2012-08-19

Deserto (smoking in a blue bar)

É um bocado como agora, quando não escrevo, com a agravante de que já não fumo e isso é mau. O deserto e o desejo. O deserto de nada fazer sentido, de nada preencher, e o desejo de me poder alienar consciente. O desejo do ambiente escuro, azul, como dentro de uma nuvem à noite, a super bock de pressão a bombar nas veias e as pontas incandescentes dos cigarros que me davam a resistência para tudo, para não chorar, para não comer ou ser comido pelas mulheres nas queimas, para levar a noite ao meu limite, não ao limite dos outros. Houve noites em Coimbra, faz mais de vinte anos, em que sem ti e apesar do barulho e dos amigos no Briosa - o bar junto ao Bingo, naquela rua em frente às monumentais, lembras-te?, não sei se ainda existe - estava tudo deserto na minha cabeça (no peito nunca esteve). Não é a idade, o envelhecimento, o tempo, nada disso. Nenhuma nostalgia, porque afinal hoje tenho perto de mim tudo o que faz sentido e ao tempo passava às semanas sem ser tocado por ninguém. Uma vez foi uma camisola tua ao engano no meu saco. O máximo sofrimento. O teu cheiro vívido e fresco foi-se apagando, mas a distância, mais do que a distância, a altura, foi sempre aumentando. Não se pode ter tanta memória física na impossibilidade do corpo. Podia, como agora, pôr a rolar o melhor blues, aquelas frases americanas banais que com a batida e os acordes certos parecem dedilhadas e cantadas pelo próprio Criador, "because nothing, nothing, takes the place of you", e escrevia. Escrevia-te. Foram centenas e centenas de cartas. Agora ainda te escrevo - não cartas, sangue. Às vezes cartas, também, porque dás mais valor a uma carta escrita à mão do que a um poema, eu sei. Mas a felicidade tem um equilíbrio complicado. Longe de ti era impossível ser feliz e legítimo fazer tudo, beber, fumar, evanescer. Perto de ti ou nos portamos mal e discutimos, combatemos pela vida, ou fica um deserto e eu fico pela noite a escrever pelos outros. Pelo menos não há nada mais violento do que uma segunda-feira para gente feliz. É estúpido ter saudades de ter saudade, de estar incompleto, gordo, maltratado, esfomeado, sozinho, inseguro. De achar o Torga um Deus, enquanto terminava mais uma viagem no trólei três sem lhe conseguir dirigir a palavra. Fim de tarde em Coimbra, Outubro, chuva, começava o segundo ano de Direito e eu não era nada, tal como hoje. Está bem, ter-te, mulher, e olhar para trás e não me ter visto a encher os bolsos mas os olhos e os ouvidos a tanta gente, e os corpos que abanei, faz-me sorrir. Mas se o espelho algum dia te der importância hás-de reparar que por trás está o deserto. Este deserto. O deserto que se combate todos os dias. Por isso mais vale escrever e fumar e beber e dar à noite o nosso próprio limite. Smoking in a blue bar - é esse. O título que te daria nas faldas do Battery Park, à vista do Hudson, enquanto dedilhasse a minha guitarra e cantasse "Nothing takes the place of you".
PG-M 2012

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