2012-10-17

Porch (o modo americano)


Regresso ao amplo alpendre de madeira para fumar um narguilé ou uma cigarrilha ou qualquer coisa que um velho cowboy americano fumasse. O terreno perto da casa é seco. Há um pequeno bosque a separar-me da estrada. Os fumos são comestíveis. O da minha cigarrilha e o das árvores que o velho que eu sou tem a certeza de se moverem todas as noites de outono, de se encolherem todas as noites de inverno, de abrandarem na primavera e de pararem no verão. O fumo é o segredo do bosque. Fica entre copas. Com um sopro, levanto a tempestade. É fim de tarde e no interior da velha casa acende-se uma luz. A tinta branca estala sob os meus dedos. No meu modo americano não há mulheres visíveis, a não ser aquela luz da casa ao fim da tarde. Às vezes dedilho as duas cordas que restam na guitarra e lastimo uma canção do oeste com a voz côncava que o tabaco me devolveu. O canto fica distante da estrada onde vão parando amigos que não sabem que sou eu. Há lágrimas moucas. Identidade. O fumo comestível dissipa-se nos braços do arvoredo. O do meu charuto encobre-me a cara. Estrelas enfim. A luz no centro até depois do jantar. Ninguém sai da estrada. Ninguém vem. Antes de me deitar ainda volto ao alpendre para cheirar o tempo. Estendo os braços com a palma das mãos voltada para cima. O mundo pousa. A última passa nunca chega ao fim.

PG-M 2012

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