2012-07-26

Todos os jornalistas sabem, só os melhores querem saber



Tem ao menos o mérito de ir dizendo ao jornalismo e aos jornalistas aquilo que muitos gostavam de dizer e têm medo. Medo mesmo. Por saber que se incomodam cada vez que dizem o que pensam, mesmo que o façam sem ponta de maldade ou vontade de prejudicar quem quer que seja. A classe dos jornalistas é hoje a que está genericamente menos disponível para ouvir crítica externa. São violentamente críticos internamente, a maioria deles excelentes profissionais, mas andam em roda livre. Sabem um pouco mais do que o que nós queremos ou devíamos querer ver (todos eles estão convictos do que resulta ou não em televisão). Sabem que deviam autoregular-se - nota-se um consenso neste departamento - , mas estamos no tempo errado para isso, pelo que o movimento nesse sentido (ou não existe, ou) é frouxo. Muitos deles não sabem como reagir à frustração de ter de segurar o emprego e, ao mesmo tempo, ser verdadeiramente livres dos poderes fácticos e, principalmente, dos poderes efectivos - que em último grau são os que lhes pagam os ordenados. Sabem o poder que têm nas mãos, mas estão dentro dele - a objectividade nunca será possível sem uma visão externa e independente com poder interno. A nova série da HBO "The Newsroom" traz para o terreno aquele que é talvez o maior pedaço de ficção com seiva de forte possibilidade (que outros chamam realismo) a correr-lhe nas veias. É refrescantemente inocente e idealista. Faz-nos morder o lábio inferior. É isto, pá. É isto. A série não defraudou a enorme expectativa que gerou e conseguiu ser a segunda melhor estreia da HBO nesta época, como 2,1 milhões de espectadores na estreia, só batida por mais uma história de vampiros, com mais do dobro (True Blood). É irónico que dependa de audiências, como hoje tudo - e todos? - dependem. Já tem garantida uma segunda temporada e tem sabido explorar paulatinamente todas as vertentes da questão: pode o jornalismo voltar a ser sério e isento, mesmo afrontando os seus maiores investidores, e, sendo-o, sobreviver com boas audiências? Ou mesmo com más? Juntem a isto um Jeff Daniels no seu melhor e uma empatia inevitável com Emily Mortimer  - e alguma vontade de reflectir - e têm os ingredientes certos para que a silly season não vos estupidifique totalmente.

PG-M 2012

Abertura do terceiro episódio, que condensa o idealismo refrescante de que supra se falou:

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