2012-11-18

Não são palavras

Hoje não há. Porque as palavras que procuro têm de ser tudo. Fundas, claras, leves, negras. Para lhe dizer que não há felicidade que não pese nem tristeza que não voe. E que não é pela beleza, nem pela bondade, nem pelo cheiro, nem pelos olhos. E que estou aqui perante a mesa com os veios com os olhos secos desde a ameaça da noite e na indefinição da madrugada. Que pareço frio mas me desfaço. Que estou sem forma e porém de pedra. Os meus lábios grossos em carne viva. Selados. A garganta seca, húmida. Como um sorriso e um choro. Frio, fome, certeza, calor. Nunca serviria um abraço. O esmagamento do esterno. Mas os olhos. Que me olhem para o fundo dos olhos e se deixem olhar pelo lapso de tempo e silêncio que duas pessoas demoram a ser camadas uma da outra, a estar dentro e entre, queijo, fiambre, pão. Que não se convoque corpo, sexo, desejo, fome, sede, nada. Só a - ah, não vou dizer. Não vou dizer alma. Só a alma. Já ouvi a Silvia Pérez Cruz e o Caetano Veloso ascenderem assim, virgem santíssima, e ninguém se queixa: "jura que una paloma no es otra cosa mas que su alma". Então que não se convoque o corpo nem a alma mas um animal, uma espécie nova, como se outra carne nascesse dessa troca de olhares. Sim, quando duas pessoas se entendem para lá de qualquer ideia ou pulsão, quando chegam a ser endógenas uma à outra, inventam outra vida. É verdade que já vi fazer isso sem olhar. A palma de uma mão nas costas de outra. Houve, afinal? Se houve afinal palavras? Não. Não são palavras.

PG-M 2012

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