2012-08-23

Primo


Percebi, primo, porque é que demorei mais de trinta anos a escrever-te. Trinta e três anos desde que morreste num dezembro. Tinhas onze. Eu dez. E escrevo-te agora porque já consigo entender o tempo que falta para te rever. Não me lembro que tivesse sido um dia cinzento, mas lembro-me de estar nítido à noite, uma chuva muito grossa e as coisas todas limpas, brilhantes. Os meus pais estacionaram o Simca verde à porta de uma casa amarela e disseram-me para esperar. Uma chuva muito grossa e as coisas todas limpas, brilhantes. Do carro eu via uma janela com cortinas brancas que de vez em quando se moviam. Pensava que só eu tinha o direito de estar contigo e como era injusto ser o único que não estava. Tive pena de não te ter mais nenhum natal, porque eu só te via nos natais e no dia de visita. Nos natais diziam-me sempre a mesma coisa: que apesar do teu sorriso e dos teus olhos muito grandes e negros a olhar para a luz estavas muito doente e não conseguias entender o que se passava no mundo. Eu sempre tive a certeza de que era mentira e o último natal calhou passá-lo todo contigo, não fui brincar com o resto dos primos, fiquei a tocar-te e a olhar-te para dentro dos olhos e a limpar-te a boca santa, como elas diziam. Dei-te a papa uma vez, tinhas dez e eu nove. Tinha aprendido nessa visita a tua casa em que a tua mãe, reagindo às perguntas que eu não conseguia fazer, me explicou como conseguia, como fazia, como vivia. Achei a tua mãe muito bonita. À saída, as escadas intermináveis pareceram-me breves. A esperança e o amor dão músculo aos braços e espaço à alma. Nunca apaguei os teus olhos grandes e negros e ainda acho que o teu sorriso é o meu dos melhores dias. Sempre que me lembro de ti fico com dores. E o pudor ata-me as palavras. Não posso dizer mais nada, mas tinha de te fazer existir. Nunca tinhas chegado a frase, só a nome, um diminutivo, desde essa noite em que a chuva e as coisas todas limpas, brilhantes. Quando nos revirmos tu vais terminar o abraço. O amor, quando é, é normalmente uma coisa grande. Não há amor pequeno, primo, nem histórias com fim que o tenham. 

PG-M 2012

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