2012-09-14

I. P. O.


Finita. Entreguei o meu corpo e sou - estou -  finita. Tive a sorte de arranjar uma cadeira na sala de espera de Oncohematologia, tu ficaste de pé a manhã toda. Eu pensava que era rara. Quantos sangues doentes, afinal? Fui ao passado enquanto estive prensada entre a senhora da tv guia e o rapaz de trinta e cinco anos de cabeça meneante enfadada com o destino. Tu, de pé e sem posição, sempre em cima da senhora e debaixo da (minha) censura, resolveste ser olímpico e perguntar-me "sempre tens visto a Gabriela?". Vivemos na mesma cama e, tu sabes, não gostamos de novelas, nem sequer desta "Gabriela", mas tu, olímpico, foste buscar a senhora à sombra e puseste-lhe a matéria branca a perscrutar uma oportunidade. "Dá a que horas?", perguntaste. "Às dez", disse ela. "Às dez? Tão tarde? Não é às nove e meia?", "Não, começa antes da da quatro acabar", disse ela. O primeiro sorriso. "A Sónia Braga ainda mete a Juliana Paes num bolso", adiantaste, e eu a pensar, "como é que ele sabe o nome desta?", mas afinal estavas a pescar o rapaz - um sangue jovem ferve de incompreensão, mas as tuas saídas frívolas trouxeram-lhe o quarto sorriso, depois do meu e do teu, gaguejou, desistiu. Diga, diga. "Eu", disse ele, "eu gosto muito da Juliana." Ahahahahahah. A sala reagiu com inquietação. Dormência. Lembras-te de quando entrámos? Era a nossa primeira vez. Meteste pela cirvunvalação, que era melhor e tal, eu já te tinha explicado que pela ponte do freixo saías depois do dragão para paranhos, mas tu meteste pela circunvalação. Quando comecei a discutir contigo banalidades deu-me um aperto no peito porque me lembrei para onde ia e decidi - erradamente - que tinha perdido o direito às banalidades. Não querias deixar o carro no parque, mas os meus ossos já não aguentam, uma dor nível sete de zero a dez nos piores momentos - e não tem havido melhores. Ninguém viu o alerta. Em ano e meio, ninguém se sobressaltou com o pico de proteína. Agora já não podes procurar lugares gratuitos. Hoje foi a nossa primeira vez no I.P.O. Não há primeira vez sem medo. Entrámos de mão dada, a minha direita na tua, o teu braço esquerdo a amparar-me. "Fica aqui no bar enquanto dou sinal de ti no guiché das consultas". Tanta gente. Tanta, tanta gente. Que importância temos? Pouca, muito pouca, talvez a altura da alma, nem mais um centímetro. Marcha lenta na fila do bar e a sala de oncohematologia cheia. Como é que servem cafés a pessoas em absoluto sofrimento? Ou as pessoas em absoluto sofrimento não vêm tomar café? Tanta gente e tu de pé, eu enfiada entre pessoas enfiadas. Eu a pensar disparates, que vida a minha, como vim aqui parar, voltei às vésperas do baile de há cinquenta anos em que te conheci, eu nua ao espelho que a mãe tinha no quarto, o corpo sem mácula, o corpo pronto para ti. Olhei para o meu colo sem luz e os ossos a doer e que pouco tenho para te oferecer hoje. E tu? Terias pedido a minha mão ao papá se soubesses que, cinquenta anos depois, era a tua mão que era precisa para me amparar na igreja, nos degraus de casa e aqui, no lugar onde ninguém está por capricho nem há pulseiras de triagem? Sabes se é aqui ou no outro pavilhão? O de radioterapia está totalmente renovado, é um dos melhores do mundo. A tia tinha razão quando dizia que as pessoas entram aqui menores e saem maiores. Muito maiores. O médico a perguntar o que queria eu para o futuro. "Ver os meus netos crescer". É isso mesmo que terá. Mal escolhido, lembraste tu cá fora. Os netos já estão todos maiores do que nós. Como nos rimos. Estava um perfeito sol de setembro e tu perguntaste-me se eu queria ir comer qualquer coisa em frente ao mar e eu respondi que só queria uma cama para me deitar. Apesar das dores, que aumentam quando me deito, às vezes um oito, eu só me queria deitar. Ainda não se sabe de nada ao certo. Falavam de perucas com voluntários. Mesmo que se  confirme, não vai ser nada. Isto virou doença crónica. As punções magoam menos. Ouvi-te dizer, em surdina, "o momento mais duro para ela foi quando estávamos sentados no bar (outra vez o bar), à saída, para ela comer qualquer coisa (não tinha comido nada todo o dia) e ela olhou para o cartão que lhe fizeram e disse baixinho: "Um cartão do I.P.O. com o meu nome, quem diria?...." Então saí maior. Banalizou-se tudo menos o tempo. As filas na VCI eram bonitas, íamos devagar a falar do dia, tu fazias-me mais festas na mão do que o costume. Não me importo que olhem para mim com medo de me perder, que me amem mais por isso. Já não tenho coisas pequenas comigo e finais são para se ganhar. Comecei hoje a ver a "Gabriela". A Juliana Paes não se compara à Sónia Braga. Os planos são de plástico. Voltei a tocar piano no vestíbulo, está desafinado mas é tão bonito.  Afronta a dor nas mãos. Gosto da Maitê na Sinhazinha. Desta Malvina. Vou ver os netos crescer, desde que passem o metro e noventa. Segunda-feira voltamos. Segunda-feira voltamos e, como tu disseste, vais finalmente poder iniciar a senda por caras bonitas sem o primeiro medo. Não nos lembraremos da glória do passado. E eu terei no meu regaço a solidão que tu sacodes com gargalhadas e conversas de novelas.

PG-M 2012

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