2012-09-10

Um dia solene

Magoa, dizes tu. Põe-te em sentido. Faz-te - como é que disseste? pfff - mirrar, ficar minúsculo perante a grandeza da memória de cada um de três mil mortos. Mas não foste tu que sofreste, meu caro. Não foste tu que viveste. Não foste tu que perdeste. Tu foste apenas mais um entre milhões de curiosos que se encostaram à vedação do ground zero com as mãos na cara e um espaço entre os dedos para ver tudo e lamentar cinicamente enquanto alimentavam um apetite macabro. E estroncavam a fechadura e rasgavam  o véu. Foste o próprio vazamento da decência. Foste apenas mais um entre milhares de rostos e vozes solidárias a dar palavras e abraços ao desabarato às famílias das vítimas para no final se confortar e se abraçar a si próprio. Foste apenas mais um entre centenas de escritores a pensar que escreviam o tratado definitivo sobre a condição humana à luz de uma espécie de holocausto que tu próprio definiste como individual. Que tu próprio inventaste como individual. Não tens vergonha? Não tens vergonha da forma como entraste nas torres? Não tens vergonhas de te tentares aproximar das motivações dos mortos, pior, das motivações dos saltadores? Não ouviste os senhores a dizer que nada mais importa, muito menos tu próprio? Mas quem mandou? Quem mandou desceres aos infernos dos detalhes quando todos eles já tinham ascendido ao firmamento da memória, do sentido? Quem mandou expores-te às e expores as entranhas dos desaparecidos aos que levas pela mão no teu livro? E agora queixas-te? Estás contaminado pelo horror? Não achas que é injusto tentares levar-nos de novo ao limite? Não achas que almejas o impossível? Uma apoximação subtil à morte? À natureza e à condição? E adjectivas como de grandiosidade e heroísmo os actos dos que tiveram que tomar a suprema decisão perante o supremo terror? E queixas-te? Magoa, dizes tu. Que é um dia solene. Porque não te calas, então?

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2012, 11 anos depois

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