2012-11-14

A estratégia comercial do sofrimento

No pátio do bolhão havia uma cara nova de mão estendida. Para ele importava pouco. Saiu do carro e ajustou o nó da gravata determinado a ignorá-la. Fazia sempre assim quando a garagem onde tinha avença estava fechada. Tinha de ser rápido, que o lugar não era dos mais recomendáveis à noite. Ia jantar à Cunha, estava com a ideia do bufê, o pessoal já tinha ligado há vinte minutos a confirmar que havia mesa, e a miúda, suja e com aparência de pouco mais de treze, chegou-se a ele depois de se levantar do cartão resguardado na antiga bomba de gasolina onde, por aquela hora, já se tinha recolhido. Não pediu a moeda. Limitou-se a confrontá-lo assim:
- O meu pai fode-me duas vezes.
Já não deu tempo de se confortar com a ideia do costume. Que ele é que tinha arranjado o lugar. Que ele é que ia perder duzentos euros no ordenado por causa da austeridade. Que ele é que trabalhava, essas romenas que fossem trabalhar também.
- O meu pai fode-me duas vezes. Eu fujo, ele encontra-me, bate-me, ameaça-me, obriga-me a vir para a rua pedir.
Isso não são duas vezes, pensou. É genericamente uma, é tudo para o mesmo fim. A rampa para sair daquele lugar não permite grande velocidade. Não consegue distanciar-se.
- E depois fode-me mesmo, viola-me e obriga-me a foder com outros e cobra.
Já não contou a segunda. Sentiu um calafrio a percorrer-lhe os ossos e as pernas a falhar. É da fome, pensou. É fraqueza. Segurou-se à parede. Ela tocou-lhe no braço.
- Não me toques, foda-se. - foi duplamente ignóbil. Naquele contexto, só se trata por tu alguém que não se quer ver.
- Isto é mesmo verdade. Mesmo verdade.
A miúda continuava a não pedir nada. Pensou que a estratégia era brilhante, ele nunca tinha vacilado assim antes, e ali estava apoiado à parede de um túnel sem luz com uma romena inútil a assediá-lo. Provavelmente estava prestes a avançar um gangue para o manietar. Não sentiu medo, sentiu raiva. Ela voltou a tocar-lhe no braço, ele empurrou-a, ela caiu, ele recomeçou a subir - a culpa, contudo, voltou a travá-lo.
- Volta para a tua terra, foda-se.
A romena disse que não era romena, que se recusava a chorar, que ele não pensasse que a fodia a terceira vez.
- O que é que tu queres, caralho?
- Nada.
- Como nada?
- Ele apanha-me sempre, tenho doze anos, ninguém me dá trabalho, venho para a rua, ele apanha-me sempre. E quando me apanha fode-me duas vezes. Eu conto esta história para comer, mas é tudo verdade. E ele vai apanhar-me aqui outra vez.
Ele, a pensar no bufê da Cunha, era advogado. E como advogado já tinha sentido os olhares de compaixão de juízes, funcionários e tradutores quando raparigas bonitas de leste contam histórias mirabolantes na barra do tribunal, depois de, por lapso, saírem do El Corte Inglés de Gaia com roupas que não pagaram Sôtor, sôtor, não se pode desfazer com esta gente. Sôtor, sôtor. Ele já tinha uns aninhos daquilo, mas sentia-se sempre envergonhado. É assim, sôtor, nunca contam a verdade. Pois, estão tipificados, são seres humanos filhos da puta e ponto final. Ele virou as costas à miúda que dormia no cartão sob a antiga estação de serviço do pátio do bolhão e tentou acelerar. Ela levantou-se, cuspiu-lhe nas costas sem lhe acertar. Estava explicado. Era mentira porque tinha sido mal educada. Ponto final. Grandessíssima filha da puta. O bufê estava bom. Quando se foi embora, às duas da manhã, o cartão arquejava e já não houve perigo. Ponto final.

Nota: a miúda desapareceu no dia seguinte e nunca mais voltou. Não resultou - a estratégia comercial do sofrimento. Pensou ele. No entanto, a única razão desta história banal estar aqui foi um facto confirmado mais tarde pelo polícia de giro daquele quarteirão. Essa miúda foi encontrada morta. Era ela. Tenho a certeza, sôtor. Nunca nenhum habitante da bomba de gasolina do pátio do bolhão tinha morrido antes. Nem depois. O barbudo que lá viveu mais tempo, que se saiba, o mesmo que lhe dava cabo do carro por não receber moeda, não morreu de frio nem morreu ali. Morreu de overdose na zona da Rua de Ceuta. A miúda diz que estava azul. Diz que foi hipotermia. Também era Dezembro, sôtor. É verdade. O jantar foi na antevéspera de natal, tem razão. Pois, sôtor. Quem se esquece disso? De uma miúda azul aparecida morta na véspera de natal? Ele acabou por pensar, ainda que com uma certa tristeza no coração, que tinha tido sorte por não o terem acusado de nada. Adagio for strings. Fade out.

PG-M 2012
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