2012-12-16

Homens-pássaro com livros


Tempo. Caxias. Espaço. Caxias. Humildade.
António Eduardo Emerson Rui Rodrigo. António outra vez.
Nomes fictícios de alguns heróis que conheci dentro dos muros de um lugar onde os homens são confinados por terem errado uma, duas, muitas vezes.

E vou contar aqui, brevemente, uma história que os responsabilizará para sempre:
de como um homem que reconquista a liberdade entre muros não é livre de a voltar a abjurar.

Eu ia sair da prisão, e de algum modo a liberdade confinada já não importava, os olhos de Rodrigo voavam dali para fora quando me empurrou para a frente o Cosmos, do Carl Sagan, ele sabia o lugar exacto do capítulo sobre universos paralelos.

O Rodrigo ainda me ia ensinar muitas coisas se eu me tivesse demorado um pouco mais.

O António poeta empurrava O Livro do desassossego para o Emerson, o Emerson dizia que sim, grande livro, já leu isto?, sim, a espaços, vushhhhhhhhh, o António poeta é também

um tgv na ala norte.

a Tânia rasgava o pacote de livros novos que eles tinham pedido e alguns tinham gulodice dentro.
Não é coisa que se veja muito fora. Gulodice dentro.
Todos juravam que o texto que tinham prometido escrever estava quase pronto.
Preguiçosos, são uns preguiçosos,
mas eu não via preguiça, via vaidade, vontade de fazer o melhor, receio de entregar pior antes de ser melhor.
O António bilbiotecário tinha-o mesmo escrito, foi elogiado publicamente, estava muito bom.
Estava muito bom, António. Falta-lhe a placa para a dignidade ser um círculo completo e se erguer o seu corpo como um resistente: está ali no frio da biblioteca com um computador que não funciona e o seu silêncio é uma tempestade, muitas tempestades, de palavras, sabedoria, ânsia.

António é bibliotecário, é que António é blbliotecário mesmo, é que isso ninguém lhe tira.

O Emerson leu "A manhã do mundo", o Emerson estava entre as páginas da manhã do mundo, o Emerson pediu desculpa por não ter caído todo para dentro do livro, que ia ter julgamento em Janeiro e só o julgamento de Janeiro lhe passava na alma, que queria reler e ligar partes, está bem Emerson, está bem, tens tempo, Emerson,
mas, Emerson, já alguém te disse da bondade dos teus olhos, de como tens a serenidade dos homens que não vacilam na escolha, que o bem te é inerente?

 O António bilbiotecário e o Emerson tinham lido "A manhã do mundo", o António de forma meticulosa e atenta, o António sabia tudo, eu não, o Emerson com o espaço que a alma deixava, sorria mesmo que não se lhe visse a boca.
O que quer que estes homens tenham feito para estarem presos,

já são muito melhor do que isso,

divergem da rotina da cadeia para ler e ouvir ler, para saber e ouvir dizer o que se sabe,

cada livro é uma janela dali para fora e é preciso não os ter no sítio para lá voltar.
Um homem que experimentou este lugar, e ainda por cima tenha lido neste lugar, já se livrou da sombra há muito, não tem desculpa para voltar.

Há-de lembrar-se lá fora, quando for mais fácil fazer o mal, que já sabe que não, que tudo é mais valoroso, tudo vale mais a pena, todos os sacrifícios são melhores do que um deslize fácil.

Como voltar, Rui, quando no teu sorriso inquieto percebeste que cada homem e cada mulher valem por si?
E o Eduardo, mais calado, a antecipar a festa?
E o Garcia a sustentar a humildade de todos, o Garcia ouvindo, o Garcia ouvindo como poucos sabem.

De pé, de saída, tinha mais dois tipos que me chegavam ao metro e noventa e tal, e disse-lhes logo:
se o mundo acabar no dia vinte e um, volto para liderar a primeira tribo de sobreviventes.
Este quero-os ao lado quando for para reconstruir.
Há muitos fora de muros que podem ficar na toca.
Este quero-os ao lado.
Homens-pássaro com livros.

E aos homenzarrões da prisão de Caxias prometi poemas.


PG-M 2012
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