2012-12-06

Morales fantástico

 O João Morales tinha na mão a minha mesa do fórum fantástico de 25 de Novembro. E o João fez-me engolir em seco o pouco que sou e sei. Comecei por pedir-lhe que aguentasse o que viria a ser um festival de sabedoria - não que ele fizesse por isso ou o quisesse, mas é inevitável nele - para lhe contar que eu, tal como o ilustre Afonso Cruz, um rapaz doce ali mesmo ao lado, tinha tido uma carreira gloriosa como ilustrador aos catorze anos, desenhando a série dos porcos (contada uns dias mais tarde também em Guimarães, e que pode ser lida aqui).
A forma como o João fez a ponte entre o meu livro, "A manhã do mundo", e o último de Afonso Cruz, "Jesus Cristo bebia Cerveja" demonstra ainda mais do que sabedoria: trabalho e dedicação.
Graças ao João foi como se tivéssemos combinado previamente a articulação de ideias, identidades e pontos de contacto entre os livros.
Falámos do narrador omnisciente, da curiosidade do tom profético num livro que aborda o livre arbítrio, eu expliquei todas as opções. E foi desconcertante como o João, finalmente, descobriu que o elemento fantástico, n'"A manhã do mundo" foi um pretexto, um McGuffin (como ele disse) para abordar outras questões – memória histórica; dignidade humana; liberdade para fazermos o que queremos das nossas vidas;  
Muito curiosa a questão dos vidros ou janelas como elemento simbólico na narrativa e na tragédia em si: citou a p. 134 e as crianças coladas ao vidro, numa cena imediatamente anterior ao momento de maior pânico.
As posições estéticas e éticas também foram abordadas. A forma como foi fundamental eu entender muitos familiares de vítimas, como falei com alguns, como tomei decisões éticas e optei por um minimalismo estético. O piso 106 vazio como cenário de toda a escrita. Mas também a forma como foi assumido o risco do carácter simbólico do livro, a opção de confrontar o mais "pop" de todos os holocaustos com o que tratei como holocausto indidividual de três mil em Nova Iorque. Como quis descarnar as personagens para nelas caber cada leitor sem trauma, e os riscos que isso comporta, aliás claros numa ou noutra crítica, em que se pedia mais - mas esse mais não só não foi querido como prejudicaria a limpeza estética de um narrativa ética.
O João também sabia que a expressão usada n´"A manhã do mundo", "um canalha é um canalha é um canalha", era uma alusão ao poema de Gerturde Stein “Sacred Emily”, “Rose is a rose is a rose is a rose”. Sabia e ensinou quem não sabia.
Depois pôs os livros em diálogo: foi para mim um ponto alto quanto se falou da geometria na literatura. Foi para a página 178 do livro do Afonso e citou a frase notável: “todas as relações são triangulares, mesmo as mais quadradas”. E eu engatei na agitação e li uma passagem sublime do meu livro preferido do Afonso, "O pintor debaixo do lava loiças", que parte da geometria e diz assim (página 21), sobre o jovem pintor Josef Sorz:

"A minha mãe é tão pequena que, vista de longe, parece um pontinho."
 E o Afonso desenha um grande ponto final negro. E continua, na 22:
"e o meu pai é tão alto que, visto de longe, parece uma linha, um risco de lápis."
 E o Afonso desenha um risco de lápis.
"Mas vistos de perto sao como toda a gente, têm braços, pernas, nariz, chapéu."
 E o Afonso desenha um homem e uma mulher com braços, pernas, nariz, chapéu.
 E continua, na 23:
"Quando se querem beijar, demoram muitos dias, pois o meu pai tem de se baixar desde as nuvens até ao chão e isso demora muito, especialmente para quem sofre das costas. A chuva consegue fazê-lo com rapidez, mas não tem costas."
 "Porém, quando eu olho para eles, são quase da mesma altura."
      
Ainda sobre a geometira e o espaço, o João lembrou a ideia da página 187 d'"A manhã..." – as pessoas dentro das cidades; as cidades dentro das pessoas;" e perguntou ao Afonso se as figuras que ele inventa reinventam a geografia onde vivem (neste caso, Alentejo).
Eu contei que nada faz mais falta à escrita do que noções mais aprofundadas de geometria, matemática, ciência.
Disse ainda o João que no livro do Afonso o Alentejo estaria transformado em Jerusalém e lembrou o fime "Good Bye, Lenin”.
Quase a acabar, trouxe a página 143 d'"A manhã" e a ideia de Ortega y Gasset, “Somos o que somos, ou somos a circunstância de nós próprios?”, que eu pus em diálogo com uma pergunta da narradora: "Somos o que não somos, ou somos a circunstância dos outros?"
Para acabar, fui eu que pedi a palavra para trazer uma última perspectiva à (saborosa) discussão:
Se até ali havíamos discutido os nossos livros e a forma como se projectam no fantástico, eu aproveitei a presença na sala da autora de um livro genial, "No tempo das criadas", Inês Brasão, um ensaio que traz ensinamentos a qualquer romancista atento, principalmente na forma precisa, literária, limpa, como a Inês transcreve as conversas que teve com as "criadas", para dar conta da outra perspectiva: aqueles para quem tudo o que é normal para nós é fantástico. Isso via-se nos olhos de todas as criadas de aldeia. Isso vê-se nos olhos de todas as pessoas para quem a nossa própria figura é algo do outro mundo. Obrigado, grande João.
Morales fantástico.

PG-M 2012
fonte da foto
PS: a fotografia  tem uns anos, mas foi escolhida porque me pareceu rara e porque dela consta também o imortal Carlos Pinto Coelho

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