2012-12-16

Quando as velhas arrastam as cadeiras no café

Queria que soubesse, Dona Ana, que quando as velhas arrastam as cadeiras no café no domingo às seis da tarde eu só as suporto porque essa é a provação final antes do silêncio. Fico com pouca gente até às sete. Com quase ninguém até às oito. E escrevo, e leio. Mas dez minutos antes de as velhas começarem a arrastar as cadeiras, serão seis menos dez, levantam-se para uma longa despedida e começam a falar alto, afogadas nos seus casacos de pele de coelho e os maridos domesticados dentro de pulôvers cinzentos, elas aos berros com as outras, eles calados a sorrir um sorriso perdido, afastado, a pensar no passo seguinte da rotina, a pensar no que contêm as suas velhas insuportáveis para que eles as suportem.
Às vezes literalmente.
Quando o sorriso se recompõe, percebo que eles tiram sempre a mesma conclusão: elas, que tantas vezes são o próprio abismo, funcionam como o fosso que os afasta da solidão quando se começa a enterrar os companheiros de sueca. A solidão é um rio que passa por baixo e à volta do castelo. E o sorriso fica quase uma linha horizontal, às vezes menos do que isso, a imagem clássica do palhaço a remover a maquilhagem. E quando o café se cala eu penso que há uma razão para eu não retardar a minha chegada ao domingo. Eu ia sentir falta das velhas insuportáveis, as mesmas que nos dão murros nas filas de supermercado, as mesmas que nos empurram no autocarro, estas são as velhas felizes, as que combatem como elefantes enfurecidos o tratamento garantido da forca de chão com arrasto e enterro de corpo vivo. E lembro-me do choro invisível da avó naquela urgência hospitalar, o olhar rasgado a clamar, não me deixem aqui, não me deixem aqui, não me deixem aqui que morro já. Afinal, se elas têm de morrer, que morram ao lado dos velhos delas.

A operação é invasiva. Mais invasiva do que a morte, senhor doutor?

E claro que sinto falta de velhas insuportáveis que não deixam que lhes passem a perna, a forca ou a lama. A primeira vez que passei à porta deste café eram sete e meia da tarde e estava vazio, parecia quente e a luz pela metade, decidi que viria para cá escrever e esperar, mas quando finalmente vim era demasiado cedo, e lá estavam as velhas ainda a lanchar e a falar e a falar e eles com os olhos no chão e um olhar perdido. Perdido, não infeliz. E depois lá se iam elas embora, começavam a gritar, nem nos meus ouvidos a música lhes abafava o ruído, se tivessem uma fila passariam por cima de nós, se regressássemos de autocarro seriam violentas.
Mas são os abismos que separam os seus velhos da solidão e da morte.
Mais invasivas do que a morte, senhor doutor?

Não, Dona Ana, quisera eu que a avó tivesse velhas insuportáveis que arrastassem cadeiras no café para os seus lanches de domingo.

Daí ter-lhes uma raiva retórica e um amor dedicado.
Não há nada de linear nos bons e nos maus sentimentos.Estes velhos são felizes com estas velhas insuportáveis, que são felizes entre elas, ou pelo menos quando com elas.
Agora tenho para mim a estratégia Snow Patrol: Chasing Cars a 100% nos ouvidos. Não, não, Dona Ana, ninguém sossegou. Continuam a incomodar-me, ainda as ouço aos berros e nada abafa o arrastar de uma cadeira nesta tijoleira. Mas prefiro assim. Cuido dos nossos velhos suportando as inspuportáveis, como os seus velhos para que tenham um fosso que os separa da solidão. Não, Dona Ana, não é possível sorrir durante o ataque, o meu limite é gostar delas afogadas nos seus casacos de pele de coelho e os óculos Valentino pagos pelo seguro encostados às pestanas com excesso de rímel. Não me peça mais. Mas não é mau, isso concedo, vê-las felizes enquanto enlouqueço. 
PG-M 2012


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