2012-08-17

A sala negra (no coração da tempestade)

Gostos discutem-se. Eu digo-vos o que me toma pelos colarinhos no cinema: um filme que deixa entrar a literatura. Por isso, esta é outras daquelas noites em que se torna obrigatório para mim dizer que - mais que para os meus gostos, para as minhas vísceras - não me podem oferecer mais e melhor do que o filme hoje estreado, "Coração da Tempestade", do australiano Fred Schepisi, que ainda por cima tem uma bela filha e melhor actriz, Alexandra Schepisi (a Flora do filme). Não vamos por partes: Charlotte Rampling, uns sensuais 66 anos, magistral; Judy Davis, uns sensuais 57 anos, magistral; Geoffrey Rush, que Schepisi só quis um falso distinto no filme, muito bom; Alexandra Schepisi, a nada ínvia e profunda Flora que se cala da sua aparente frivolidade, muito boa; Maria Theodorakis, nunca tão contida como na santa Mary que compõe, magistral; Helen Morse, que tem arrebatado alguma crítica pela sua governante alemã Lotte, muito boa; John Gaden rigoroso no advogado Wyburd, mesmo Robyn Nevin tem o seu momento como Lal, e o livro, senhores, o grande livro homónimo do Nobel australiano de 1973, Patrick White, que o filme não decompõe como os piores filmes baseados em grandes romances fazem, mas que acompanha como o pulsar de um coração,  em arritmia, na boca, físico, incomodativo. A forma como o Schepisi filma os olhares (os silêncios, o não dito). Está certo que certos filmes se fazem para consumo visual, muitos deles são até muito bons, mas se juntarmos a isso a intensidade de um olhar à condição humana em que nada é confortável, está tudo cheio de zonas cinzentas cheias da luz dos desempenhos e da casa, a casa a que só no final se correm as cortinas. Eu pagava o dobro pelo bilhete de hoje, simplesmente porque o privilégio de ver o que vi e quem vi se deve pagar bem. E não há um momento de acalmia nesta tempestade, antes uma tensão permanente, um convite a olhar para o nosso próprio espelho. Se gostam de grande cinema, não liguem às cada vez mais afectadas críticas profissionais que grassam, porque cada vez há miúdos com mais autoridade na matéria e os graúdos que resistem já se acham no direito de ter tiques, esquecendo quase sempre que se trata de recomendar um filme para seres humanos, não para os pares menos humanos que os sindicam. Já sabem que eu, com uma excepção que é melhor não lembrar, só escrevo sobre filmes que considero imperdíveis no cinema. Neste não se fica imerso no ecrã de uma televisão ou de um computador. Este merece uma visita à sala negra. A física e a dos nosso fundos.

PG-M 2012
fonte da foto
na foto Charlotte Rampling, quando era menos sexy:)

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