2012-10-28

Será um domingo épico (Paulas)

Mas imagina que não está livre.
Imagina que ainda não está livre por dentro.
Imagina só por um momento. Cria comigo a Paula. A Paula é uma executiva bonita que nos seus melhores dias arrasa no saia casaco azul marinho sempre sapatos de salto alto e meia de vidro e perfume e um traço subtil de rímel e sombra lilás. E sombra lilás. E sombra lilás. Sorriso vermelho. Dentes brancos. Dentes branquíssimos. Leveza. Pose. A Paula é livre? A Paula é livre e todos os domingos da Paula são sublimes. A Paula não é o tipo de pessoa que se agarra ao guardanapo do almoço para que a conversa que se esvai não se apague. Se esse tipo de pessoa se levanta da mesa é porque o domingo dobrou e amanhã é dia de trabalho e não há mais nada a reter da vida do que respiração. Suspender a respiração até que haja sábado. Ou pelo menos quinta-feira e o sábado apto a ser tocado. Já sabemos dos que nem esse tocam. Alguns nem o domingo. Mas não podemos aprisionar todos cá dentro. Será um domingo épico. O único problema que temos para resolver é o das pessoas que não são livres. Quer dizer, elas dizem que são livres, erguem as mãos e agarram um limão de liberdade que se vai descascando para a limonada dos outros, descascando e decompondo, descascando e decompondo, descascando e decompondo. Mas mesmo a Paula. Será a Paula mesmo livre? Olha como comecei a escrever isto e fui lapidando. Para ela será sempre um domingo épico. Volto atrás. Delapido. Delapido tudo na palavra muito. "Muito".

"A Paula é uma executiva muito bonita que nos seus melhores dias arrasa no saia casaco muito azul muito marinho sempre sapatos de salto muito alto e meia de muito vidro de muito perfume e estilhaços de rímel e sombra lilás desde o sorriso vermelho." Chega. Está bem, "muito" e "estilhaços", uma sombra como consequência de um sorriso. Subitamente a Paula é uma mulher destruída, hiperbólica, não é bem uma executiva bonita, é pivô num canal noticioso do cabo. Faz os dias úteis às oito da noite. Apesar de ser um canal de cabo, a Paula é vista por centenas de milhares. A Paula é muito bonita. Melhor: a Paula parece muito bonita. E, como qualquer pivô, provoca uma quantidade considerável de patologias nos que a vêem esfíngica e profissional e se aproximam dela no facebook para lhe partir a cerâmica do corpo e serem íntimos à força. O síndrome de Estocolmo: alguns cientistas loucos advogam que a austeridade faz do telespectador uma vítima às mãos do pivô e que a maioria dos espectadores devem acorrer a um especialista para se tratarem. Os sintomas são o amor. Se sente amor pelo pivô que lhe dá as más notícias, deve consultar um médico.
Tu e eu criámos a Paula porque não sabemos se lavar casas de banho é pior do que ser pivô (como é que se chamava a outra, a das casas de banho?), porquanto a Paula tem de parecer, essencialmente e a todas as horas úteis, imaculada. Perfeita. Não há pior do que se ir dobrando para o trabalho e ter de se parecer perfeito. Mas esta Paula "muito" Paula representa todos os presidiários de domingo. Que vamos agora libertar.

Chefes sádicos, colegas malévolos, paper cuts, traidores, agrafos, sonsos, três horas de transportes públicos, duas de pára-arranca, manhãs frias, clips, manhãs de chuva, prazos, relatórios impossíveis, falências, despedimentos colectivos, fracos, pequenos, nada. Nada.

Nada bate a dignidade com que a Paula se deposita nas mãos da maquilhadora e lhas agarra até que as  próprias lágrimas se expandam para dentro da almofada de blush e a façam inchar. A Paula quer estar no lugar da lavadora das casas de banho de um estádio de futebol abandonado numa manhã gelada de segunda-feira. A Paula sabe que ela não grita, só verga, mas ela gritaria. A lavadora das casas de banho (foge-nos o nome) queria estar no lugar da Paula e, se estivesse, não tocaria nas mãos da maquilhadora. Limitar-se-ia a sorrir pelo seu reinado breve. Não é impossível que o segredo de um domingo épico possa estar na nossa pele dentro da pele dos outros, como é ensinado por filosofias e religiões desde sempre. A velhinha que se cola à janela de uma casa pobre na parte pedonal da praia de Armação, em frente à pizzaria, e olha fixamente os que comem e os que passam, não tem dias. Não tem domingos. Nem segundas. Tem o tempo que não passa e a janela. Não é forçoso que a solidão a tolha. Nenhuma infelicidade é uma consequência necessária da aparência. Como nenhuma felicidade é uma consequência necessária da aparência.

A Paula beija agora as mãos da maquilhadora a quem nunca mostrara o sorriso.
Aspirará a coisas simples como ser velha contra uma janela numa casa pobre de uma praia no inverno a ver ninguém. Claro que as vizinhas gastam as soleiras das portas da vila. Ou isso ou o rímel estilhaça. Hoje talvez não, mas o próximo. O próximo, navegado à vista, será um domingo épico.

A maquilhadora pergunta à lavadora de casas de banho como se chama. Ela não lhe responde nem lhe toca nas mãos. Claro que tem o mesmo nome que não nos falhou na pivô que às primeiras horas de segunda-feira entrará numa casa de banho de um estádio de futebol vazio e gritará. Paula.

PG-M 2012

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