2012-08-09

A miséria

Enquanto reteve a juventude no corpo, e mesmo algum tempo depois, o Zé do Portão violou a sua mulher Guida e esse acto reiterado tornou-se uma das rotinas sufocantes do pequeno Mário (na foto), agachado atrás do aparador de cartão da única divisão da casa, à espera de vez. Não de ser violado, sorte, mas de apanhar no focinho, como dizia o pai nos seus tempos áureos, focinho que no seu caso era uma cara clara e inocente para uns olhos claros e inocentes. Mário chorou tudo o que tinha para chorar até sair de casa. Fez um percurso honrado e não violou a sua mulher nem bateu no seu filho, e isso foi relativamente bom. Acabou por cair na mesma rotina dos homens da terra, que é chegar do trabalho e comer e sair de casa e beber cervejas no café enquanto se vê a Sport tv e se fuma falando alto ou cantando o karaoke, mas sempre moderou os seus instintos. Verdade que lhe apetecia rebentar a cara à sonsa que ainda se atrevia a criticá-lo por não ajudar em casa ou andar aos beijos com outras gajas ou jogar uns trocos no bingo ou assapar nas retas da praia. Verdade que queria esganar o puto quando ele se punha a berrar por tudo e por nada. Mas nunca o fez. Nem uma coisa nem outra. Era muito criticado pela mesma terra que ficou muda durante os anos em que apanhou do pai. A terra que consentiu as violações da mãe durante mais de trinta anos, até faltarem forças ao velho. Não, antes ainda, porque Mário, no dia do casamento, deitou a mão ao pescoço do pai e avisou-o de que dali em diante não tocava na velha. A terra deixou de ouvir choro, mas Mário não tinha a certeza se a velha tinha chegado ao consentimento lúgubre ou se faziam outras coisas porque lhes faltavam as forças para a violência. Verdade seja dita: Zé do Portão nunca usou objectos para agredir mulher ou filho. Era sempre com o punho redondo que a mão sapuda formava. Mário era criticado pela terra por gritar com o pai em plena rua, descompusturas violentas que envergonhavam a terra do seu próprio silêncio e Mário usava para não ter de matar o velho ou bater na sua própria mulher.

O velho era gordo quando era novo. Ficou magro, arraçado do que era. A mãe sempre tivera um vincado atraso mental. Agora a vida do velho é arrastar-se com as muletas, às vezes com a mulher no encalço a dar os passos pequeninos do atraso mental e a olhar no vazio. Não falam um com o outro. À semana ela mal sai de casa. O velho sai, mas anda com dificuldade e a arrastar os pés os dez metros que separam o portão vermelho do café. E foi isto que ficou a vida deles. O velho sai de manhã e fica calado no café, sem falar com ninguém. Ao Sábado, rigorosamente, passam os dois o princípio da tarde ao portão a ver os carros passar. Nunca falam um com o outro. Ao Domingo saem depois do almoço e andam cento e cinquenta metros até ao próximo cruzamento da terra e passam lá a tarde, de pé, a ver os carros passar. O Mário chega do trabalho e come e sai de casa e bebe cervejas no café enquanto se vê a Sport tv e se fuma falando alto ou cantando o karaoke. O Mário grita ao velho e toda a gente o critica na terra. Mas o Mário não faz caso, e tudo se sana depois de ele oferecer pancada. Às vezes é o Mário que apanha no focinho.  Focinho que no seu caso era uma cara clara e inocente para uns olhos claros e inocentes. E o Mário, se tivesse noção da sua miséria, era capaz de apostar que mais de metade das pessoas da rua tinha a vida que ele tinha. São as pessoas que dominam o mundo com o seu olhar pardo de desafio e dor. E um sangue espesso e escuro.

PG-M 2012
sobre factos sem ficção, por uma vez

5 comentários:

SEVE disse...

que texto, uf....

Pedro Guilherme-Moreira disse...

muito obrigado pela sensibilidade. PG-M

A Vitória de Samotrácia disse...

Excruciante. Realidade quase tangível como tão bem sabes (d)escrever, Pedro Guilherme-Moreira
É sim, se nós nos dermos ao cuidado de ver - e existem mais do que pensamos - ".../são as pessoas que dominam o mundo com o seu olhar pardo de desafio é dor.../"
Obrigada caro Pedro por este alerta de consciências.
Bjs.

A Vitória de Samotrácia disse...

Excruciante. Realidade quase tangível como tão bem sabes (d)escrever, Pedro Guilherme-Moreira
É sim, se nós nos dermos ao cuidado de ver - e existem mais do que pensamos - ".../são as pessoas que dominam o mundo com o seu olhar pardo de desafio é dor.../"
Obrigada caro Pedro por este alerta de consciências.
Bjs.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado!