2012-12-26

1884

 
Eu tinha prometido:
leio as dedicatórias dos meninos de Guimarães no dia de natal, madrugada dentro.
O livro fora-me oferecido, em nome de alunos e professores, no final da sessão na Xico da Holanda, e devolvido no mesmo acto:
quero que todos assinem, disse.
E assim foi, andou pelas turmas e foi escrito pelos meninos e devolvido embrulhado de forma maravilhosa por uma arquitecta, e deixado no Teatro da Vilarinha, no Porto, onde professoras da escola vieram ao encontro de um antigo aluno, ora actor, para o seu desempenho em "Metamorfose".
 
Vieram e trouxeram o livro, que eu deixei para ler no mesmo hotel, no mesmo dia, no mesmo lugar e quase à mesma hora em que terminei dois livros, precisamente "A manhã do mundo" e um que, espero, verá a luz em 2013.
Ainda por cima o livro tem esse título: 1884, o ano em que nasceu o meu bisavô escultor  da estátua do leão e da águia, na Boavista, Alves de Sousa, e um ano em que Guimarães disparou para as estrelas, culminando, entre tantos acontecimentos notáveis, com a inauguração da Escola Industrial Francisco de Holanda: a Xico. "1884 - O ano que mudou Guimarães".
 
Não me é possível, uma vez mais, verbalizar com justiça o que sinto.
Vou tentar, mas é difícil escolher a abordagem.
Não é fácil tocar pessoas jovens cuja educação é mediada por dezenas de factores e pessoas. Eu posso sentar-me a ouvir e a ser ouvido por um ancião duas gerações acima da minha, mas isso não funciona assim com jovens entre quinze e dezassete anos, mesmo havendo uma só geração de permeio.
 
Que veias recebem o excesso de sangue que pomos a circular?
 
É muito engraçado como uns me chamam "senhor" e outros directamente "Pedro", outros "autor", outros usam o nome "comercial" completo, e outros ainda - o que mais me tocou - começam por "querido Pedro". Por todos passa, sem excepção, uma incomensurável ternura. Há um rapaz que começa com a frase "o mar sempre me deu respostas". Um que eu aparentemente questionei em plena sessão, quando motivei os colegas a elegerem o "espertalhão" de cada turma, o que podia ser culpado pelas mazelas da personagem "Alice". Qualquer dos escolhidos desceu com coragem e...doçura. E no entanto este rapaz, depois de perorar sobre o mar, remata com a frase "Abraçar alguém sabe bem". Surpreende-me que aqueles três tenham percebido claramente que eram apenas um veículo privilegiado de uma mensagem positiva que eles próprios souberam transportar pelo pudor e respeito com que encararam o acto.
 
Não quero ser exaustivo, mas é importante que todos saibam que li cada linha. Não me escapou uma só. Li os nomes, faltou-me ligá-los às imagens que ainda tenho e saber um pouco mais sobre cada um, algo que só foi possível entre os que se sentaram ao meu lado para terem o livro assinado. No entanto, uma menina - entre tantas, claramente das mais especiais - reteve o conselho "faz o que te apaixona e mais nada".
Passa agora nos meus ouvidos a pergunta do Ray LaMontagne (canção "Are we really through"):
 
"Are you gonna catch me if I fall?"
 
Será um exagero pretendermos que, por hora e meia de encantamento mútuo, os miúdos, muitos já homens e mulheres apenas com um remate por fazer à saída da alfaiataria paterna, saibam que quem lhes falou seria capaz de lhes amparar uma queda, seja pelo que ali se disse e fez, seja literalmente, se as memórias não se apagarem umas às outras e houver a consciência clara do abismo de que lhes falei? Esse que está aí à frente, o que o fará - e nos fez a todos - perder os amigo para sempre.
 
Será um exagero pretendermos que eles nos amparem a nós?
 
Há um menino que todos conhecem na Xico.
Esse menino que já não esteve na sessão e queria ser escritor e dedicou parte da sua curta vida a escrever sobre a doença que o levou, publicando-o num jornal escolar. Há uma passagem de um dos seus textos que é quase insuportável: "(...)Porém, na altura que sei que tenho leucemia e que estou bastante mal, o desespero faz com que eu me abrace ao pescoço da minha mãe e lhe diga que quero morrer....)". Eu, sem saber, estive em Guimarães por ele. Sei bem que, se o tivesse conhecido, teríamos ficado amigos e arranjado tempo para estarmos, apenas estarmos, juntos. Eu fui a Guimarães e falei da forma que falei porque era tudo o que desejava quando era da idade deles, quisesse ou não ser escritor. Estive muito atento à eventualidade de, entre eles, haver quem tivesse esse sonho ou desejo. Tentei, até aos limites do espaço que me estava reservado e me foi concedido, que todos e todas percebessem que a minha disponibilidade era efectiva, e que através de mim nenhuma dúvida, nenhuma ânsia, nenhum medo, ficaria por responder.
 
E sempre disse que considero a deles a mais dura idade da vida.
Sendo pessoas quase completas, são também pessoas dependentes com todas as possibilidades da vida em aberto e nenhuma cumprida, e isso pode ser extremamente confuso. Ter escolhido, mesmo que mal, como nós, situa-nos, dá-nos rumo, e muitos deles estão ainda à deriva e é muito importante que lhes expliquemos que sabemos ouvir, que somos capazes de os ouvir.
 
Os mais inteligentes são de tal forma puros no raciocínio que nos podem ensinar tanto, tanto, pelo menos podem ensinar-nos a reaprender o que é a vida sem o cinismo da impossibilidade fáctica.
 
Gosto que tenha passado para eles o conceito da simplicidade (é das palavras mais usadas).
E se passou a sabedoria, é por eu ser sabedor disso: que nada sou, nada sei.
Gosto que se espantem que eu tenha ido a troco de nada e vindo repleto de gratidão.
Que seja pelo menos uma lição aos que vão vivendo a vida de veste leve sobre pele fria, alheios aos outros, desconfiados, pessimistas, dar amor não é um risco e, mesmo que seja, pelo bem sempre se resiste.
 
Apetecia-me, mas não vou, nomeá-los.
E mesmo que possa haver textos mais inspirados do que outros, também não vou premiá-los.
 
Sobra a felicidade de ter sido possível, falando para quase oitenta pessoas, falar para cada uma delas, para a menina diferente e para o menino que, não contemplando, consegue sair do próprio mundo e perceber os seus limites.
 
Obrigado a todos, obrigado "stôras", obrigado Xico.
Em 2013 volto. Pelo Pinheiro. :)
 
PG-M 2012
 
 
 
 
 

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