2012-10-28

Lágrimas, Escritaria, Ais, Porto, Lágrimas, S.Bento

Pergunta o pai de Lobo Antunes à doente terminal:
"Como é que a senhora ainda consegue (continuar com a sua vida, normal)?"
Responde a senhora:
"A lágrimas e ais."
Lobo Antunes diz que é a mais bela definição de sofrimento que já ouviu.
Cada vez choro menos, hoje chorei duas vezes - a culpa será do teatro.
A primeira vez estava em Penafiel perante um dos mestres, António Lobo Antunes, ali, a meio metro, sentindo-lhe parabolicamente a respiração (como bem disse a Fátima Campos Ferreira numa das intervenções, e eu entremeei parábola) a que não devoto senão uma admiração crítica que se transforma amiúde em comoção, não sei porquê. Nem sei se ele se pôs, se é posto ou se é, mas está realmente muito alto, muito para lá do que é tangível, tanto que até eu, que não tenho vergonha na cara, nunca estive sequer perto de lhe dirigir a palavra - o Mário Crespo disse, também ali, que "mete medo entrevistá-lo", "mete medo lê-lo", eu digo que mete medo ponto final. Como é o aforismo que eu arranjei à força só para mim? Saramago desbravou-me o parágrafo, Lobo Antunes a página, Pessoa o sentido. É isso. Pois antes de fuçar em todo o Lobo Antunes eu não sabia resolver a página, é tão simples quanto isto. Já Saramago me ajudara a deslindar o parágrafo. Eu junto os dois, tenham paciência, e tenho uma raiva imensa que um tenha morrido antes que se desse a minha utopia de uma mesa literária onde ambos, ainda que friamente, se sentassem lado a lado para cumprir Portugal. Ontem era a minha quarta Escritaria e não é novidade que é um raro encontro literário porque se dá horizontalmente no meio de cubos de palavras do homenageado que são roubados da rua pelos transeuntes. Quer dizer, não é costume um roubo tão descarado como o que aconteceu ontem, mas rolou a bola de neve quanto uns começaram a ver os outros com cubos de palavras na mão. É melhor que os ladrões tenham em casa cubos de palavras em vez de nada. Em Penafiel vi Saramago, Agustina, Mia e agora Lobo Antunes. Muitas histórias, muita emoção, muito conhecimento, Veiga, Alzira Seixo, Blanco, Love, uma história pela boca do António para mostrar como é grande Eanes, terá ligado durante o cancro do António e explicado que ele não se podia dar a gostar para depois assustar assim os amigos, algo assim, e desligado sem sequer deixar o António responder. Dias melhores contados pela Isabel Coutinho, jornalista do Público, aqui. Mas o que eu começo mesmo a não esquecer são intervenções de grupos de teatro e a pensar como poderiam os escritores dar-se e dar à sua audiência momentos poderosos se pusessem as suas palavras na boca de actores, em vez de as porem em si próprios, as mais das vezes modorrentas e aborrecidas. Jeff Love foi notável na concisão e qualidade da sua intervenção (em inglês). A Professora Alzira Seixo e María Luísa Blanco notáveis pelos conhecimentos, não tanto pela concisão.
Mas quando entra o grupo de teatro com um protagonista vestido de médico a enfrentar o António do passado e diz sem apoio toda a famosa crónica de uma sala de espera de radioterapia, tudo passa a fazer sentido. A rapariga da almofada, o velho com a nódoa e a gravata invisível visível. Os actores concretizam as palavras, tornam-nas palpáveis - e pela primeira vez desde a leitura a sensação chega-nos pelo corpo de outro. A experiência é sempre poderosa. Chore-se então.

Depois veio a noite e "Porto S. Bento" do Nuno Cardoso no Carlos Alberto, no Porto. Não vou falar em detalhe da peça, a não ser no facto de que perdê-la lesa a alma do omissor e do outro facto, o de que o Nuno se vem tornando, a pouco e pouco, um dos grandes poetas portugueses (mais do que dramaturgo, mais do que encenador) do espaço. Para lá da forma como esse espaço, o cénico, nos entra na carne e do detalhe de cada momento e de cada personagem representado por actores ou não actores - em certo ponto perguntam ao espectador, olhos nos olhos, se precisa de colo -, para lá do serão inesquecível e do tanto Porto que a peça encerra (ou liberta) - comovente ver reflectida a própria beleza do ser(mos) tripeiro(s) -, para lá de tudo isso há aquele momento em que, pendendo uma dolorosa exposição de vida de um dos personagens, uma outra, uma mulher pouco eloquente até ali, começa a cantar uma ária com uma voz celeste que se me alojou, primeiramente, nas costelas, depois veio invertida escorrendo ou era eu a fazer o pino e a vê-la subir-me ao esterno e a entrar, inopinadamente, no coração. 
Chore-se então. Por todos nós. Copiosamente.

PG-M 2012



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