2012-11-30

A viagem d'a manhã do mundo' segundo a Profª Rosário Ferrreira

Dez inspirados minutos da Profª Rosário Ferreira, sábia docente de português na Xico d'Holanda, em Guimarães - eu ia dizer que me honrou a mim, mas a verdade é que honra toda a literatura, em particular toda a literatura portuguesa. Lá, disse a verdade: foi a mais bela apresentação de que o livro "A manhã do mundo" foi alvo. Obrigado.

 "Nascido no Porto no Verão de 1969, chegou com 7 anos às mãos da professora Laura sem saber fazer contas de dividir; ela ensinou-o e ele pagou-lhe com uma fábula. Aos 11, entre rapazes de 16 e 17, empatou o primeiro lugar dos jogos florais da escola com um rapaz de 12, hoje um conhecido político. Aos 13, perdeu para o mesmo menino, mas levou o 2.º e o 3.º prémios. Aos 16, ganhou (finalmente sozinho), porque o menino político entrou na Universidade. No ano seguinte entrou ele, na de Coimbra, e andou com Torga no trólei 3, mas nunca se falaram. (...)"

"Depois desta breve apresentação, apetece-me citar Saramago: «pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor».
Na verdade, depois de pensar onde aprender “mais coisas” sobre Pedro Guilherme Moreira, pensei: “No seu livro”. E encetei esta viagem de descoberta da “pessoa invisível mas omnipresente que é o autor”.
Nunca estive em NY mas já fui muitas vezes a NY, conheço a Big Apple de Upper East Side até Lower East Side – passando por China Town e Little Italia, do Bronx a Brooklin, passando por Queens:

  • Hepburn levou-me a tomar o pequeno almoço na Tiffany
  • Siantra cantou-me: “I wanna to wake up in that city That doesn't sleep”
  • Simon e Garfunkle levaram-me a Central Park. Barbra Streisand à Brodway
Depois entrei pelos meandros do suspense, do crime, dos bairros “menos próprios”:

  • Daniel J. Travanti a. k. a. capitão Furillo levou-me à esquadra de Hill Street
  • Michel Pfeifer mostrou-me as “mentes perigosas” da periferia afro-americana e latina
  • Gary Sinise, na pele do detetive Mac Taylor, levou-me a descobrir assassinos pelas margens do Hudson
  • Acabei em Manhattan a comprar sapatos com Carrie, a apaixonar-me com a Samantha, a passear pelos apartamentos de luxo com a Charlote ou a pugnar de forma intensa nas barras dos tribunais com a irónica Miranda.
Porém, nunca tinha ido a NY com um guia português, nunca tinha reparado que, nos momentos de verdadeiras vertigens, “os homens é que sobem amedrontados e as mulheres empolgadas”. E encontrei, finalmente, um olhar português sobre o 11 de Setembro. A mão de Pedro deu voz
- ao fado de Amália, desenhado no destino de um semáforo, mas também ao de Adriano Correia de Oliveira no grito de liberdade de Alice, ou ao de Zeca Afonso quando se cantam amores, não do choupal mas de central park;
- ao mar trágico de Camões e Raul Brandão que sepultou os milhares sob as ondas das torres gémeas, mas também o “mar salgado” de Pessoa, nas lágrimas de Ayda – eterna escrava que chora a sua Babilónia perdida – ou de Alice – que foge, foge da rainha de copas que lhe grita: “És sobredotada”.
Deu voz ao nosso sol claro e límpido – não ao sol turvo que os escombros queriam esconder – mas àquele que inunda o apartamento de Darius e conforta o sono de Stanley
- ao amor trágico de Bernardim, na imagem não do rouxinol, mas do beija flor que, por causa de um “embrulho manhoso” se arriscou a nunca mais voltar à casa de chá com paredes forradas a papel acetinado. Ao amor menos legítimo de Eça que destina os amantes à morte porque um se perdeu por uns olhos verdes e o outro por um cozinheiro que aspirava a ser chef.
A mão de Pedro deu, ainda, voz
- à força de Ourique, de Aljubarrota, do 1º de Dezembro, do 5 de Outubro ou do 25 de Abril, que resistiu ao opressor: na imagem de Darius que resiste ao cheque de 6 dígitos para vencer a batalha do filho; nos olhos de Teresa que resiste ao adultério em prol da amizade; na força de Ayda que resiste ao destino para salvar destinos.
A mão de Pedro fez-me embarcar num sebastianismo que espera num milagre em manhã de nevoeiro de cimento, ferro e vidro, quando nos deixa a prever a morte das personagens mas a esperar que todas consigam, afinal, chegar ao elevador.
Depois virei a página e já era “o dia que Ayda pensava ser 12 de setembro de 2001. E das páginas do livro soltaram-se notas, compassos, pautas inteiras que teimavam em calar os gritos de dor e os espasmos de raiva: acordei com Lopes Graça; ouvi o coro dos escravos de Verdi, o Pedro e o Lobo de Prokoviev… e depois um interlúdio de Taikovsky quando Romeu e Julieta (entenda-se Darius e Teresa) celebram o seu amor, afinal tão tragicamente possível. Entretanto soavam-me ao ouvido as palavras de Eugénio de Andrade: Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio.  
A mão lúcida, clara e objetiva de Pedro
- levou-me a ler o que as letras a negrito dos títulos da imprensa ávida de lágrima escondia
- levou-me a ver os esgares de dor ou alívio dos que se atiraram das janelas e que as objetivas não quiseram contar porque cortava o drama da lágrima alheia
- levou-me a perceber a realidade, a humanidade de uma coisa que me parece, ainda hoje, saído de um qualquer filme de Oliver Stone ou até mesmo de Steve Spielberg.
- levou-me a olhar com olhos claros mas sentidos de uma portuguesa mediterrânica, o que o umbigo da imprensa me mostrava com olhos políticos de americanos pacífico atlânticos.
Pedro Guilherme Moreira podia não saber fazer contas de dividir, mas soube multiplicar o seu dom de contar a História com sabor a história, de somar os factos da História à brisa da ficção, de subtrair os olhares uniformes deste facto, fracionando-os em vários avos de diferentes olhares.
Comecei citando Saramago e termino parafraseando Pessoa a propósito de Mr. Pickwik: as vítimas do 11 de setembro são figuras sagradas da história mundial. Por favor, não se alegue que Darius, Ayda, Teresa, Stanley, Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon nunca existiram: o mesmo acontece com a maioria das figuras sagradas do mundo, e isso não as impediu de serem uma presença viva para um vasto número de réprobos consolados. Logo, se um místico pode alegar um relacionamento pessoal e uma visão nítida de Cristo, um ser humano pode alegar um relacionamento pessoal e uma visão nítida de Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon."

Rosário Ferreira, Gumarães, 29 de Novembro de 2012


Ilustração de Gaylord Schanilec, retirada daqui

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