2012-09-07

Sanidade

Eis o devir literário em que deixei de encontrar quem  relativizasse. Todos estão certos, demasiado certos de si. Como diz Julio Ortega, no editorial do Babelia 1.084 (El País de 1 de Setembro de 2012), "(...) a tribo do gosto encarniçado revela o desequilíbrio afectivo (...)". Podia, mas não vou, replicar processos autofágicos fascinantes. Em tempos falei no denominador comum da bondade, mas não, não pode ser, porque não é bom quem deixa de ir ao encontro dos outros, não é bom quem considera que a sua atitude deve ter um aporte estético. A bondade não tem estética. Por uma vez, e na sequência da tangente traçada a García Márquez, ele que antes da fama vai em busca dos amigos para se assegurar das próprias escolhas, e depois do "Cem anos..." - portanto, depois da fama - conta com os amigos para o esconderem do mundo que o quer devorar pelas melhores e pelas piores razões. É doloroso que isso tenha acontecido pelo acaso do bom sucesso e pelo trauma da devassa. Aterra-me essa coisa da fama, mas aterra-me muito mais a devassa, por pequena que seja. Por uma vez, e no preciso fim-de-semana em que o supra citado Professor Julio Ortega publica um quase-ensaio intitulado "A questão do gosto", em que diz, entre outras coisas, que "(...) o gosto é o último refúgio da boa consciência. Pelo resto é-se responsável: a má informação, desigual educação, capacidade de discernimento. (...). A crise, com efeito, exige um exercício crítico que parte dos nossos hábitos: põe-nos em dúvida, despidos pela violência da maior de todas as evidências: a nossa própria irrelevância. (...)". Alcanço a clareza de que para se ser bom ouvinte tem de se alcançar uma certa passividade, tem de se abandonar  locomotivas e passar para o vagão restaurante. Já aqui falei de uma amiga que, embora nutra por mim grande consideração e me considere bem formado, me diz que não a ouço bem. "Virtualmente" não ouço bem ou, se ouço, depressa esqueço. Melhoro,  com falhas, no cara a cara. E como cara a cara sou raro, e como a falta do bom ouvinte altercêntrico é flagrante  em tudo, também na postura literária deixa de fazer sentido escrever todos os textos a partir do próprio centro. Sou filho de um director de uma fábrica de móveis, como Scott Fitzgerald, nasci no mesmo dia de Marcel Proust. Seriam excelentes motivos para ter a certeza de que a história não se repete, mas são mais do que isso: são irrelevâncias. Curiosidades. Circo. Mas é do que mais se abusa na filosofia do nada de hoje. É o mesmo Ortega que escreve "(...) Hoje sabemos que o gosto pessoal é outra prova da nossa fugacidade. A história literária é, por isso, uma economia do esquecimento: só recordamos graças ao muito que esquecemos. Daí o melancólico espectáculo do desenganado escrever: trabalham para o esquecimento, não sem inspiração, legiões de opinadores encarniçados na precariedade. Sem ironia, enfatizam o seu trânsito ao reafirmar o seu gosto como medida de autoridade, essa ninharia. Por isso, as antologias são o jornal de ontem da literatura: como os prémios, os best-sellers e a moda, anima-as o ardor do esquecimento." E não bastasse este brilho para nos calar, tinha de ressaltar há minutos, num belo livro sobre dramaturgia de Joseph Danan, o mesmo perturbante diagnóstico, que também é uma urgência para a sanidade, de Maurice Blanchot em "L´Écriture du desastre" (Gallimard, 1980, p122): "Temos de passar por esse saber (teórico, digo eu) e esquecê-lo. Mas o esquecimento não é secundário (...). O esquecimento é uma prática." Esqueçam-me, pois.

PG-M 2012
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