2012-11-28

O presunçoso

Disculpa os erros, papai. Prumeto mais cuidado nessa carta.
CPO é Centro Paulista de Oncologia, papai. Pensei que sabia.
Cê não imagina o que ontem passou em mim.
Cê sabe como aquilo é gigante pra c. E eu tenho de deixar mamãe sozinha em todas as salas de espera.
É pra registrar logo que chego. É pra tirar senha da colheita. É pra entregar o cartão antes da consulta de onco...pera, com'é? onco-ematolo...pera, deixa ver. Onco-hematologia, é isso. E depois a consulta demora sempre pra c., papai. E vai entrar dentro da hora da injeção, aquela que mamãe tá lá dentro duas horas, papai, e se atrasa perde a poltrona dela e tá tudo f. Disculpa, papai, mas é assim mesmo.
Mas ontem, papai, ontem cê não imagina o que passou em mim.
Mamãe está melhor, ou menos mal, como prefira.
Não é verdade que eu tenha sentido uma alegria tão grande assim. Eu desconfio do bicho, papai. Não vou sambar antes que os caras deiam o passaporte para fora de lá à mamãe. De lá do CPO, papai.
Mas ontem eu caminhava em todos os corredores e em todos os quilómetros dos corredores, papai, e todos mesmo, mas é que todos, papai, me mostravam os dentes. Sorriam, papai. Todos, papai.
Uma mulher até mais, porque mamãe tinha esquecido da pochete na sala da consulta e eu fui pra trás buscar e vim sozinho de pochete no corredor grande, aquele que eu tinha falado a você que era só luz e vidro e uma mulher bonita sorriu mas depois olhou para a pochete e depois para mim outra vez e ficou séria, papai. Eu ri muito alto, aí, é normal, né?, e dizem que aquele não é lugar de rir, mas, papai, acabei por preguntar a um home barbudo o que eu tinha na cara, ou se ele estava vendo minhas asas de anjo ou quê. Então ele riu comigo e respondeu:
- Não seja presunçoso, rapaz.
Mas o que sucede é que eu vi mais tarde, numa porta de vidro que mostrava a mim, que não tinha asa nenhuma à vista.
Porque eu uso sempre suéter e no verão as pena tão curta, papai.

Seu filho,

Rafael

PG-M 2012

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