2012-12-09

Monólogo dramatizado de uma velha nua ou a história banal de Ekaterina Savélievna Mostovoi

 Mas depois de toda a nudez sou só a velha a chorar a morte do velho Mikhaíl Sidorovitch Vlássov.
Estou nua.
Estou finalmente nua.
Estou finalmente - literalmente - nua.
Mas também estava nua quando trazia o corpo dos dezassete sob três camadas de roupa e tu me dizias que começava a ficar gorda e que tinha de tirar o bebé ou te oferecias ao camarada Joseph Stalin e me oferecias a mim à desonra.
Serei soldado, Ekaterina Savélievna Mostovoi, serei soldado e nunca voltarei para ti.
Também estava nua quando me recusei e tu, Mikhaíl Sidorovitch Vlássov, partiste para a frente, e nunca me despi para outro até entrares pela porta e arrastares os meus pais para o celeiro e cumprires sobre mim a instrução 0428 vestido com um belo uniforme alemão, tu a explicares ao meu ouvido enquanto me rasgavas por dentro e por fora, "sou o primeiro para te dizer que faço isto por ti", seres o primeiro e fazer isto por mim foi violares-me antes do resto do teu comando de ataque porque eu teria a bênção de ser deixada viva para contar a história que o nosso estimado líder queria que fosse contada. "Fackelmännerbefehl cumprida", informou zelosamente o teu comandante enquanto retirava o membro do meu ventre ensanguentado, "dirás que foste violada por um regimento alemão das Waffen-SS, espalharás a palavra pelas aldeias vizinhas;". Esperava o cabrão que eu fosse dizer à minha própria mãe que os partisanos do teu comando de ataque eram animais alemães quando cada um desses nojentos gemia e me insultava em russo e o garboso comandante lembrava, da porta, que eu devia ser deixada viva?
Também estava nua quando o meu pai me explicou de forma veemente e sem discussão que tu,  Mikhaíl Sidorovitch Vlássov, eras um herói condecorado por bravos actos, aliás como o constante da Fackelmännerbefehl, que tu orgulhosamente exibias - aquele sorriso e aquela tentativa de abraço despiram-me mais três vezes - : Principalmente para aqueles que exterminam povoados atrás das linhas alemãs (em uniforme do oponente), deve sugerir-se condecorações, ora muito bem, pai, Mikhaíl Sidorovitch Vlássov violou-me com o fito exclusivo de que eu perdesse o bebé, teu neto, que ele não queria, ele e um comando de partisanos loucos, e o pai quer obrigar a sua filha a casar com a besta?
E nua outra vez o pai diz
Ele salvou-te, Ekaterina Savélievna Mostovoi, ele salvou-te a vida. Ganha vergonha nessa cara.
Também estava nua quando finalmente o único filho que não mataste nos nasceu sem braços e tu comentaste que razão tinhas tu por desconfiar que eu só paria monstros.
E nua fiquei de cada vez que chegavas a casa mais cedo e, vendo-me dar banho ao menino, perguntavas por que raio não estava o jantar pronto e que as tuas necessidades estavam acima das do monstrinho.
E era nua que me via quando à tua frente mimava o filho que tu nunca reconheceste.
E ainda nua quando regressava a casa enlevada pelas vitórias do menino e tu tinhas sempre um comentário negro.
E mais do que nua, rasgada, outra vez rasgada como no tempo da violação, quando mo tiraste e o partido o entregou aos meus pais, aos meus pais, Mikhaíl Sidorovitch Vlássov, a minha máxima humilhação e tu sabias.
Devia ter morrido, mas limitei-me a envelhecer.
A envelhecer.
A envelhecer.
Até este corpo de pregas aparecer e eu já não ser a menina de dezassete que ouvia, nua,
Ekaterina Savélievna Mostovoi, és sublime como
e nunca terminavas as frases porque não sabias, e eu, nua, imaginava as palavras que nunca lá puseste.
E mesmo quando o nosso filho homem nos visitava e tu pedias para não estar em casa quando ele viesse, esse monstro nem um abraço pode dar, e rias-te, os dentes eram sombras ou punhais, não importa, e eu nua.
Até hoje.
Quando o filho chegou hoje, de surpresa, e se sentou numa posição estranha sobre a mesa da sala de jantar, virado para ti como nunca fizera antes, porque nunca permitias que ele sequer te visse, quando o filho chegou hoje e me pediu que colocasse o concerto para violino de Tchaikovsky no fonógrafo
Mas tem de ser o do Vadim Brodsky, mãe.
Não, nesse disco ninguém toca, retorquiste tu, e eu comovi-me por consentires ao teu filho a existência e o teu filho saber na sua alma que tinha de ser aquele disco.
Na verdade, já não podias lutar por ti, mal te movias, e certamente não o fazias sem ajuda.
Sob o teu ódio móvel e o teu corpo imóvel, fui eu que coloquei a agulha sobre o disco, como se a carne. Não é só disparar. Quem não tem braços, aprende a fazer tudo com os pés. Mas nem sempre disparar, que exige um equilíbrio especial. O filho, ágil de pés e pernas, apontou-te a arma e tu, por não  saberes disso nem o tentares imaginar, respondeste com uma gargalhada. Estavas perdido. Estava achado o teu ridículo. O tiro foi certeiro e tu não te mexeste. A cabeça pendeu, sim, o sangue jorrou, mas tu não te mexeste. O filho saiu sem dizer palavra, os olhos a dizer estás livre, volto breve.
Para todos os efeitos, fomos assaltados com violência.
Eu violada.
Eu nua, velha, finalmente nua sobre ti e um sofrimento largo que não se separa do corpo.
As pregas cheias do teu sangue. O teu sangue por fora.
E eu nua.
Finalmente nua.
Estou finalmente - literalmente - nua.
A dor alaga, o espelho devolve o meu corpo abjecto, as pregas em sangue vivo, o teu sangue vivo, tu morto. Por dentro nada do passado é restaurado, nem eu nem a ilusão de ter dezassete anos e gozar sobre ti em movimentos circulares, a gozar tal como agora, tu sempre disseste que quando eu fazia assim era eu que te fodia e não tu a mim, mas pelos tempos apenas me mandavas para o quarto abrir as pernas e eu nua não.
Punha um sorriso sem lágrimas sobre o corpo.
Não entendo esta dor, este luto sobre ti, dizem que passa, que o corpo se habitua ao que a alma merece.
Ao que eu mereço.
Mas depois de toda a nudez sou só a velha a chorar a morte do velho.
A tua, meu filho da puta.
As lâminas sobre o pulso não são lâminas sobre o pulso.
O filho não compreenderá, quando voltar, se voltar.
Estou nua.
Estou finalmente nua.
Estou finalmente - literalmente - nua.

PG-M 2012
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