2012-11-14

A angústia do artista antes do penálti


Já o artista sabe que a expectativa é o diabo.
Nisto novidade nenhuma: a primeira paragem do "Dom Quixote" deve ser o prefácio que lhe faz o próprio Cervantes - se o lermos sabemos que nada do que nos rodeia é novidade ou acidente, que há certas dúvidas e lamentos que duram desde o princípio da existência: a arte rupestre teria os seus próprios demónios.
Melhor dizendo: o artista que é artista e o veste por dentro e por fora, sabe bem que o grande satã é a esperança de ser entendido e estimado e reconhecido.
Mas é que não é fácil que o artista treine a alma e o corpo para o despojamento total dos factores alheios à sua arte. Muitos entenderam-no bem e a tempo e ainda assim morreram na miséria. Às vezes é uma opção, as mais das vezes uma inevitabilidade. O verdadeiro artista não sabe viver senão dentro da sua arte, e no entanto tem, quase sempre e principalmente nestes tempos, de praticar outras para ter pão na mesa. Há inclusive artistas que, entendendo-o, não resistem em reinar, teimosamente, sobre todos os outros no seu tempo de vida. Não se fala do reino póstumo e inevitável do génio. Fala-se do reino forçado e imposto do nu, do excrescente.
Sabemos que em todas as artes e entre todos os artistas se misturam verdadeiros autistas, elementos que nem sequer têm de viver no meio em permanência - mas teimam em fazê-lo, visitando e revisitando teimosamente cada movimento dos seus pares. Também há autistas entre os que vivem no e do meio de forma profissional: os que, podendo fazer o esforço para manter a cabeça à tona - não acima de ninguém, mas por cima do marasmo -, se deixam imersos e se perdem numa teia de lamentos sem nunca voltarem para si e para o seu meio um olhar crítico (ou vendo-o e ouvindo-o fora).
Finalmente, os meios de formatação da consciência das massa, vulgo "media" ou mídia ou média, que podiam ser a razão de ser de uma descolagem para a visibilidade da arte e portanto do lamaçal, assumem-se como mera consequência do mundo que os rodeia. Mera cobardia, isso sim. Não funciona: nada está imune. Ninguém está imune. Uma frase tirada de contexto cria um vírus de ódio onde a sensatez fica sempre afogada. Há piquetes permanentes nas redes sociais, piquetes que clamam os direitos fundamentais enquanto enterram os que lhes são acessórios.
A angústia do artista é a consequência natural de toda a arte ser diferida. É produzida em solidão, e, embora possa (deva, em quase todos os casos) integrar o seu próprio público potencial (pode ser legítimo o artista eremita, mas é certamente um caminho mais fácil do que se dar aos que dele desfrutam), é um diálogo necessariamente surdo e atemporal. A resposta pode nunca vir, pode vir dez anos mais tarde, cinquenta, um século, um milénio. Não pode o artista esperar que o ponham em directo.
O único esforço do artista deve ser - se quiser, e apenas se quiser - a escolha de um moderador e de um mediador competente e dedicado. O editor, por exemplo, no caso da literatura. E é nos ombros deste que recai a tarefa - tantas vezes terrível - de dar a oportunidade de os próprios contemporâneos do artista exigirem a sua arte no presente.
Muitos destes movimentos assumem direcções opostas, são quase incoerentes uns com os outros, e trazem a incoerência para o discurso associado a qualquer arte. Voltamos a Cervantes, que o disse. O artista que, na sua arte, deve esperar nada. E só estará em paz quando sentir que cumpre o seu dever produzindo e deixando a outros, ou ao tempo, o conhecimento.
Uma coisa é certa: todo o reconhecimento, todo o prémio, é externo à obra de arte.
Como o é todo o esquecimento.
E se a lembrança pode ser sintoma do génio, não o faz.

PG-M 2012
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