2012-07-23

Pois

Quando Robert se inclinou sobre o balcão do melhor pub de San Diego e derramou no seu bourbon sem gelo uma das lágrimas que com afã tentara esconder do seu convidado e melhor amigo Michael eram exactamente onze da noite de quinta-feira, 19 de Julho de 2012. Durante a hora seguinte e até o empregado do "The Regal Beagal" começar a acender e a apagar os interruptores do bar, Robert explicou o seu orgulho. O filho acabara de integrar, pela quarta vez consecutiva, o quadro honra da universidade. É um santo miúdo, disse, bom filho, bom estudante, bom amigo, não me arrependo de um único cêntimo dos muitos que gastei com ele. E prosseguiu quando ambos partilhavam uma cigarrilha nos lambris da India Street e Michael pensava, em siêncio, "pois", querendo este "pois" dizer que não ia abrir a boca para contar os feitos do seu próprio filho como mecânico de uma oficina na Clairemont Mesa Boulevard, ainda que tivesse sido eleito o empregado do mês na melhor oficina da cidade. Estava tão comovido e pleno como Robert, e apeteceu-lhe dizer, enquanto chupava a pedra de gelo que colocara no seu bourbon:
- Somos uns filhos da puta com sorte, Robert, a tomar o melhor bourbon no melhor bar da cidade e com os melhores filhos do mundo.,
mas não disse. De facto, disse apenas
- Obrigado pelo Parker's Heritage, caralho, que grande bourbon. 27 fucking years of age!,
e na sua intimidade pensava com a mesma emoção nos abraços doces do filho, no mimo de anos que agora devolvia ao seu corpo velho, de como quanto mais crescia mais o amava. Mas a verdade é que o filho sempre fora um aluno mediano, ainda que bom mecânico, dera alguns problemas por conduzir sem carta, enfim, não tinha motivos para falar disso ao amigo que o chamara para celebrar mais um feito do filho brilhante com um bourbon caríssimo. Por isso disse apenas a si próprio, enquanto voltava a casa, ainda que com o incomensurável orgulho de todos os pais,

- Pois.,
como sempre dissera "pois" aos quadros de honra, às distinções e às certezas do brilho académico, talvez porque sentisse que a verdadeira América, a verdadeira vida, não estava ali, nos que se destacavam num formato, mas nos que faziam de facto vida fora. Faziam abraços, faziam arranjos, faziam tempo para os outros.
Quando na noite do dia seguinte desistiu de tentar ligar a Robert, chocado, como todo o mundo, mas principalmente o seu pequeno mundo, por se aperceber que fora o brilhante filho de Robert, James, a despejar a Remington 870 12-gauge shot gun e a Glock handgun calibre .40 sobre inocentes num cinema de Aurora, voltou a dizer para si
- Pois.,
mas nem por um momento o fez por falta de solidariedade ou desrespeito, mas porque sempre dissera "pois" aos quadros de honra, às distinções e às certezas do brilho académico. Sentia que a verdadeira América, a verdadeira vida,  não estava ali, nos que se destacavam num formato, mas nos que faziam de facto. Faziam abraços, faziam arranjos, faziam tempo para os outros. Não vinha agora ao caso o facto de sempre ter achado o miúdo frio e distante.
Afinal, era brilhante.


PG-M 2012
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