2012-08-16

O absoluto, Maria


Nunca te aconteceu quereres agarrar aquele momento perfeito? Chiu, vá, não fales. É uma pergunta retórica. Vais estar calada e ouvir-me cinco minutos. Sim, tendemos todos a pensar que só acontece nas férias e então as férias acabam e entra-se naquela depressão ligeira. A neura. Mas não tem de ser assim. Vou então ensinar-te a minha visão do absoluto. Para que abrandes sempre que queiras. Sabes quando alguém cai à tua frente e se magoa a sério? Melhor: sabes quando tu cais à tua frente e te magoas a sério? É isso. O absoluto é isso. Pela maior força assoma o essencial: tens um pé partido, estás a sangrar, nada mais importa. Durante dias a família acompanha-te ao hospital, o teu marido senta-se ao teu lado durante horas. Vocês enfim falam. Os teus filhos entram à hora da visita e abraçam-te a cama onde não te podes mexer. Nem vais poder mexer durante umas semanas, meses na pior das hipóteses. A rotina adapta-se. O lixo da vida desaparece. E é o mesmo o que nos dizem os que mais nos amam e os que se estão lixando para nós: não é um caso de vida ou morte. Ninguém morreu. Ou, na outra ponta, porque é que estás assim? Já viste que era muito pior se alguém tivesse morrido?
O absoluto, Maria.
Aquele momento em que estás com os fones nos ouvidos a fumar e a ouvir o Sulk e o sol das seis te enche as pálpebras e tu sorris porque ainda faltam nove dias para elas te acabarem e pensas que só nesses nove dias vais poder repetir o sol das seis mais nove vezes. Oito, porque no último dia viajas às sete da manhã. Seis, porque no penúltimo tens de limpar e arrumar.
O absoluto, Maria.
Quando acordas subitamente a um Sábado e te preparas para uma Sexta e o olhar sereno dele e o sorriso sonolento dos miúdos te diz que não é Sexta, é Sábado, e o corpo descomprime e tu agarras-te a eles todos como se não houvesse mais dias. Descobres que mirras a cada manhã útil. Não tem de ser assim. O absoluto, Maria.
A conjugação cromática de uma esquina a caminho do emprego. O cheiro de torradas e café. O colega gentil.  Se tentares viver a vida como um adágio para cordas o cabrão da janela, o que te enfia bocas como estiletes todas as manhãs, vai aparecer em câmara lenta e voz arrastada, os dias decorrem todos como se fossem o último dia da tua vida. O absoluto, Maria.
Todos os dias são o último da nossa vida, Maria.
Sob adágio para cordas. Lembras-te daquele do Platoon? Esse. Como se tocasse todo o dia todos os dias. Fuma, mesmo que não fumes. Finge que fumas aquele último cigarro na névoa azul do bar da nossa juventude, pode ser um charro, fuma e fixa-te na ponta incandescente. Já sabes, Maria. O absoluto, Maria.
O som dos helicópteros em fade out e a voz do Charlie Sheen enquanto os violinos entram,  dizendo

"Penso agora, olhando para trás, que não combatemos o inimigo. Combatemo-nos a nós próprios. E o inimigo dentro de cada um. A guerra acabou para mim, mas estará sempre cá até ao resto dos meus dias, assim como estará Elias, lutando com Barnes pelo que Rhah chamou possessão da minha alma. Houve tempos em que me senti como a criança nascida daqueles dois pais. Mas, de qualquer modo, aqueles que entre nós sobreviveram têm a obrigação de construir outra vez, de ensinar os outros o que sabem e tentar encontrar o bem e o sentido com o que resta das nossas vidas."

Por isso, Maria, vou levar este frasco de comprimidos comigo. Melhor, vou despejá-lo já na sanita.
Como é possível que não tenhas noção de que em certos minutos, muitos para os teus amigos, quase todos para os teus melhores amigos, todos para o teu marido e para os teus filhos, és e serás sempre a mais bela mulher da criação?

Como é possível que cada um de nós não veja isso de sí próprio? Que a solidão é apenas um lapso do corpo e um sobressalto do tempo? Que é a tristeza a precisar de espaço para morrer - e não cada um de nós fora do seu lugar.

Não há abismos portáteis. Mas o absoluto, Maria.

PG-M 2012

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