2012-11-24

Este filme é um poema é um filme é um poema


E é urgente.
"Detachment" (o título português, "O substituto", com todo o respeito que tenho pelos senhores que têm este trabalho, mata, suga todo o assombro deste filme) porque Camus escreveu algo como:

"And never have I felt so deeply at one 
and the same time so detached from myself 
and so present in the world."

Claro que o cinema é feito por e para pessoas.
Claro que o cinema não é feito por e para bestas titânicas sobre-humanas portadores de "cahiers" plastificados.
Não que levar cadernos e plastificá-los seja mau em si. Mas o que tenho visto escrito sobre um dos filmes mais poderosos, arrebatadores, perfeitos, do nosso tempo é - toda a subjectividade à parte - conversa de meninos que pouco mais devem fazer do que ouvir, já nem digo lados B, mas lados da condição humana - e do seu próprio tempo - que não existem. Dar nota negativa ao filme e dizer que este poema é "monótono", como o New York Post, que antes escrevera que a dedicação do realizador ao material é admirável, é um qualquer sinalagma mal resolvido com o próprio espelho.
Monótono????
Não é por ter meros 97 minutos que deixaria de o ser, mas, vamos lá entender-nos:
a única coisa que pode acontecer a uma pessoa exigente e atenta ao mundo que o rodeia é sufocar a cada passo do filme, sufocar de comoção, e se o filme é o tal poema negro e pessimista, vão por mim: no final, vão ficar esmagados contra as cadeiras durante alguns minutos. Vão ficar a pensar que acabaram de vos mostrar o vosso mundo, hoje, e que se ainda não acordaram para ele pode bem ser este o momento.
Por causa de um filme?
Por causa de um filme, sim.
Por causa de um filme           sempre!
O filme nem sequer é lamechas em cada problema que trata, bem pelo contrário, ou não se chamaria "Detachment". E parece tratar quase todos os problemas de todas as nossas vidas. E mesmo o parágrafo de Poe, o que encerra o filme, não é o mais óbvio para um filme americano. Nem a forma como se explica a razão pela qual é fundamental ler livros, e porque é que a imagem e o som servidos em bandeja aos nossos filhos também os estão a deixar sem estrutura. Expressam-se emoções com um clique.
E, apesar de tudo, o movimento do filme não é a pele a descolar, to detach, mas a recolar.
Do negro para o branco.
O drama, a tragédia, a tristeza, é a que nos rodeia todos os dias.
Os nossos velhos e os que viremos a ser e a dignidade equilibrista.
Minimalista, propositadamente minimalista, a abordar a questão escolar (veja-se a improvável, mas necessária, cena da recepção aos pais), simbólico (so what? é curioso como o simbolismo extremo pode aparecer no realismo extremo: o abraço por dar a Meredith, que lhe define o destino e nos faz tomar a todos uma decisão: nunca deixarei de abraçar pelo que pode parecer ou pelo que possam pensar), encantador (o que mais se pode dizer da relação com Erica?), cínico (toda a personagem de James Caan, que no entanto é a personificação da bondade: afinal, os bondosos de hoje são cínicos? São. Somos?), derrotista (a directora, que se rende, mesmo vítima de injustiça), lúcido (quando a personagem de Lucy Liu passa dos limites, ficamos esmagados com a crueza da verdade exposta) e claro.

Claro.
A clareza é transportada nos olhos - claros - de Adrien Brody, o tal homem "feio" que todos querem para transportar a sua mensagem - de marcas a cineastas - porque ele é o mais bonito de todos a transmiti-la.
Não preciso de puxar dos galões, não preciso de lembrar que vejo filmes no cinema, todas as semanas, e ininterruptamente, há quase trinta anos. Nem de bater nos críticos e na crítica, que tão necessária é. Mas reafirmo que nem toda a crítica é precisa cá na Terra. Porque não me restam dúvidas de que este é um dos melhor filmes que alguma vez vi, e que talvez seja o mais pungente a arrebatador relato dos nossos tempos, quase insuportável para professores. Seria perturbante para muitos pais, mas esses, os ausentes, não vão ao cinema nem lêem Camus ou Poe.

Este filme fica como marca subcutânea, provavelmente supra, e digo-o pela forma como os corpos iam saindo da sala, as mãos sobre os esternos, o silêncio.
Desde "O túmulo dos pirilampos" que nada me marcava assim.
Perdê-lo é ser menos do que é possível ser-se.
Este filme é um poema é um filme é um poema.
E é urgente.

PG-M 2012

PS: o vídeo cuja ligação a seguir se deixa contém spoilers e só deve ser visto pelos que já viram o filme ou não o pretendem ver: http://youtu.be/_eh_eZ9a_Xs

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