2012-12-03

Dos advérbios venosos


fez o percurso sem sombra
sem raiva e sem perdição
rigorosamente cinzento
dotado de alinhamento
às quatro patas
snifou uma linha no cume do dia
meticulosamente divertido
cumpriu a loucura
de forma sensata
e replicou-se aos demais

no dealbar da noite
partilhou mesa com marginais
que em sombra e raiva e perdição
são rigorosamente versados
nas sete cores no arco íris
e a desfazer-se na língua
são pesticidas
e tempo

o cavalheiro
vai desculpar:
nenhum desses indivíduos possui
os advérbios venosos
que circulam na frase.
na rua paralela
o poeta escreve a respiração com o sangue dos próprios pulsos
o compositor o equilíbiro dos passos
com o que resta das veias
e o pintor a substância da vida
para dentro dos ventrículos,
e eles, sem querer saber,
eles,
o cinzento e o marginal,
vão ter ponte
em vez de faial

(pós-poema:
o cavalheiro vai desculpar,
está um vento a insinuar-se
na luz da manhã,

tempos houve em que deixávamos alegremente morrer
os nossos poetas, os nossos pintores, os nossos
compositores,
hoje não.

hoje somos meticulosamente atreitos
à arte, e como jornalistas mediamos
a respiração do mundo,
o equilíbrio dos passos,
a substância da vida,

para dentro dos ventrículos
da civilização

discretamente os abraços, tantos abraços, os apoios, tantos apoios

o cavalheiro vai desculpar, há que acudir,
como diria Drumond,
ao parto candente,
é que nasceu,
cavalheiro,
nasceu,
bem no meio das pedras do caminho,
uma flor

é que,
cavalheiro, e apesar de tudo
há sempre um sentido que a razão não alcança,
e, meu caro senhor,
elas nascem

as flores nascem)

PG-M
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