2012-08-05

Voleibol e o elogio da imperfeição

É, hoje vou falar disto. Deixem este velho e pesado voleibolista falar (é verdade, o número oito aí do lado, nos idos de oitenta do século passado). Batam-me, mas eu acabava já com os serviços em suspensão. Obrigava até a que fosse obrigatório servir sempre com pelo menos um apoio. O voleibol é praticado na minha família há pelo menos três gerações, pouco importando qual a que fez mais campeões (tivemos a nossa - boa - dose e temos aí miúdos a despontar para os melhores). Eu sou da geração dos olímpicos Maia e Brenha, de quem fui aliás colega de equipa na Académica de Espinho, nos idos de oitenta do século passado. Quem hoje for ver um encontro de voleibol em Portugal não se sentirá defraudado. No meu tempo não era bem assim, porque a regra de só marcar ponto no próprio serviço tornava alguns jogos um absoluto tédio. A FIVB foi alterando as regras, e alterando e alterando. A dos pontos sucessivos e a passagem dos sets dos quinze para os vinte e cinco ponto foi fundamental para dar interesse a este - belíssimo, encantador, visceral (qual golfe, qual quê?) ,- desporto, este da bola que voa, e quanto mais voa mais espectacular o torna. Da bola e dos homens. Mas a FIVB também deu cabo do voleibol de praia, hoje bem mais desinteressante e feio do que quando, originalmente, se parecia mais com o de pavilhão. Aliás, para quem foi formado em pavilhão e não fez nem faz parte da geração dos praiistas modernos, o voleibol de praia é , e será sempre, uma coisa esquisita. Mas, ainda que um amor difícil, não deixa de ser um amor. Ora, o advento destes jogos olímpicos de Londres 2012 fez-me cair em mim. Assistindo aos jogos ao lado de alguns leigos e ouvindo os seus protestos, apercebo-me de que, realmente, o voleibol "perfeito", o jogado ao mais algo nível e com poucas falhas (por exemplo, por um Brasil em forma) perde beleza. O voleibol "perfeito" contraria parcialmente a génese do jogo: a bola no ar. Todos sabemos o êxtase a que pode levar um longo "rally" (quando a bola não cai e ambas as equipas a vão resgatando sucessivamente, em grande e épico esforço), e como é sempre espectacular - mesmo num jogo de infantis. Se duas equipas se vão sucedendo em "side outs" (marcar ponto no serviço do adversário para voltar a servir) limpos "empatam" literalmente, o jogo, que fica chato, pelo menos até aos vinte pontos. Além de demasiado rápido para ser desfrutado e até apreendido. Parece-me que a tentativa da FIVB de tornar o voleibol num desporto agressivo, de ataque, desfeou-o, tirou-lhe emoção, emoção que só volta se o nível descer ligeriramente. Realmente, só um inenarrável Nicolau, esse comentador dinossáurico da RTP, poderia repetir à exaustão que "o nível do voleibol" de um Alemanha - Sérvia estava "baixíssimo". Pois é mais baixo do que o de um Brasil - EUA, sem dúvida, mas é a medida certa. E talvez a ânsia de comentar tudo o que mexia (e não) o tenha impedido de ver um jogo espectacular. E nem sequer falo da inspiração que é para mim ver um Grozer (o craque alemão) com 104 quilos a voar e acertar pedradas em tudo o que mexe, porque o homem é inconstante, e portanto um jogador polémico e apaixonante. Nem da última final olímpica, a de Pequim 2008, em que tradicional falta de humildade e sobrancerias brasileiras trouxeram a imperfeição de volta e deram uma grande vitória aos EUA. O que eu falo é de travar o jogo para manter a bola a voar. Sejam corajosos, então. Proibam lá o serviço em suspensão. Tragam de volta a colocação, os efeitos, a flutuação. Até as  enroladas recepções em passe desde o chão. Mas travem isto e façam a bola voar. E, ainda que não, deixem este velho e pesado voleibolista falar.

PG-M 2012

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