbustos e chegava sempre, cedo e a desoras, o Quim Barreiros.
Porque o Quim Barreiros, senhor Burke, esse Quim Barreiros foi sempre o grande erro de casting dos oitenta em Coimbra: mas que Mariazinha no seu devido juízo se rendia a um imberbe de direito, senhor Burke?

Agora somos velhos e barrigudos, senhor Burke.
Temos no regaço grandes mulheres e o melhor, pensamos a olhar o johnny distraído(s), é estarmos mais quietos do que mexidos para não dar cabo do aconchego, que para a maioria de nós nos torna, não corajosos maridos, mas pobre e conformados espécimens já devidamente identificados na tabela de correspondências faceboolkianas como os predadores depredados, que é para não dizer pior,
senhor Burke
(por esta hora o tamanho pouco importa, não é, senhor Burke?).
E, ainda que sejamos uns grandessíssimos e teóricos fodilhões, senhor Burke,

Don't you feel like cry-cry-cry-cry-cry-cry-cry?

PG-M 2012

2 comentários:

Epifânia disse...

Maravilhoso!
Não sei dizer o como gosto disto!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Maravilhoso está bem. Foi lido na apresentação coimbrã do Livro sem ninguém, perante o Professor catedrático Manuel Ferro. :)