2012-10-07

Os anjos da asprela

Os anjos que eu conheço fumam, almoçam em tascas, bebem vinho, ouvem música alto e cheiram, têm sexo, às vezes connosco, e até são maus em partes desimportantes do dia. Mas quando toca a estarem presentes porque se te vai a vida - estão. Nos escassos momentos em que vivem as próprias existências podem ser copy-paste, mirrar para dentro de ecrãs e estar desatentos, dizer e tipo, até fumar umas ganzas e beber umas minis, mas quando toca a estarem presentes porque se te vai a vida - não só estão como transcendem o que lhes pedes. É até comum que, quando se lhes pergunta se viram uma ou outra coisa ou se sabem isto e aquilo, possam ser ignorantes como nós, mas tenho para mim que tal acontece porque nunca estão em si, mas em ti e nos outros como tu, porque quando se nos vai a vida não há tempo, ou, se há, as horas tomam desoras e é preciso quem ande lá por cima. É preciso quem voe. Hoje sabes muito bem. Sabes que são mais importantes os que te seguram a mão e ouvem - e, verdade seja dita, se os anjos da asprela fossem, além de bons, cultos - ou os que o são - e tu os conhecesses, morrerias de enlevo. E não do que eras para ter morrido e eles, com o seu sopro, cuidaram que se extinguisse como a chama das velas que agora espalhas pela casa em nome deles. Sabes que eu não gosto nada disso. Já bastam anjos que fumam.

PG-M 2012

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