2012-08-16

Fotomaton

Diz que o sol um dia nos mata e morre - não, explodir não explode, não tem massa que chegue - mas enquanto isso não acontece levanto os olhos da minha mesa de escrita em frente ao mar e tiro pequenas notas em fotomaton. A esquadria leva-me o ponto proximal para as ondas noroeste-sudeste que com algum vigor enrolam no mar médio e se apressam para a praia. A maré está quase cheia e o mar quase agitado. Daqui vejo uma nesga de praia com um grupo de miúdos negros da contraluz que se diverte onde as ondas chegam, comportamento típico de bandeira amarela. Está com eles, de pé, uma avó com as mãos na ilharga e as pernas abertas fincadas na areia molhada, o ventre ligeiramente para a frente e os ombros ligeiramente para trás - a descontracção diz-me que mora perto, é de cá, ainda que das freguesias interiores, mas a deselegância e a falta de auto-estima leva-a para o grupo dos que nos desatam a serenidade da praia, tão depressa grita aos miúdos como à comadre e sempre por razões que não poderiam inquietar ou indignar um espírito leve. Ainda vejo os miúdos - épica visão dos meus próprios verões -, graças a deus já não a vejo a ela. Mesmo em frente a mim, a esta hora, a mesma contraluz que torna os miúdos negros põe diamantes no mar, o brilho da frente das vagas. O empregado arrasta as cadeiras da esplanada preparando a descompressão. Cada vez menos mesas vão sendo ocupadas, mas na que está duas à minha frente, mais perto do mar, senta-se um homem da minha idade há mais de uma hora, sem livros, sem jornal, só um café e uma água com gás na mesa, massaja as faces vezes sem conta, esfrega os olhos, inclina-se sobre o braço da cadeira, ora sobre o ombro esquerdo, ora sobre o ombro direito, mas não faz nada. Olha mais para dentro do seu círculo do que para a praia ou para o mar. Agora pegou numa mochila, está a coçar a nuca, mas continua ali, sem fazer nada. Mais para a esquerda está um velho com um chapéu de palha, camisa branca e calças de linho - também não faz nada, também se inclina sobre o ombro esquerdo, ou melhor, faz tudo, se olhar o mar for fazer tudo. Mais para a esquerda ainda uma rapariga de caracóis amarelos escreve numa folha, pára, escreve, lê, pára, escreve, lê. Na linha exacta do senhor da pedra, lá ao longe, um casal de meia idade, ele ao sol, ela à sombra, ele a ler um livro grosso e leve, ela a ler uma revista grossa e leve. Passam várias crianças em tronco nu por trás de mim para ir ao wc. Chegam pessoas para um café de final de tarde, hesitam na escolha da mesa, nunca têm a certeza se querem vento, se querem sol, se querem resguardo e sombra. Eu vou pedir outro café daqui a pouco, apesar de estar habituado a bebê-los frios e a fazê-los render uma hora, tento não passar os três por período de escrita, mas o normal são dois em três horas e três horas é o mínimo para se fazer alguma coisa - abaixo disso só em plena produção, quando está tudo definido e é só executar. Mesmo assim, menos de três horas é sempre pouco para escrever. Também deve ser assim para pintar ou para fazer música. Qualquer interrupção é faltal. Como já não fumo há seis anos (e tenho pena), excepto em texto, preciso do café para entrecortar pensamentos. Deixa ver se tenho dinheiro certo. Gosto de pagar o café para me poder levantar e ir embora quando me apetecer. Gosto de ter dinheiro certo para não esperar com a carteira na mão e passar logo à tarefa seguinte. Agradeço sempre cada serviço prestado, mas costumo irritar-me no verão, não pela demora no atendimento, mas porque os contratados sazonais não sabem de cor o que eu quero e me pedem dinheiro quando colocam o café na mesa - ainda que eu queira pagar, não gosto que me peçam o dinheiro, não gosto quando falha o tratamento desigual, quando o pobre homem que está a tentar ganhar umas coroas não se informa sobre o cliente que serve, se é um bruto de  passagem ou um que gasta destas cadeiras há anos - mesmo que nunca escreva um segundo livro no mesmo café, volto por pequenos períodos aos que já usei. O homem aqui da frente foi, finalmente, embora. O velho do chapéu de palha continua lá, mas com os ombros encolhidos. A rapariga dos caracóis amarelos mudou de cadeira, voltou a cara para o sol. Está a ler - não sei o quê, mas está a ler, pelo menos tem a cabeça inclinada como quem lê. Há um senhor gordo de t-shirt vermelha com um portátil, mas não me interessa. Há mais cinco ou seis mesas cheias, mas não me interessam. O brilho do mar está a deslocar-se para a direita, em breve perco-o e começa o pôr do sol. No passadiço passa muita gente que também não me interessa. Aliás, estou prestes a fazer como a rapariga dos caracóis amarelos, a desligar este ecrã e a murchar sobre o meu livro, a ficar dentro do meu círculo como o homem que não fazia nada, podia estar em casa ou na montanha, afinal o que distingue este momento não é o que vejo, não é o mar, não é velho do chapéu de palha que agora tem os braços caídos, não é a rapariga de caracóis amarelos que agora tem a cabeça toda ao sol amplo, que a seguir vai fechar sobre matizes de vermelho e dar o dia por terminado. É o cheiro. O cheiro da praia, o cheiro da montanha, o cheiro da casa. O horizonte ainda está claro, como fica sempre que o vento norte se levanta, mas nenhum vento resiste ao silêncio que a praia colhe pelas oito. E então tudo se cala, tudo fica laranja. O fotomaton ainda não entra nos dicionários de português, como se o que se escreve fosse mais importante do que o que se diz. Diz que o sol um dia nos mata e morre - não, explodir não explode, não tem massa que chegue - mas enquanto isso não acontece baixo os olhos das pequenas notas em fotomaton e murcho para um livro de teatro.

PG-M 2012




Sem comentários: