2012-09-05

Carta a García

Esselencia,
Gabriel,
Mestre,
Essência,
Colega,
Amigo,
Nós por cá todos bem. Melhor. Espero que esta te encontre no momento em que a voz que te acompanha ta possa ler e que tu não penses como o Borges cego, porque a ti ainda só te falta a memória e é só de vez em quando. Qualquer escritor diria agora, neste passo e instintivamente, que melhor a cegueira do que a demência. Qualquer pessoa, que nós, os escritores, principalmente o mais certos de nós, temos a mania de ver rasas ao chão por oposição ao que se inspira e escreve nas alturas. Escrevo-te de la basura para te avisar que quase ninguém ouviu o que disse o teu irmão Jaime, e nas agências noticiosas internacionais apareceu só, e verteu para todas as notícias e depois entrou em todas as cabeças e alguns corações, que tu estás demente e não escreves mais. Pero Jaime não disse isso. Jaime disse que manténs o humor e estás rijo. Mas que crê que não escreverás mais, oxalá se engane (disse também). A memória está difícil. A demência cobre-te como uma sombra cada vez maior e os períodos de lucidez destapam-te a uma luz cada vez menor. Seja, Gabriel. Que no te voy a llamar Gabo, porque sou só um amigo universal. Em rigor, se eu estivesse aí dir-te-ia que já não andavas bom quando enjeitavas o "Cem anos...", tu tomarias uma pausa caribenha, mirar-me-ias gravemente sobre os óculos com o conhaque na mão e rebentarias numa risada - digo eu, que não te conheço e mais te invento e propago. Mas tu já não és de riso fácil. Odeias o "Cem anos..." porque te trouxe a fama que te trouxe a solidão não necessária que tu comparas à de um ditador latino-americano e resolveste n'"O outono do patriarca". O poder do ditador e o o poder da fama são parecidos. Mas fica sabendo tu - tu sabes - que estive a modos de chorar quando soube a história da velhota soviética que copiou os "Cem anos..." à mão e explicou que o fazia porque, para perceber quem estava louco, se tu ou ela, o livro tinha de ser escrito de novo, palavra por palavra. Elegeste-a na "Goiaba..." como a tua melhor leitora, lembras-te? Não te lembras. Parece-te que é esta a tormenta maior? O momento em que não consegues controlar a solidão necessária e, por isso, tens de deixar de escrever? Sinceramente, e ainda que andasses há quinze anos à procura do "Cem anos...", achei uma parvoíce pegada aquela de estares a caminho de Acapulco com a Mercedes e os miúdos e, subitamente, surgindo-te a estrutura do livro na cabeça, tenhas voltado para trás para o escrever, tenhas vendido o carro para pagar as contas enquanto nada ganhavas, e depois a tua mulher tenha pedido tudo fiado durante quase um ano, incluindo a renda de casa, para ela própria deitar o manuscrito no correio ao som da oração espontânea de "queira deus que não seja um romance mau e tudo tenha valido a pena". Liberalidade minha. Quão grandes são mulheres assim? Não se medem. Escrevo-te sabendo que nunca serei o único nem o primeiro nem o último. Ia até a dizer que talvez fosse o único que não me tinha por importante por escrever uma carta a García Márquez, mas a verdade é que me sinto muito importante por ter o que te dizer, ainda que o problema de qualquer escritor seja precisamente ter sempre o que dizer e não se saber calar ou, calando-se, o fazer no momento errado. Cobardes. Somos todos uma cambada de cobardes com a mesma pose de pontífices que acusas alguns críticos de ter, os mesmo que inventam enredos tácitos para os teus livros ou para os livros de um qualquer. Não somos nada, Gabriel. Olha lá como não somos nada. Somos a emoção de um leitor, portanto nada, porque a emoção é dele e isso é tudo o que somos. Existimos enquanto um bom editor, não importa se amigo, acreditar que falharemos bem. Porque todos os livros falham, mas só alguns falham bem. Tu chegaste ao ponto em que talvez a demência te proteja as rotinas terminais - diz o Jaime que te querem matar antes do tempo, mas todo o escritor depois da escrita é terminal. Se tu estás realmente depois da escrita, estás no ponto das rotinas terminais, e as rotinas podem proteger-te o tempo de estar como queres e com quem queres. Disseram-me que os teus vizinhos mexicanos continuam a ouvir-te as risadas de sempre. Mas isto sou eu outra vez a delirar, porque Pedregal de San Ángel é uma espécie de Beverly Hills e nos bairros de luxo as casas estão demasiado sozinhas, demasiado perfeitas e tristes para que os vizinhos se ouçam. Diz o Jaime que talvez não escrevas. E depois? Depois não queres falar onde decidiste morrer? Em Barranquilha nunca. Em Aracataca não, por causa do medo dos fantasmas. Em Nova Iorque és pária, e nem a La Coupoule parisiense, que era o lugar dos teus outonos e por isso teria todo a pertinência metafórica, valeria a despedida. Talvez o México seja o teu lado de dentro. Escrevo-te para te dizer, Gabriel, que te deixes ficar sem memória mas com risadas e não ligues a esta carta ridícula. Serás brindado, espero que não em breve, como o melhor do mundo e afinal dirás, como disseste sempre, que não passas de um jornalista caribenho que a fome e a urgência de enfrentar o terror da avó Tranquilina fez escritor de vara de condão em hotéis de passe em que o teu quarto nunca era o mesmo porque as putas o tomavam primeiro e tu, quando saías bem bebido do jornal às quatro da manhã para retomar uma das quinhentas páginas em branco que sempre tiveste ao lado, não querias saber das perguntas perigosas dos franceses ou da copiosa retórica que os castelhanos espalharam no planalto andino. Querias saber da tua vida e dos teus amigos. Ou sou eu que te estou a inventar, Gabriel? Pero al menos y por todo y por todos, no te mueras. No ya. E não uses essa espécie de epitáfio que tu próprio escreveste: "La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla." Havemos de transcender o nosso próprio sistema desordenado se repousarmos no nada que sempre nos definiu acima de qualquer engano. Una risada. Una risada es lo que eres. Uma que permita o reencontro e a despedida de um amigo. Y que te ponga la rosa amarilla en la mesa de siempre.
Que esta te deixe bem Esselencia, Gabriel, Mestre, Essência, Colega, Amigo.

PG-M 2012
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