2012-09-24

Vem tempestade, escritores


Os dias já se notam. E sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest. Vem tempestade. Corro para dentro do café que ainda não suporta as portas fechadas. O vento assobiará e entrará de qualquer maneira. Por causa da Herta, compreendi o silêncio na nuca e como se distingue do que trazes na boca. Agora sim, é outono. Só é outono quando muda de face e te mostra o inverno e a sombra. A chuva de manga curta. Já te expliquei como na negação da minha velhice me sinto violada por todos os escritores? Nenhum homem entrou em mim assim. Nenhuma mulher ficou perto. Não esperam nem contemporizam. Entram, partem ossos, laminam órgãos, bebem o sangue, secam a água e executam a alma. Já entendi que me enterraram para uma empreitada nova. Uma fonte em vez de um aterro. Já entendi o contrário. Ou nunca entendi. Nunca soube. Os livros andam lá como tufões. Levantam voo no outono, migram no inverno, regressam na primavera e no verão estão sob as palmas das mãos. São as últimas flores, as primeiras árvores nuas. Ou ao contrário, tudo ao contrário. Ou tudo. Matam, ressuscitam, sobem e descem degraus. Os dias já se notam. E sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest. Vem tempestade.

PG-M 2012

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